Merry Christmas Mr.Lee

Sinopse:

“O único natal que marca positivamente, pode ser o que não volta mais.” Baseada na música “Forbidden Colours” de Ryuichi Sakamoto, trilha sonora do filme japonês de temática homossexual Furyo.
Notas: Bem, tentei um tipo de escrita mais rebuscada e cheia de Flash Back(as frases em negrito e itálico). Espero que não se confundam. Leia a fic escutando Forbidden Colours do Ryuichi Sakamoto, a sensação é totalmente outra! Boa leitura ❤
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– Por que demorou tanto?

– Aish, não fez nem 3 minutos.

Nevava em Seul. Claro, era natal. Não existe nada mais original que isso, certo? Neve no natal… Chocolate quente acompanhando a trajetória. Sabe, odeio chocolate, muito mesmo. Prefiro tomar um vinho para aquecer. “Hyung! Não pode beber aqui! E se a polícia pegar? Não vai dizer que fui eu, né?” era o que meu amigo Sungmin citava cada vez que eu dava um gole na garrafa térmica. Como somos menores de idade, é natural a preocupação.

– Quer um pouco do meu chocolate? – Sungmin estendeu a caneca.

– Sabe que eu odeio chocolate. – Mais um gole de vinho.

Há décadas minha família passa o natal aqui em Seul no chalé da família do Sungmin. Nossos pais são empresários de multinacionais de gerações, nossos tataravós(quiçá mais tempo), trabalham como sócios. Um amarrando o cadarço do outro. A Young Kim – empresa do meu pai – fabricante de chocolate e a Lee Min – do Sungmin – de vinhos.  Sim, o que vinho e chocolate têm a ver. Ora, pra nossa família muito. A Kim&Lee fizeram a combinação mais saborosa de bombons de vinho da Ásia, já ultrapassando quase todos os fabricantes da Europa. E quando digo “saborosa”, é de censo comum, agora…

Por favor, não me faça fazer isso de novo. Vamos parar aqui.” era o que ele dizia a cada ano. Desde os meus 12 anos, peço a Sungmin que encha a minha garrafa térmica com vinho em troca de uma caneca de chocolate quente tirado do caldeirão da empresa. Nada mais justo, ele ama chocolate e eu amo vinho. Qual trato melhor que trocar o melhor vinho da Ásia pelo melhor chocolate dela? Álcool para o alcoólatra e chocolate para o chocólatra. Agora tenho 18 e ele ainda não parou, talvez nunca pare… É, o vício é maior, ele nunca vai parar.

Não se enganem. Apesar de todo natal juntos, amizade quase secular de família, eu e Sungmin não somos nada próximos… A começar pelos nossos gostos. Desde criança, ser amigo dele é como ser amigo de uma menina. E não falo pela cor favorita ser rosa, ou o fato de adorar brincar com fantoches de teatro em musicais, até mesmo termos passado a pré-adolescência eu com uma namorada por mês e ele com o ideal de “arranjar uma garota especial”, tipo princesa encantada, sabe? Não ligava muito pra isso… Hoje ele é gay. Sim, assumiu há dois anos, mas não foi só isso. Ele assumiu para mim, e adivinha como? “Hyung, minha irmã sabe, a minha mãe também. Como somos melhores amigos desde a infância, preciso ser sincero com você… Gosto de você. Por favor, prometa não me bater ou terminar a nossa amizade por isso, meu coração não escolheu ser assim.” em meio a um monte de lágrimas. Como vim de uma família homofóbica, minha reação foi de choque. Não tive ação, disse que fingiria que nada tivesse acontecido. Desde então, só nos vemos no natal, e só pelo vinho também…

– Tem chocolate no seu rosto. – Disse a ele, que logo a limpou. Bebi mais um pouco e saí.

No fundo eu não gostava de tratá-lo assim. Prometi que fingiria que nada tivesse acontecido, mas não dava. Muitos momentos da nossa infância passaram a me incomodar, digo, claro que não havia maldade alguma, principalmente com Sungmin que sempre foi um menino doce, e boa parte das brincadeiras eram propostas por mim. Mas o meu medo de ser assim algum dia me fez repudiá-lo por coisa que ele não tem culpa, principalmente porque não se há dolo para se culpar.

– Tem chocolate no seu rosto. – lambi o local sujo e fugi morrendo de rir. Tinha 8 anos.

– ARGHT! Me molhou! – Sungmin, com 7 anos, corria atrás de mim querendo lamber o meu rosto de volta.

Virei um minialcoolatra com 12 anos, comecei a passar mal de beber aos 15. Meu pai cortou todos os tipos de bebida da casa e me proibiu de sair sem ser com Sungmin, que segundo ele era um “menino direito”. Engraçado, ele sempre dizia a minha mãe que morria de medo de que eu continuasse andando com o Sungmin e acabasse pegando a “frescura” dele, de repente o menino vira uma pessoa direita? Hipócritas!

– Hyung, não posso ficar trazendo bebida pra você com tanta frequência… Meu pai vai desconfiar…

– Suas bochechas são grandes. – Eu as cutucava e ria caindo de bêbado. Embriagado com 15 anos.

– Por favor, me dê a garrafa. – Ele pedia com muita piedade, como se fosse chorar a qualquer hora.

– Vem pegar. 

Sempre enfiava a garrafa nas calças. Ele nunca pegava por conta própria, óbvio. Então eu enfiava a mão dele na minha calça para que ele pegasse. Pelo desespero, ele aparentava ter nojo. Hoje em dia, analisando a questão, vejo que era medo… Medo de ser descoberto.

Ele ainda está lá fora. Está tão frio que a janela embaça 5 minutos depois de eu limpar. Neve e chocolate eram as únicas coisas que Sungmin apreciava no natal. Natal deixou de ser uma boa data desde o dia que me encontraram bêbado no quarto do Sungmin… Isso foi o que? Ano retrasado? Sim, ano retrasado. Ano retrasado também foi o ano que Sungmin se assumiu para mim. Sim, no natal. Sabe aquela teoria “cu de bêbado não tem dono”? Usem a criatividade…

Não se lembra de nada? Nadinha mesmo?” foi o SMS que ele me mandou no dia seguinte a briga que teve no chalé. “Nada”…

– Você sabe que eu jamais faria algo assim! – Disse Sungmin implorando por piedade. Soquei-o no rosto.

– Você me sujou com a sua perversão!

Estava com tanto ódio que queria matá-lo após receber a notícia pela minha mãe uma semana depois do caso de que eu e Sungmin fomos flagrados transando no quarto.

Não me lembrava de nada porque além de bêbado eu tinha desmaiado de tanto apanhar do meu pai no dia, apagou completamente a minha memória. Minha mãe me proibiu de andar com Sungmin durante muito tempo, quase que as relações tanto emocionais quanto econômicas dos nossos pais se romperam. Ficamos quase dois anos separados.

Ano passado foi o natal mais estranho da minha vida. Não foi no chalé, não teve álcool e não teve Sungmin… Não quero admitir, mas chorei. Lembrei-me da nossa infância, dos tempos juntos. Não fui capaz de olhar pra tudo aquilo que estava acontecendo, se modificando tão depressa, toda aquela briga, ódio, culpa, sentimento traído, tudo isso foi demais pra mim. Eu achava que estava tudo demais até meu pai receber um telefonema do Pai de Sungmin, avisando que este tentara suicídio naquela tarde, mas fracassou por vomitar todos os remédios que ingeriu enquanto bebia vinho. Corri para o hospital no momento em que meus pais escutaram a notícia pelo telefone. Eu estava louco, nunca senti tanto medo na minha vida, lágrimas não caíam do meu olho assim há anos, anos mesmo. Choquei a ladeira, peguei o metrô até Seul me desmanchando em tantas lágrimas, rezando para um Deus que eu não acreditava para que tirasse a minha vida em troca da do Sungmin. Ora, mas se nunca o considerei tão próximo assim, por que tudo isso? Seria um grande remorso? Não só…

– Sempre foi fraco para álcool… Ainda bem. – Disse a ele enquanto nossas mãos estavam entrelaçadas.

Ele sorriu com o rosto todo molhado de tanto chorar, retribuí o sorriso com o meu rosto molhado também.

– Disse que gosta de mim. – Despia-o em meio de beijos quentes que ele tentava impedir desviando o rosto.

Estávamos no quarto do chalé ano retrasado, eu bêbado, seminu, ele se segurando para não perder o suéter quase arrancado por mim.

– Hyung, por favor, pare. – Ele tentava se afastar, mas meus braços eram bem mais ágeis. – Você está bêbado, por favor…Sabe que é mais forte do que eu… E a minha vontade também…

Ri após tal confissão.

– Então está com vontade? – Enfiei a minha mão dentro da sua calça. – Fiquei triste da última vez ter conseguido só um beijo… Até quando vamos ficar só nos beijando?

Sim, eu procuro Sungmin há muito mais tempo, muito antes desse episódio do quarto. Muito antes de ele se assumir para mim. Sabe quando dizem que o álcool faz você expressar os seus desejos mais profundos? Ele fazia isso comigo e eu nem sabia, ou pelo menos fingia que não. As lembranças eram vagas no dia seguinte, mas eu fingia que nada tinha acontecido. E ele acreditava, ou também fingia acreditar. Nunca tocávamos no assunto. A única troca que fazíamos era chocolate por vinho, sim, o vinho que ele jamais pararia de trazer, e eu de pedir.

– Mulherzinha! Como ousa me tocar vulnerável? – Disse ameaçando socá-lo novamente depois da incidente no quarto.

– Eu sou mulherzinha? Se considera mais homem do que eu pela sua opção sexual? O vinho é a única coisa que te torna homem!

Na hora, veio a minha mente o momento no quarto:

– Vamos, disse que gosta de mim, por que não quer me usar?

– Nunca disse que queria te usar, disse que te amava! – Lágrimas saíram do seu rosto. – Por que não reconhece o meu amor como amor? Por que me procura dessa forma só quando bebe?

E então, compreendi.

Era difícil para mim. Saber que realmente ouve algo entre nós e eu nada lembro era a coisa mais impossível de suportar. Até hoje tento resgatar as memórias, mas parece que tudo se foi naquele quarto, com o álcool. Uma vez tal néctar teria de estar contra mim, escolheu justo esse momento?

Por mais que me doa não lembrar, me dói mais ainda não produzir mais momentos como aquele. Depois da internação, passamos pela última vez no chalé, acho que o último natal realmente conectados.

– Suas bochechas continuam sujas. – apontei.

Deu um sorriso vazio e ergueu o braço para limpar. Segurei-o e puxei para uma despedida. Desta vez sem álcool, sem culpa, sem brigas. Selamos os nossos lábios, transformando em um beijo mais profundo e nada leve. Ele sabia que seria a última vez, por isso aproveitou a carícia e chorou durante o ato. Lágrimas salgadas com gosto de chocolate. Nossa, como te odeio, chocolate… Você me lembra o que não posso ter.

Hoje mal parece que temos ligação. Voltamos a passar os natais juntos, somente pela rotina de troca de favores, para mim, para ele e para os negócios da nossa família. “Feliz natal, Senhor Lee” foi o que eu disse com a garrafa vazia na hora de partir.

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