Sem rumo

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– Tem certeza que você vai ficar bem sozinha? – A menina loira, grávida de oito meses, vestida como camponesa beijava o rosto da ruiva com malas prontas para a partida.

– Vou sim, querida. – Retribuiu o beijo antes de partir.

Pegou o táxi e deu mais de 300 dólares afirmando que a viagem seria longa. Foi.

Agosto, dia 26, foi exatamente esse dia que Krystal se mudou para a cidade. Nova York parecia ser bela, mas sem dúvida sentiria falta da caipirice do Alabama na qual foi criada. Não chorou ao se despedir de sua irmã; casada nova, já na espera do terceiro filho, decidiu que não queria a mesma vida para si.

Até dois dias atrás, dividia seu quarto com Sullie, uma amiga virtual de mais de cinco anos. Contudo, essa agora estaria casada, tendo de abandonar sua amiga de aproximadamente três meses de convivência física para desfrutar do matrimônio lésbico que só seria possível naquele estado.

Krystal se encontrava no banheiro, fazendo mais um ritual não proposital enquanto se banhava. Estava sentada embaixo do chuveiro, abraçando as próprias pernas enquanto a água escorria fraca pela extensão do corpo. Estava chorando, mas sem motivo algum. Apenas deixava as lágrimas escorrerem sem motivo algum. Milhões de acontecimentos tristes passavam pela sua cabeça, desde um coma de uma mulher bela e jovem em uma ficção Almodovariana, à cena de sua mãe com uma arma na testa, disparando contra seu próprio crânio em frente às duas filhas que entravam no quarto justamente nessa infeliz hora. Não, as lágrimas não eram por nenhum dos casos citados a pouco. Ela bem que queria, forçava-se a tentar saber porque chorava. Entretanto, não encontrava motivos, ela só chorava. Externava angústias que talvez nem tivesse em seu coração. Mas ela rezava; o fazia a fim de encontrar a infelicidade em si para, assim, desculpar a água que apenas brotava de suas vias oculares e a amarguravam, como se tivessem vontade própria.

Limpou-se com a toalha. Ia tomar só um comprimido de antidepressivo, todavia, de costume, tomou quatro. Não era a primeira vez que tinha problemas com dosagens, mais de 50% das suas chegadas no hospital eram por overdose, sempre taxavam como tentativa de suicídio, mas ela se negava. Afirmava que um só não funcionava, então tomava quatro, quem sabe da vez funcione.

A secretária eletrônica pitava. Era Jéssica, irmã única, primogênita. Krystal não atendeu. Sabia que se escutasse a voz da irmã, choraria. Ela precisava ser forte, prometera não só a sua única família do Alabama, mas a Jin, única família de NY – mesmo que não seja de sangue – que ficaria muito bem sozinha, e infelizmente, Jéssica era sua kriptonita.

Se olhara no espelho e odiou o que via. Seus cabelos exageradamente molhados, sua pele de anêmica reluzia má saúde, até mesmo as olheiras estavam mais profundas, nem quatro comprimidos de antidepressivo agora funcionavam, pois suas insônias reviviam desde que Jin mudara-se para viver com a esposa.

Não quis mais saber dos remédios, ou da secretária que permanecia apitando, nem das lágrimas que voltaram a escorrer. Terminou de se enxugar, secara seus cabelos com um aparelho barato comprado da Polishop, o site que mais consumia seu dinheiro devido às insônias e ansiedades da madrugada, maquiou seu rosto, vestiu a roupa mais bela que tinha, catou a bolsa de documentos e saiu para passear.

Era quase meia noite. Ela não tinha rumo sobre a pista, apenas caminhava, tamborilava com seus saltos para lá e para cá, sorria. Não sabia porquê, como as lágrimas no chuveiro, ou a dor em seu peito que apertava toda vez que se banhava, apenas sorria. Não sabia para onde estava indo, seguia apenas o instinto de ser espontânea que vez ou outra brotava de si. Arrumou-se à mesma, e foi. Não importa de, nem para, apenas foi.

Quando cansou de caminhar, puxou um cigarro da bolsa e fumou em frente a uma banca 24 horas. As revistas pareciam mais boçais do que os textos acadêmicos que os professores incentivavam-na a ler. Tudo mais superficial e redundante que nunca. Como o mundo, como ela mesma.

– Volto em instantes. Pode vigiar a banca para mim, pequena? – O velhinho que a admirava questionou.

Ela assentiu com a cabeça, sem dar bola. Pegou um chiclete de menta sem pagar. Ela odiava chiclete, mas de tudo que aquela caixa de ferro imunda podia oferecer como um pagamento que ela não receberia por “ser vigia”, era isso.

– Muito obrigada. – O velhinho voltou agradecendo com cara de aliviado. – Não vou ao banheiro desde as 18h. – Disse sorrindo.

Krys apenas se curvou. Jogou fora seu Carlton na metade, chamou um táxi e voltou para casa.

Tentou dormir, mas adivinha? Ela mais uma vez fracassa nessa jornada. Seu despertador tocaria daqui a quatro horas. Começou a ficar ainda mais ansiosa pra dormir e caiu na real que isso jamais aconteceria. Levantou-se, acendeu um incenso de menta, colocou um mantra budista altíssimo e aguardou a reclamação dos vizinhos. Não deu outra, trinta minutos depois estavam ameaçando chamar a polícia gritando através da porta. Krystal ria, se contorcia de rir na varanda escutando a vizinha gritar “vou pegar o machado e arrombar essa porta, vadiazinha caipira”. Ela adorava. A madrugada sem dúvida foi mais produtiva que sua noite.

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