Top 5 de fanfics que se deve ler – parte IV

1 – Efêmero, Verônica(onewdubu)

O Hanami é considerado um dos eventos mais belos do Japão. A delicadeza do desabrochar das cerejeiras é tão importante aos nipônicos que se é observado(coberto por redes midiais locais) o abrir do primeiro botão de Sakura daquela determinada região. A paisagem fica tão bela que todos os japoneses saem de casa para contemplar, independente da locação(muitos comemoram o feriado até em cemitérios). Mas não se trata só de estética, o foco principal dessa comemoração é a reflexão de um conceito chamado Mono no aware, que significa o aproveitamento máximo da felicidade momentânea; afinal, como a vida, a beleza daquela Sakura é efêmera, isto é, dói porque sabemos que vai acabar, e rápido. 

Tratando-se da concretização do Hanami, a fanfic Efêmero aborda de forma profunda o Mono no aware com a história de Sakura, uma menina que tem uma doença terminal, é adotada com muito esforço – devido o conhecimento prévio de seu problema de saúde por parte das pessoas que procuram por adoção – por um casal chinês homoafetivo presente em uma crise de relacionamento afetiva e social. Como as cerejeiras no Japão, Sakura faz o casal refletir quão bela e efêmera é a felicidade, a vida. 

Comentários: 
Levando em conta o tema, ainda que de forma implícita, o objetivo da autora foi cumprido quando o casal comemora realmente o Hanami com a Sakura concretizada. Mas senti falta de alguns aspectos como a presença da própria Sakura nos eventos de reconciliação. Faz um tempo que li a fic, mas lembro que de todos os episódios, Sakura mostra-se mais como uma ferramenta de reatamento do casal do que o significado da efemeridade da vida. Digo isso porque apenas dois momentos com esse significado me marcaram, o encontro na praia e a chegada de Sakura na confecção do quarto. O foco principal foi a resolução dos problemas que o casal tinha anterior a Sakura e a nova convivência pós Sakura, tudo isso quebrou um pouco o papel da menina, quase fugindo do que a Sinopse prometeu. 

2 – Lolita, Moon(Kill-luhan)

Este é o cenário de Nápoles, Itália, no século XIX, posterior a guerras napoleônicas que fez o país dividir-se em oito estados soberanos, sem opinião popular, onde o direito de participação política era privilégio de alguns cidadãos ricos e poderosos: um povo que vive à sombra da religião, ligado a costumes ancestrais, com privação de tudo. (blog de referência conceitual: história do meu avô

Lu, por causa do pecado abominável de contemplar o próprio corpo, que segundo seus pais, não nasceu como devia, é forçada a separar-se da família como castigo de seu superior patriarca, justificado pela vontade divina. Mas apenas essa punição não é suficiente para ganhar o perdão de seu Deus; somente o padre, o homem abençoado, pode absolvê-la. 

Comentário 
Frente a um tema complexo como religião e escatologia dogmática, a autora trabalhou com o tema igreja de dia, bordel de noite, dando uma leve abordagem de tráfico humano e o quão comum atitudes bizarras surgirem em tempos de desespero, como se encontrava a Itália na época relatada. A religião normalmente tem o papel de esperança quando o caos presente, o desespero cega trazendo eventos terríveis na história da humanidade, mas Lu provavelmente não teve apenas o motivo de seu pecado para ser entregue a instituição, ou castigada da forma que foi. Além do destino, existe também o planejamento de caráter unicamente humano. Teria sido vítima desta ferramenta, e por quê? 

Essa fic foi tema em um clube da fic de Noireland e muitas pessoas não compreenderam o porquê de Luhan começar a se travestir tão tarde se o desejo de seus pais foi ter uma filha moça. Tirei a dúvida com a autora e o motivo não me satisfez de forma alguma: Luhan se travestiu somente na adolescência simplesmente por ser andrógino. O que mais incomodou não foi o mau aproveitamento da “transexualidade”, mas a identidade e opinião do Luhan frente a isso: ele odiava vestir-se de mulher, não se sentia uma menina, não era transgênero. Logo, toda a submissão ao seu pai e ao padre foi em vão se refletindo ela como uma “menina” frágil que pede perdão a tudo e a todos, mas em um estado de pura vulnerabilidade é super petulante com a freira. Muitas atitudes no decorrer da fic são postas em cheque se Luhan se identificava como um menino, o que faz pensar que o cross dress não passou de um fetiche, uma tag sobrando e neutralizando, até confundindo, eventos que fariam sentido se Luhan realmente tivesse sido educado como menina. 

– Lucifield, Noire(VenusNoir)

A palavra “trauma” em sua raiz etimológica grega significa lesão causada por um agente externo. Trauma psicológico é o resultado de eventos extraordinariamente estressantes que quebraram o senso de segurança, fazendo o traumatizado se sentir impotente e vulnerável e que leva a sentir-se vivendo em um mundo perigoso. Não são os fatos objetivos que determinam se um evento é traumático, mas sim a experiência emocional subjetiva da pessoa no evento. Quanto mais assustado e indefeso se sente, maior a probabilidade de você ser traumatizado. Como consequência, não apenas insegurança pessoal, solidão e opressão, mas em casos de um grande trauma, para sobreviver, o doente tende a amnésia. (blog de referência conceitual: Boreas

Alguma coisa no passado fez Chanyeol ter a vida medíocre que tem hoje, ele sabe que a única forma de não acabar morto como seu amigo suicida Lay foi abrindo mão da vida de que tinha; família, amigos e principalmente sua escola. Só tem um problema, ele não sabe por que faz isso, mas sabe que tem que fazer. Em um evento inédito, seu ex-colega de escola que sabe mais sobre Chanyeol que o próprio, insiste que a única forma de poder ambos se ajudar é fazer Chanyeol se lembrar de tudo, mas conforme tenta fazê-lo, repara que talvez o sujeito não tenha se esquecido, mas abandonado o evento de tal forma que seu cérebro o programou para realmente não falar sobre isso. 

Comentário: 
O mistério é bom, mas garanto que é o menos atraente nessa fic devido à complexidade. A presença do objetivo está em toda parte, mas o romance está tão calculado, os personagens tão estruturados em seus devidos papéis que até se esquece o objetivo da fic por questão de distração. Isso não é uma crítica segundo o meu ver, porque eu realmente tenho dificuldade de desenvolver um romance misterioso sem focar, fazer questão de mostrar a todos que “há um mistério”. A Noir conseguiu desenvolver o romance com naturalidade, mas ainda sim vejo uma pontada de desespero ao desenvolver as pistas e pouco falar sobre o problema do Chanyeol. Parece as vezes que ela enrola um capítulo para evitar spoil com concisão e estragar uma futura surpresa. Acredito que seja proposital, mas as vezes me desespero juntamente com a autora, fico pensando “será que ficou tão natural quanto ela queria que ficasse?”. A fic ainda está em andamento, e quase chegando a metade, em contrapartida já estou tendo hipertensão pela espera, eu realmente não devia ter pedido spoil T.T, mas acredito que não seja o determinante da minha condição, já que a fic em si está incrível. 

4 – Amor comum, Reeichel(miss-fan)

O sonho é uma experiência que possui significados distintos se for ampliado um debate que envolva religião, ciência e cultura. Para a ciência, é uma experiência de imaginação do inconsciente durante nosso período de sono. Para a psicanálise o sonho é o “espaço para realizar desejos inconscientes reprimidos” ou “mero subproduto da atividade cerebral noturna”… Recentemente, descobriu-se que até os bebês no útero têm sono REM (movimentos rápidos dos olhos) e sonham, mas não se sabe com o quê. Em diversas tradições culturais e religiosas, o sonho aparece como uma expansão da consciência ou é revestido de poderes premonitórios.(site de referência conceitual: Wikipédia

O inverno estava chegando ao fim e Luhan se transformava. Galhos nasciam de seus dedos, folhagem logo na ponta. Uma árvore era o objetivo de sua metamorfose. Mas, humanos não viram árvores, não se culpa a chegada da primavera por uma bizarrice genética. De repente, acorda. Tudo não passou de um pesadelo traumático. Olhara no calendário, e a primavera vinha com tudo, e com tudo sentiu seu corpo mudar, ele estava realmente se tornando uma árvore. Com muitas vontades para realizar antes de deixar de ser Luhan, a única que precisava ser atendida era ver seu amado ex que abandonou há dois anos, por medo de viver, pela última vez enquanto se despedia da própria vida. 

Comentário: 
Essa One-shot concorreu a um concurso de tema primavera e infelizmente não chegou nem a ser classificada. Fico surpresa porque apesar de abordagem simples, a autora trabalha com lembrança e fantasia de forma tão cuidadosa, corrido, mas profundo e impactante, exatamente como um conto deve ser segundo Allan Poe(o primeiro teórico literário a conceituar o conto de forma dissertativa), e a criatividade de abordar um tema tão genérico quanto primavera sem fuga ao tema, ou clicheirismos muito fáceis de cometer. Além da contemplação da estrutura bem feita, é possível uma breve reflexão do que é belo e lamentar o fim sem exacerbação de lágrimas, ou aqueles pastelões de arrependimentos. A fic é profundamente dramática, mas de forma delicada, sem vulgaridades com protagonistas e antagonistas como nos contos de fadas ou novelas mexicanas. Nada me deixou com sentimento de falta, talvez por se tratar de algo brevíssimo, como a vida de um casal que se passou em uma noite através de reflexões quanto a recordações e o próprio momento da passagem para o fim, um começo não da forma que se espera, mas que acontecerá. Acontecimentos efêmeros, mas marcantes para os participantes. Isso é um amor comum. 

5 – Porn Star, Hitokiri-chan(bloodmary)

Hikikomori é um termo de origem japonesa que designa um comportamento de extremo isolamento doméstico. Os hikikomori são pessoas geralmente jovens entre 15 a 39 anos que se retiram completamente da sociedade, evitando contato com outras pessoas. Em contrapartida, os adeptos dessa síndrome esbanjam a vivência virtual, possuem relacionamentos ricos com seus video-games, televisão, computadores e etc. As crises se dão, na maioria das vezes, por sentimento de impotência ou apenas uma escolha; eles podem não conseguir vivenciar o real, por isso foge para o virtual ou podem desprezar o real exatamente para viver mais o virtual.( Site de referência conceitual:Wikipédia

Kyungsoo tem um namorado, seu namorado é namorado de todos os pervertidos que viram noites no computador buscando Kai, um brilhante e delicioso Porn Star. Mas não é apenas um Porn Star para D.O, Kai realmente era um Deus; fazia KyungSoo se aventurar escondendo pornografias no computador e dildos em tabuleiros de jogos infantis velhos para cultuá-lo. Kai sem dúvida era o ser que fazia a felicidade de KyungSoo enquanto em vida. Cansados do isolamento extremo do amigo, Sehun e uns colegas combinam de levar Kyungsoo para uma festa com a finalidade do moço ter a primeira experiência sexual, uma real, pelo menos. Como têm em todos os contos, KyungSoo e Kai cruzam as linhas paralelas do virtual e do real em um metrô, mas será a realidade tão idealizada a ponto de fazer KyungSoo preferir vivê-la? 

Comentários: 
Quem não gostaria de presenciar o momento com o bias? Ainda mais se ele for o ator pornô que mediou todas as suas punhetas posteriormente tirar a sua virgindade no seu primeiro contato com o real após longos anos de isolamento. A idealização é algo perigoso, a fic mostrou de forma clara uma vez que Kyungsoo começa a sentir ciúmes do namorado, mesmo que este emprego tenha sido o meio da paixão do menino pelo ator, quando vivencia a convivência com Jongin, não Kai. Contudo, a abordagem ficou fraca(não estou dizendo que era o objetivo da autora abordar real e virtual, na verdade, é apenas a minha visão frente ao texto dela) quando Jongin era o cara tão perfeito, tão romântico que abriu mão do emprego, apartamento, todas as conquistas só para fazer um fã, que conheceu por acaso, feliz. Por mais que ele tenha se apaixonado, Kai se mostrou o Deus do D.O tanto nos filmes, quanto na vida; ele foi tão romantizado, tão símbolo de perfeição maniqueísta, tão personagem de John Green, que neutralizou bastante a quebra que o D.O tem do real e o virtual, sendo o único fator de mérito o emprego de Kai: foi o início do relacionamento e igualmente fim. 

 
 
Sei que as resenhas ficaram pretensiosas, culpo o tempo, faz muito tempo que as li(exceção Lucifield que ainda está em andamento), mas foram as únicas que me incentivaram a dissertação. Espero que tenham gostado, já solicitei as autoras das obras, caso elas não permitam escrever sobre elas, estou disposta a diminuir o top, por isso, sujeito a modificações ^^ 
Ps: se for leitor de He is so pretty, Pink Tape ou Shi a princesa da morte, estou preparando tudo de uma vez, Julho nos aguarda(assim espero) xD 
Kiseo ❤

Escutando: Psycho, History
Lendo: Fontes para me ajudar na conceituação dos temas

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