Shi, a princesa da morte

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Glossário:
Hanami = festival japonês de apreciação do nascimento das cerejeiras
Sakura = espécie de cerejeira
Ien = moeda japonesa. A conversão para o real seria mais ou menos 2 reais = 100 iens(hyakuen).
Esse é o Kanji de 4 = 四

Capítulo 1 – O Prazer

Na feira livre, um motoboy trazia uma quantidade considerável de pizza ao equilíbrio mantido, tudo para que não caísse. Era sem dúvida um talento do moço carregar cinco caixas em um só braço em alta velocidade sem deixar cair. Enquanto ostentava dessa habilidade, admirava as novas paisagens pelas quais passava. Incrível como seu olhar de artistas olhava beleza onde não existia, enxergava beldade nas pessoas adoentadas estiradas na calçada, frescor na baia suja e achava a arquitetura desses bairros miseráveis uma das mais incríveis. Como Henrique era apaixonado pela vida. Sua vida.

No fim de todas as encomendas, dirigia-se ao seu chefe com alegria, em mãos os trinta reais diários, fora a gorjeta, que às vezes recebia, as vezes não. Sabia que seu salário era pouco, em lugar nenhum uma noite inteira de trabalho lucrava apenas trinta, mas se contentava. O motoboy jamais tiraria seu sorriso do rosto pelo que lucrou, somente pelo que deixaria de.

Na decida pra casa, recebia sorrisos e cumprimentos das moças e mulheres que madrugavam pra trabalhar como donas de casa, era aproximadamente cinco da manhã. Após os muitos bom dias, deu a taxa do quarto que alugava, hoje era dia de pagamento. Como era fofa a senhora Gonçalez, não sorria pra ninguém senão Henrique. Viúva, mantinha essa pensão como única forma de sustento, não tinha aposentadoria pelo INSS. Amava Henrique não só por ser o único que não lhe dava calotes, mas porque Henrique era amável por natureza, considerava o moço o seu segundo filho… Ou filha, não sabia como se dirigir.

Agora, Henrique se transformava. Tirava suas roupas masculinas com todo prazer, lavava seu corpo com volúpia e felicidade. Vestimentas eram sempre rituais, hoje calçara sapatilhas vermelhas a fim de combinar com sua saia cigana, enquanto se maquiava, ria ainda mais pro espelho, admirava-se por ser bela. Ao fim da produção, dirigia-se a universidade contente, local que ninguém o recriminava por ser quem realmente era. Mesmo com um salário miserável, uma moradia longe de ser dos sonhos, Henrique era feliz enquanto podia ser.

X

Depois de três horas de metamorfose no camarim, Shinohime apreciava sua imagem quase perfeita, em reflexos. Impossível estar mais bela. Quanto mais próxima à perfeição Shi chegava, mais insatisfeita estava, pois sentia que a cada dia se afastava da própria. Insatisfação nem sempre é infelicidade, para Shi, estar menos perfeita significava maior proximidade consigo, um estilo próprio, uma identidade só dela.

Preparada para ser recebida por uma plateia lotada, de ingressos esgotados na segunda semana promocional, Shinohime aparece com o conceito hanami, mas não o nascimento das sakuras, mas a morte delas. A morte era a sua maior fonte de inspiração.

E entrava no palco lentamente, praticamente abraçando a cortina vermelha ao atravessa-la. Na passarela, seus olhos sempre fixos no chão xadrez com os cantos coberto de pétalas de cerejeiras negras. O público, por sua vez, não desgrudava os olhos com admiração pela performance cênica quase extraordinária de amargura. Seu quimono preto enrolado por mais de cem tecidos, das mais caras e variadas sedas, era o que chamava mais atenção da sua franquia, independente do tipo que pertenciam. A gueixa estrangeira era idolatrada por homossexuais, estilistas, fãs de ópera, donas de casa, outras cross dressers e até mesmo tarados que abdicavam da revista de cem iens da banquinha pra pagar dez mil no ingresso mais barato para seu espetáculo. Shinohime era a moça mais amada daquela região. Isso fora do business, que tinha contemplação quase mundial, “sakura no shibou” ou “a morte das cerejeiras” era sem dúvida o maior sucesso.

Ao fim de toda a coreografia, dublagem mais que perfeita e comoção, todos sem exceção a aplaudia de pé com lágrimas nos olhos. O rosto de Shi modificava-se mecanicamente, aparentava até uma máscara trocada sem que o público vesse, de uma expressão angustiante e fragilizada, seus lábios se moviam rumo ao infinito, sempre para cima. Não existia um sorriso mais bonito, impossível.

X

Seu choro era tão alto que nem o travesseiro conseguia abafar. Henrique não era um menino mimado, longe disso. Como o quarto e último filho homem de uma família de vida mediana, ainda que caçula, tinha o direito de chorar por qualquer coisa? Isso parecia um luxo até pra uma criança de oito anos, como no caso. Hoje é o aniversário de Henrique, e ninguém quis lhe dar o presente que desejava.

– Se parar de chorar, lhe compro o que quiser. – Disse sua vó a frente.

– Papai não vão deixar…

A velhinha acariciou a cabeça do pequeno, que por sua vez olhou pra ela com os olhos vermelhos de chorar. A anciã suspirou o beijou a testa do neto.

– Pois se parar de chorar, vamos agora comprar qualquer boneca que escolher. Garanto que terá uma.

O menino pulou, ostentou o sorriso mais alegre que de costume, agarrou o braço da avó, saltitante, que também se alegrava a reação do caçula tão positiva por depender dela, foram às compras rumo a uma pequena tenda indiana próxima a casa.

Aqui jaz uma tenda inesquecível para o pequeno. Na barraca, como um milagre natalino, que na verdade acontecia em agosto em pleno aniversário, somente bonecas haviam lá. Porcelana, pano, plástico, latão. Todas as variedades de materiais eram encontradas nas confecções das mesmas.

O menino apalpou a primeira que viu a frente. Estava encantado, como criança rica na Disneylândia pela primeira vez.

– Porcelana, querido? Não são pra brincar, só enfeitar.

Ele assentiu com a cabeça a afirmou baixinho que só estava olhando.

– Quer uma dica?  – Sua avó questionou com uma expressão esperta. – As de pano são as mais divertidas. – Afirmou sorridente. – Todas as minhas eram de latão, porque as de pano sempre foram muito caras. As de latão enferrujam, não queira passar pelo trauma que eu passei. – Dizia aquilo com tanta convicção ao seu neto, que ele ouviu cada dica encantado, estilo lobinho e escoteiro. Mais divertido que comprar a boneca que tanto chorou pra conseguir, era escutar dicas de uma especialista, para ele…

Depois de toda a confusão de pensamentos em qual levaria ou não, já que por ele todas estariam na sacola, escolheu a última que sua avó achara que ele fosse escolher. Henrique neste momento abraçava com muita força uma pequena gueixa.

– Oh, vai levar a japonesinha mesmo? – A avó catava as poucas notas no porta-níquel.

– Sim. É ela que vou levar.

A vendedora, que apesar de estar numa feira indiana, era japonesa, explicara que o nome da boneca era “Yon”, e que o quadrado com duas meias curvas desenhadas nas pontas de cima costurado em seu quimono, significava quatro. Explicou que Yon tinha esse nome por ser a quarta filha em uma cultura na qual o número quatro era considerado azar.

– Por que azar? – o menino perguntou assustado. Ora essa, ele também era o quarto filho de sua família.

A vendedora explica que quatro também tem a leitura de “shi”, que podia significar morte.

– Que tipo de história é essa? – a avó de Henrique terminava de contar o restante das notas. – Quer levar outra, querido?

Henrique sorriu com toda doçura que podia carregar consigo.

– Não. Ela é perfeita!

E assim voltou abraçado a Yon de mãos dadas à pessoa que mais amou em sua existência enquanto ser humano. Aquela que lhe deu o dom de amar a si mesmo como é.

Não existiu dia, na sua vida, mais feliz.

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