A dependência dos signos para a liberdade da civilização

Relia a mensagem sem parar. Isso não podia ter acontecido. Não parava de apertar o F5, conforme nada atualizava, lágrimas caiam de seu rosto. Sunyoung estava no metrô, aos prantos. Tentava se segurar ao máximo, mas era inevitável, seus soluços eram incontroláveis. As pessoas iam reparando, aos poucos, notava-se uma pequena multidão de par de olhos discretos mirando-a com diversos julgamentos enquanto sua vida se destruía naquele momento, em frente a uma mensagem de texto.

“Te amo, por favor. Eu realmente te amo. Por que faz isso comigo? Por que comigo?” era o pequeno texto que já se passava do 100 no click de envio.

Sunyoung não saía do estado apresentado. Passou-se quatro horas, e não se movia.

Já era 6h15 quando notou. Na verdade, não notou. O homem da limpeza despertou-a do transe avisando-a que o último trem havia chegado. Rudemente disse a ela que o pegasse, ou desse licença para que pudesse terminar a limpeza.

Se sentiu inútil.

Ainda mais.

“Mamãe, onde estava?” a primeira coisa que ouviu quando finalmente chegou. Sua filha, Jinri, de sete anos estava sem comer há mais de seis horas.

“Se incomodaria se eu fizesse miojo hoje, de novo?” tentou forçar um sorriso. Seu bebê balançou a cabeça negando, sorriu em seguida, mas, contrário ao seu, era justo.

Se sentiu inútil.

Ainda mais.

Dormiu com os olhos abertos, pregados no visor da tv. Não assistia nada, sua cabeça estava em outro lugar. Sonhando, talvez. Pesadelos a perturbavam, as piores cenas de sua vida se passavam em sua mente. Acordou num estalo e começou a chorar. Não sabia o que seria de si. Não tinha a menor ideia de como planejar se portar diante do juiz quando este carimbasse sua certidão de óbito disfarçada. Sunyoung não queria, nem podia se separar. Não agora que entregou tudo que tinha para um bom relacionamento cristão, não após ter se tornado uma só carne, com frutos que apodreceriam, certamente, perante a situação. Tentava procurar modos, soluções, nada existia. Todas as queixas lineares de violência doméstica, conforme os devidos anos tinham sido revogadas; já gastara o último cheque de empréstimo para manter o apartamento caro que seu marido insistia em querer morar, mesmo que já não pudessem mais pagá-lo há quase um ano; colocou sua filha em uma creche municipal marginalizada, por ser mais perto para sua babá, que ainda mantinha realmente por não poder busca-la depois do trabalho a tempo. Gastos básicos, bem-estar, Sunyoung suspendeu tudo para manter seu casamento pelo menos até sua filha atingir maioridade. Era só mais nove anos, Sunyoung aguentaria firme por sua filha, todos diziam que crianças só podiam ser totalmente felizes se tivessem mãe e pai. Mas quem não queria não era ela.

Quando finalmente seus olhos pregaram de cansaço, sua filha Jinri chegou animada pulando na cama da mãe gritando contente para que a mãe acordasse. Já estava na hora da escola.

E da sua forca também.

Chegou em casa 18h15, tivera de dar miojo a filha novamente. Não conseguia raciocinar.

Preferiu não dormir, ficou a noite inteira assistindo tv para mantê-la acordada, estava com medo de desmaiar e perder a respiração no meio da noite. Parecia tentadora a ideia, mas Jinri ainda existia em sua vida.

Sunyoung não produzia mais o suficiente para seu trabalho, se passou um mês e sua filha só se alimentava mal em casa. Perdeu o medo, por obrigação, de deixar a filha ir para a creche de ônibus escolar, cortou os serviços da babá. Não sabia se 80.000 wons(154 reais) ajudaria em alguma coisa, mas botou na cabeça que todo corte era bem vindo.

O tempo passava, mas seus olhos não saíam do visor das mensagens de meses atrás. Chorava diariamente abraçada aos papéis do divórcio e refletiu o quanto os signos eram significativos na sociedade. Acreditar que uma nota com maior número de zeros escritos determinava onde você moraria, o que vestiria e o que tinha permissão de ter. A palavra tinha poder sobre suas ações, sentimentos; ler “eu te amo” num visor de celular era capaz de trazer a si as mais sórdidas lembranças. O fato de poder estar bem até um pedaço de papel escrito por uma pessoa que não sabe seu histórico de vida determinar com uma assinatura feita a caneta comum que você está mal. Não se é livre sem que exista um papel alegando o tal, não é feliz se não dizem na mídia ou na vizinhança – manipulada por aquela – que é feliz.

Sunyoung não era dona do seu corpo, nem nunca fora. Ela não conseguia parar de sofrer quando mais queria, nem conseguiu manter rígida a estrutura que a sustentava mais. Todo o sofrimento que viveu foi por alguém, e se vivia, era por outro alguém. Era uma propriedade estatal; como permitiam por lei que pudesse casar e ter filhos, também lhe assegurava tira-los quando eventos independentes de sua vontade ou até ações ocorressem.

Jinri não merecia a anemia que conquistava. Sunyoung teve vontade de se destruir ao ler o laudo médico da filha. Aos prantos tentava se acalmar, não havia passado pra viver, e agora nem presente. A fuga parecia impossível. O conselho tutelar aconselhou a mãe a procurar tratamentos psiquiátricos, já que estava interferindo no bem-estar da filha, dependendo dos resultados, se fosse algo insanável, perderia a guarda da única pessoa que tinha na vida. Jinri precisava de cápsulas caras de ferro pra poder melhorar, fora uma alimentação rica que a mãe não tinha o menor tempo de proporcionar. Abriu mão de sua preciosidade pelo bem de todos. Todos não. Sunyoung nunca estava inclusa no lado do bem. Ela não queria deixar sua filha, mas foi forçada a se render. Deu a aguarda de Jinri à avó.

No meio da terceira noite, não aguentou de saudade e foi buscar a filha na madrugada. Quando chegou, conversou com a mãe, foi ao quarto da filha para leva-la pra casa. Ao ver Jinri, mesmo que em três dias, ela estava diferente, com cabelos brilhosos, lábios e bochechas coradas. Dormia feliz. A anemia tinha visivelmente melhorado em um espaço tão curto de tempo. Novamente, o bem estar de sua filha não dependia mais de sua vontade. Foi embora de mãos vazias.

Ao chegar no apartamento, olhou em volta e apenas correntes de ar chocavam contra sua visão. Observou cada móvel que conseguiu recuperar desde a última mudança. Tudo lembrava seu passado inacabável, tudo lembrava o quanto ela pertencia ao meio, lembrava que a mesma não tinha autonomia alguma sobre si. Ela era o que esperavam, se não esperavam, não era nada.

Não bastava ter sentimentos sinceros e entregar-se por completo ao marido, amar sua filha incondicionalmente ao ponto de suportar os piores anos de sua vida na esperança de que um dia tudo acabe e possa ser feliz; escolher cessar o choro quando não tem condições de ser infeliz, porque todos diziam que ela não poderia ser infeliz, que ela não podia chorar, que não podia passar momentos ruins em sua vida. Ela tinha que ganhar papéis, assinar papéis, analisar papéis que decidiam o que ela pode ou não pode ser. Todo passo que desse: uma autorização, conselho ou qualquer outra forma de diálogo deviam interferir, seja as pessoas que um papel a capacitasse para isso ou não. Era uma liberdade social que valorizava mais os signos – algo proposto pelos civis para representar as pessoas – do que as pessoas.

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