Clássico contemporâneo

Krystal volta de um dia cansativo de trabalho. Como de costume, tira a calça, joga a camiseta o mais longe possível, pega uma cerveja na geladeira e se joga no sofá. Procura qualquer porcaria na televisão, quase quebrando o controle apertando o botão “+” e dá de cara com a sua série favorita. Krystal simplesmente amava Friends.

A cada fala estúpida da Phoebe, Krystal gargalhava e dava goladas na sua cerveja, no gargalo mesmo mostrando toda a sua personalidade em um curto ato. Mirou suas pernas escancaradas e lembrou da mamãe dizendo “mocinha senta de pernas cruzadas”. Até cruzaria, mas de fato era um desafio incumprível. Não por ter pernas grossas. Chegou a olhar o centro das suas coxas e apalpar carne gritando mentalmente “como sou gorda”, esfregava e marcava sua pele muito branca e macia “mas gostosa, oh sim”. Ria de si mesma. Krystal tinha uma teoria de que vaginas necessitavam de uma maior circulação, então sempre que fechava as pernas, pensava que estava reprimindo o seu interior, sua fonte vital, seu inconsciente personificado. Resmungava o quanto o patriarcado era egoísta por não deixar vaginas serem vaginas, mas um buraco negro sugador de pênis e expelidor de crianças. “Liberdade às vaginas”, imaginou o quadro “A liberdade guia o povo” com Beauvoir como a Liberdade e mini-vaginas como o povo. Falando em vaginas, sua calcinha molhou quando Joe tirou a camisa. Era hora do banho frio.

Sempre que se banhava, passava o sabonete rápido, e as mãos para se esfregar bem lentamente. Gosta de sentir a textura de sua pele e maciez de sua carne. Apreciava ser ela mesma, adorava sentir com as mãos a sua concretude. Não apenas se achava brilhante por ser uma pesquisadora feminista bem sucedida, na qual a palavra trabalho se remetia apenas a prazer, mas se achava deliciosa por ter uma dosagem atômica mais perfeita que qualquer padrão. Krystal era Krystal, nada mais.

No quarto, sentiu que era a hora mais importante do dia, se cultuar. Guardaria horas para rezar se não fosse ateia. Como não tinha um Deus ou a quem santificar, dedicava-se ao próprio corpo. Considerava a masturbação um ritual, um momento para si mesma, e como uma boa fervorosa, o praticava todos os dias. O primeiro passo era folear o seu corpo com um creme delicado de aveia, mãos lentas com carinhos muito leves, como sempre. Limpava muito o espelho, não admitia que durante o ato qualquer sujeira fosse vista, mantinha uma garrafinha de álcool ao lado do espelho. Depois se olhava em todos os ângulos, vendo se algo mudara, lia toda a sua extensão com a ponta dos dedos, mil vezes mais eficaz que braile. Logo então se deitava, abria as pernas, passava um óleo fino ervas e começava a se tocar, observava com fervor todo o seu corpo funcionar, cada espasmo, os palavrões que dizia, o quão vermelha e quente ficava durante a ação. Depois do orgasmo, sorria para si com uma satisfação inconcebível. Sentia o seu gosto provando os fluídos que saíram de si com beijinhos que dava na ponta de seus dedos, mágicos. Deitava-se na cama e maculava o rito refletindo o quão santa era. Percebia que não existia qualquer ritual mais completo; tinha o creme de aveia invés do óleo de mirra, limpava o espelho a imagem de uma santa, seu livro sagrado era o próprio corpo – maravilhoso corpo – óleo de ervas sua agua benta e as orações se resumiam ao gemidos e múrmuros bem grossos. Não existia melhor hóstia que um produto de si mesma, e uma reflexão mais bela que a importância de si para si. Cultuem a vagina, não há entidade mais grandiosa.

As vezes sentia que sua rotina era solitária. Admitia que categorizar as pessoas era o seu maior defeito, insistia que todos a sua volta fossem como ela, sonhava em encontrar alguém idêntico a si, culpava as diferenças como determinantes dos fins de seus namoros. Enxergava o quão patética essa atitude de padronizar tudo, aproximando todos de si em uma reta quase numérica. Mas fazer o que? Krystal só queria Krystal, ninguém mais.

Soltava um urro ao acordar. Antigamente “é hora de ir para escola”, gritava mentalmente. Agora, “É hora de salvar o mundo vaginizando o planeta terra”, base de seu mestrado feminista tratava-se de situar mulheres e suas utilidades sociais por época seguindo firmemente as influências europeias diretas as de suas raízes até o feminismo branco aristocrático na década de 60. Odiava contemporaneidade, então marcou sua linha temporal. O presente era tão abominável, que passava metade de seu dia presentificando o passado.

Toda tarde, estimulava a memória relendo trechos de seus antigos diários, recordando a figura que nunca deixara de ser. Uma camponesa de oito anos, mirrada, cheia de calo nos pés, jogava futebol, subia nas arvores, batia nos meninos e nadava completamente nua no rio. Nessa época, complexo algum existia, a liberdade a guiava. Com doze anos, foi forçada a fazer corte e costura e sair do time de futebol. Seu cabelo era mantido longo contra a sua vontade, aprendeu a se maquiar. Ter vagina se tornou alguma coisa.

Hoje, dá graças a vagina; sabe moda, corte e costura. Suas roupas são impecáveis, transforma rímel de farmácia em cílios postiços semi-naturais. As vezes se sonha uma drag queen, seres iluminados. Só não iluminam mais que a santa, a própria vagina. Destona apenas quando o assunto é tênis, pode estar usando o look mais formal do mundo, jamais abandona uma de suas marcas.

“Sai tuiú, se não parar, dou um chute na sua bunda” rosnou enquanto batia a botina conduzida por belas coxas cobertas com uma saia jeans nos joelhos. Ser assediada era ofensivo, jamais coisifiquem a vagina perto dela, cometeria crimes pelos seus ideais.

Na faculdade, única presente em seu pequeno interior, relembrava suas travessuras no dormitório feminino. Krystal gostava de ver outras vaginas além da sua. Tamanha era a variedade, que pensou em mudar de história para medicina, estudar ginecologia. Engraçado, sempre viu a vagina pela vagina como um símbolo social, motivação para sua graduação ter sido o curso que seguia, mas biologicamente ela era ainda mais linda. Não se tocava até então. Passou não somente a tocá-la, como tocar as coleguinhas. Krystal deixou de ser conhecida como a namorada difícil, para o melhor namorado. Odiava ser masculinizada, e achava absurdo mulheres esperarem mais dos outros – ainda mais homens – do que de si mesmas em relação ao próprio corpo. Aqui jaz a sua verdadeira entrada para o ativismo feminista.

Depois de lembrar da infância, adolescência, início da vida adulta, segue confiante com o estudo atual, porque mesmo abominando o presente, sua concretude de agora será sua nova base. A vaginização do mundo não pode parar, nunca.

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