Egodistonia

Era incapaz de olhar para o espelho e não se sentir vazia. Não era ela que estava ali.

Pegou os batons que suas irmãs lhe compraram no aniversário passado e, como de costume, escreveu o que sentia em um canto limpo da parede. Optava por escrever em mandarim, já que ideogramas poupavam-lhe imensos espaços. Ainda sim, seu banheiro estava praticamente preenchido, talvez porque o espelho, aquele que a lembrava do que realmente não era, encontrava-se justamente nesse cômodo.

Quem sabe, se tivesse o quebrado há alguns meses não estaria nesse dilema. Crises existenciais são comuns a qualquer ser humano, mas Amber simplesmente não aguentava mais fingir.

Os batons ganharam utilidade. De verdade. A cera vermelha dava um aspecto mais dramático, e a moça, ainda que não se reconheça através dessa denominação, apreciava por completo a estética. Não era atoa que se formava em fotografia já com bolsa de estudo e ingresso para pós. Era reconhecida pelo que sabia fazer, mas não pelo que era. Qualquer boa estética a distraía para a estética que não podia ter.

Às vezes, antes do banho, se olhava nua em frente ao espelho que tanto repudiava. Acariciava o corpo, beijava as próprias mamas e fazia cara de Marilyn Monroe. Mais perto, beijava o próprio reflexo, puxava e repuxava sensualmente o cabelo coberto por mechas douradas recém desbotadas. Com ânsia de vômito, corria até o armário e enfiava dois comprimidos goela abaixo. Tinha vício por remédios controlados ilegais em seu país. Eles sempre resolviam o problema. Contrário de sua terapeuta.

Ligou para sua analista explicando que a nova terapia de “contemplar-se” no espelho não estava funcionando, que a moça só piorava e que fazer sua higiene não estava confortável, novamente. Sentia-se com 12 anos de novo, quando suas mamas começaram a crescer. Quando a menstruação veio pela primeira vez, o sangue não só jorrou de seu orifício, como de seu coração.  Foi duro aceitar a realidade de estar se tornando uma mulher. Agora, tudo voltou, estava difícil encarar isso novamente.

Tomou um banho evitando não se tocar em demasia, as lágrimas estariam saindo neste momento se não estivesse completamente dopada.

Ligou novamente para a terapeuta e ameaçou voltar a tomar hormônios se continuasse sofrendo como estava. Foi relembrada que se tomasse os hormônios masculinos junto com o anticoncepcional que tomava para ovário policístico e corte de menstruação, seu corpo entraria em colapso da abundância de progesterona e testosterona que seu sangue teria que suportar. Ela gritou que não importava, que se a dor permanecesse, cometeria tal suicídio. A doutora implorou à paciente por autocontrole, logo estaria lá.

Em menos de dez minutos, lá estava Victória pedindo para Amber respirar, não era paga para isso. Já era a quinta vez aquele mês que a doutora a atendia em domicílio, mesmo que não tenha licença, habilitação ou preparação para tal competência.

Por favor, me dê os remédios. A doutora implorou observando a pupila da menina dilatadíssima com o excesso de lítio. Decida o que vai ser da sua vida, ou vai acabar morrendo.

Ser um homem transexual desejando ser aceita como uma mulher cis por si mesmo é ainda mais difícil.

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