Mudanças e descobertas

Com ela, inicialmente, o poder de raciocínio fluiu. Não era como resolver os deveres de matemática em que tinha uma fórmula pronta para tudo, ou uma aula de história na qual o livro tudo dizia – na cabeça deles, é claro. Ela incentivou o poder de refletir e questionar naqueles cérebros completamente mecanizados por um sistema de ensino que até então era… Chato. Artes tornou-se a matéria favorita.

Ela não era apenas uma professora, Senhorita Kwon sabia se comportar como um ser humano, tratava seus alunos não como suas obrigações, mas como seus direitos, eram pessoas com uma vida, como ela. Fazia questão de mostrar a todos que não era a mais sábia, ou que estava sendo paga para transmitir conhecimento, estava sendo paga para aprender juntamente com todos iniciando debates propostos por livros e fontes pesquisados por cada aluno presente. Quando um tema levantado por ela, difícil algum aluno, ou qualquer outro cargo estudantil, derrubar.

Começou a dar aulas de teatro e desenho incentivando atividades extracurriculares. Pela primeira vez em cinco anos, a escola tinha algo produtivo a oferecer para aquela gente.

Ela gostava de filmes, livros e quadrinhos; a cultura oriental a encantava, nada daquele falso patriotismo, ela realmente amava o que o rico oriente oferecia. Através da sua sincera adoração, pensamentos eurocêntricos entre outros alvos de consumo selvagens capitalistas foram quebrados; sabia que os Estados Unidos não são os únicos a produzirem cultura? Questionava a globalização que aproximava a cada dia todas as culturas em uma só, perdendo tesouros culturais de forma obrigatória.

Apaixonada por ensinar, ofereceu-se para tutelar as aulas de reforço dadas na escola. Proposta como clubes culturais de incentivo à educação fora da sala de aula nunca foi tão bem sucedida. Senhorita Kwon transformou um espaço de notas, trabalhos e pressão em um local de produção, criação e discussão. Crianças robôs em humanos pensadores.

Um dia uma aluna entrou em sua sala por engano e espantou-se com o que viu. Senhorita Kwon estava passando por uma metamorfose dolorosa. Suas costas com cavidades despejando sangue, seus lábios conjuravam palavras inaudíveis, mas ainda sim os vidros em volta se quebravam, a dor estava mesmo insuportável. Mais perto, a estudante com medo se aproximava para saber o que acontecia. Nos buracos que sangravam tinham duas películas, mas não pareciam lâminas ou coisa assim, estavam saindo, literalmente dentro pra fora. Sem saber o que fazer, apenas catou os lenços que encontrara na gaveta e passou a tentar estancar aquele vulcão em erupção sanguinolenta. Tocando suas costas, a aluna reparou que eram asas, tinha asas saindo do corpo da professora. Mas que metamorfose era essa? A aluna pensou.

Procurando no fundo de seu cérebro, a biologia do homosapiens não permitia o nascimento de asa, não fazia parte da constituição humana. Imaginou que talvez fosse uma doença, ou que Senhorita Kwon fosse uma aberração da natureza. Independente do que fosse, a aluna tentaria ajudar a amada professora da forma que fosse mais conveniente para ambas.

Foram quatro horas de dor para as asas se expelirem, a professora estava fraca, totalmente largada no chão, com apenas a cabeça no colo da aluna que presenciava aquela cena de tensão até o fim. Quando finalmente fora, as asas começaram a brilhar, era um tom verde florescente; os cabelos da professora mudaram de cor, agora eram laranja e moldaram um penteado perfeito, a pele de Senhorita Kwon estava viscosa, sem vida pela quantidade de sangue que perdeu, mas um fleche de luz dourada começou a cobri-la inteira. Quando no fim, as íris e pupila sumiram. Senhorita Kwon estava gelada. A aluna chorou, sua amada professora estava morta.

Crente que a metamorfose tinha sido um fracasso, criou coragem para pedir ajuda. Gritava aos três ventos a sua dor, o que seria daquela escola sem Senhorita Kwon e o que seria sua vida sem a própria vida? Formou uma multidão.

No aposento, nada se encontrava, Senhorita Kwon tinha sumido. Seria fruto da imaginação fértil da aluna? Todos se foram zangados. A menina não entendia, procurou a professora em todos os cantos da escola, mas ela realmente tinha sumido.

Depois de uma semana, todas as aulas voltaram a ser como antes, apenas obrigações, decorar não questionar, essa era a lei do sistema. Temos de buscar o sucesso através da profissão, não buscar ser um bom profissional para o sucesso perseguir, isso era fantasia. Ora, mas fadas também não são fantasia?

Neste devaneio, um bilhete cai em sua mesa. A caligrafia era conhecida, mas inacreditável. “Agora é a sua vez”, estava anônimo, mas o remetente vinha do mundo da fantasia, que, como a educação proposta por Senhorita Kwon, se antes era fantástico agora passa a existir. Porque essa aluna vai fazer existir.

Suas costas começaram a doer, a dor nunca foi tão bom sinal.

Jung nunca mais veria sua Senhorita Kwon, mas se tornaria como ela. Mudanças e descobertas não poderiam ser melhores.

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