O final sem fim

Victoria estava sonhando. Aquela cena não podia ser real. Como poderia estar assistindo o enterro de si mesma?

Olhava as pessoas chorando a sua volta, não sabia como agir. Tinha vontade de gritar “parem com isso, estou aqui, na frente de vocês!”, mas ninguém nunca a ouviu, não era agora, justamente em seu enterro, que a escutariam.

Nunca gostou de enterros. Não tinha ido nem ao velório de seu pai, a pessoa sem dúvida mais importante de sua vida, porque teria de ser obrigada a ver logo o próprio? Aquilo não estava nada certo.

Lembrou-se de seu pai automaticamente, posterior à própria reflexão. Pensou na rotina que teve dos cinco aos treze, seu pai era um cinéfilo assíduo, herdou essa cultura dele. Passaria a frente se tivesse filhos ou estivesse viva, refletiu novamente.

Recordou como eram divertidas as conversas com seu patriarca. Quando seus pais se separaram, ela tinha cerca de oito anos, a presença do seu pai permanecia, sua rotina de segundas no cinema da esquina, apenas ambos assistindo um clássico filme de arte qualquer imposto pela sala alternativa, cinema grátis, cultura pedante do governo. Amava os debates que ambos faziam juntos no fim. Ela sempre tinha perguntas e ele respostas.

Quando fez 13 anos, seu melhor amigo e progenitor faleceu. Sua mãe disse que tinha tido um colapso misterioso. Mas ela sabia que não. Suicídio… O último filme visto anterior ao mistério foi Fale com ela, lembrou-se da fala do enfermeiro “somente assim estarei com ela”. Ela, a morte. Ao contrário de Victoria, seu pai sempre foi apegado ao mórbido, à inexistência enquanto ser.

Olhava as fotos, ficava nostálgica quando em vida. À memória, o momento que menstruou pela primeira vez. A quem recorreria? Não confiava na sua mãe como no seu único amigo. Lembrava-se das conversas infantis que tinham… Como criança adora perguntar! Pensou ao lembrar quando perguntara o porquê das coisas serem como são pelo menos umas 300 vezes em um único dia.

Em casa, após a notícia de sua morte, tocara o que não podia compor, praticamente detonava as teclas do piano. Mais do que cinema, música era sua paixão. Após sua sonata individual, nunca mais compusera nada, sequer tocara em um piano novamente.

Tentou ser firme diante do próprio enterro. Cadê seu melhor amigo, do qual nunca morreu em seu coração? Hoje era um dia feliz, não era? Por que não conseguia ver o seu pai? Ambos não morreram? Não eram dois suicidas? Ele mentiu em dizer que sempre estaria a observando, não importa o que acontecesse? Tinha vontade de chorar, mas não tinha lágrimas por não ser feita por átomos como tudo que é concreto.

Ela sabia que findar minha vida não traria felicidade, mas nunca imaginou que não cessaria sua dor. Aumentaria.

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