O líquido laranja e a fênix

De um dia para o outro acordou de um coma de três dias. Sua menstruação não parava a mais de um mês, logo ao ver as bolsas de transfusões que eram trocadas mais rapidamente que cigarros para Keanu Reaves no filme Constantine, já imaginou o que era. Estava com anemia profunda. Certo, é só comer muito fígado e tomar chá de prego. Pronto. Pronto o caralho.

– Bom dia.

O homem de jaleco forçando um sorriso estende a mão para a moça com o intuito de saudá-la.

– Sou o Dr. Kim e vou fazer seu acompanhamento hematológico.

Nossinhora. Acompanhamento hematológico pra tomar chá de pedra e comer fígado de vaca? Pelo amor de Deus, esse mundo só quer dinheiro.

Amber, a internada, apenas fixava o olhar no homem que lhe saudava. Estendeu a mão por educação, porque sinceramente não queria apertar a mão de médico oportunista nenhum.

– Vamos começar o seu tratamento hoje. Achamos imprudente iniciar sua quimioterapia com taxas de plaqueta e hemácias tão baixas. Sem contar que como o seu coma foi natural, era perigoso toxinas flutuarem para o seu sistema nervoso central ou extravasarem para qualquer canto e não ter você acordada para nos indicar.

– Quimioterapia…

Por ser extremamente naturalista, Amber nunca tinha tomado sequer dipirona. Qualquer dor, da mais áspera que fosse, fazia um chá. Tinha um estoque na colheita atrás da casa, tipos de ervas mais comum e eficazes que poderia encontrar em um quintal ou mini horta de pequenos condomínios da vida. Acredita- se que agora herboterapia não era o que ela ia precisar.

– Seu tratamento será a base de vesanoid.

– vesanoid…

– Pois é… – Estendeu novamente a mão para ser saudado. – Amanhã quem vem te ver é a doutora Lee.

E foi embora como se tivesse avisado a menina que ela estava com gripe, antes fosse anemia.

Furavam seu braço a cada 3 dias, sem a sua permissão. Não era algo que ela pudesse querer, apenas assinou um contrato que seu corpo não estava mais aos seus cuidados, mas aos da hematologia. Amber não era mais ela, mas uma paciente com leucemia. Abriu mão do emprego, faculdade e o novo estágio como blogueira que conseguiu. Agora, em sua vida, só existia aquela doença que se alimentaria do seu físico e emocional a cada dia, segundo o futuro que lhe era sugerido. Como desejava correr…

– Sua medicação está pronta.

Era um líquido laranja.

– o que é isso?

– Um remédio que vai fazer você melhorar.

Ora, mas fora estar presa naquele lugar tendo seus braços usados como descansa agulha, ela estava bem.

A corticoide estagnou seu sangramento. Agora era só tomar chá de pedra e comer bastante fígado para melhorar.

– A partir de hoje, sua vida depende de medicações fortes para se manter, então esquece esses papos naturebas e me passa o braço que com essa quimioterapia aqui é necessária a veia mais calibrosa que conseguir.
Foi quando o líquido laranja queimando a recente veia impulsionada desceu que as mudanças na vida de Amber tornaram-se mais drásticas.

Não sentia a doença, sentia o tratamento que lhe era dado por causa dela. Dores de cabeça lancinantes a perseguia durante as noites. Devido aos enjoos e dificuldades para comer, dormir e até respirar, três injeções lhe eram dadas por refeição. Cerca de 9 por dia, fora as de dores específicas, como a cabeça que lhe matava mesmo que os aparelhos lhe indicasse viva, e algumas extras receitadas para quando ainda tinha enjoo bebendo água. Mas o que a incomodava de verdade era a sua identidade conquistada com anos que se apagava rapidamente. Algo que ela conseguiu enfrentando tantas fases, sumia a cada banho, troca de roupas de cama, toda vez que o líquido laranja queimava sua veia.

Tinha acabado de clarear as madeixas com luzes platina. Manteve o tom castanho da última pintura, época que teve a coragem de corta-lo curto para assumir a personalidade que seus pais a negava.

Amber não queria ser um garoto, apenas a imagem de princesa que a impuseram a enjoava. Era bonito em outras pessoas, mas não combinava consigo. O curto clássico anos 80 sim era o modelo perfeito.

Aos poucos, sentia seu corte ralo, fios aloirados cobrindo os lençóis trocados.

Normalmente ignorava. O que eram alguns fios? Estava imóvel na cama de hospital desde a internação, via o que acontecia mas evitava sentir. Não queria cair na real, não podia mais olhar para o espelho e ver o que não queria, não depois de tudo que passou, não de novo.

Ao “liberta-la” para uma internação normal, voltou a banhar-se com normalidade, isso é, sozinha. De cara, deu com um espelho enorme na entrada. Não mudara tanto, se ignorar o fato de estar parecida com um esqueleto humano que estudava nas aulas de ciência da sexta série. Podia ignorar se fechasse os olhos, mas o tato, aquele que evitou por medo de sentir,  não podia ser enganado.

Abriu o chuveiro e sentiu prazer em ter água escorrendo sobre seu corpo. Chega de esponjas e lenços umidecidos fodendo sua pele e seu psicológico por lembra-la todo dia que estava tão inútil que nem para banhar-se sozinha ela podia, mas acima de tudo, essas porras de lencinhos com cheiro artificial é cheio de toxinas, o que tem contra sabonete natural a base de ervas?

Agora sim, o medo cai sobre si mais uma vez. Era hora de tocar o seu corpo. Afastou-se da água e respirou um bocado. Voltou, e respirou mais um bocado. Fechou os olhos e a cena que viu no espelho lhe veio a mente. Abriu-os com força, quase expulsando o miolo do globo ocular. Chorou pela primeira vez em toda a expericiência.  Toda a angústia agora ia para o ralo com a chuveirada que tinha o que ela temia não ter, tocar o único corpo que tem.

Bateu o pé e viu que estava sendo boba, mas ainda sim não triscou um dedo na mesma. Olhou para baixo, pode distinguir água dos fios platinados que iam para o ralo uniformemente. E então a ficha caiu. Checou respiração, o pulso, e estavam normais, até melhores que antes da sua “chegada”. Não estava se decompondo, mais renascendo. Tocou a cabeça e a esfregou findando lava-la. Nenhum fio mais caiu. Não agora, não hoje.

Em seus banhos, um rito de passagem acontecia. Suas digitais agora tateavam seu corpo desnutrido com prazer. Era como olhos na ponta dos dedos, observava o quão maltratado aquele corpo tinha sido, por uma doença grave, mas principalmente pelo tratamento que a salvou. Sorriu por ver que estava viva, sentiu-se como uma guerreira que voltou da batalha. Ora, se as costelas podiam ser sentidas, significava que estavam lá. E isso era muito legal…

Mais fios corriam ralo abaixo. Acostumou-se com a cena, e até passou a fazer diferente. Acariciou o couro mesmo sabendo que o ato acelerava o processo. Isso não importava mais, talvez até fosse desejado. Ela só queria dar adeus ao precioso meio político e social que seu cabelo representou em anos numa só lavada. Seus pelos pubianos iam junto. Também meio político, mas infelizmente não social. Sentia falta de usar a xana como bem entendesse, e lamentava ter de ficar sem usa-la para algumas coisas mais um tempo. Fazer o que? Vamos voltar aos pêlos.  Era estranho durante tanto tempo ser contra a depilação opressiva, considerado por alguns mais machistas uma “limpeza íntima”, e agora ter pequenos bolos finos e polidos em sua mão para poder se lavar. Isso sim era limpeza íntima, o líquido laranja tirou os pelos da raiz!

E conforme se esfregava, mais pelada ficava. Jamais sentira-se tão nua. Sem pelos,  sem gordura, e até carne lhe faltava. O meio importante para expressar seus ideias que era a aparência que ostentava sumia. Mas os ideias… Isso o líquido laranja jamais vai lhe tirar. Ao contrário,  graças a ele ficaram mais fortes. Estava a matando, mas dando nova vida. Amber nunca foi tão convicta do que é e sempre será. Reverteu sua crise de identidade em um renascimento ao estilo fênix.

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