Síndrome de Estocolmo

Rotina, o que dizer de uma vida parcialmente considerada normal? Digo, como todos os outros, sou visto como uma máquina que contribui para o PIB  econômico de um país, sou visto como mais um na multidão, o tratamento social que me dão quando estou doente é como o de todos os outros. De nada sou especial, de fato ninguém realmente é. Claro que tais fatores são indiferentes a familiares, eles se preocupam, ou veem como obrigação de se preocupar, com o isolamento que proporciono a mim mesmo. Solidão, ela me define, por ela sou apaixonado e desde que a conheci estou preso a ela. É duro admitir, mas não consigo dizer adeus às sensações angustiantes que esse comportamento violento que o “só” me traz. Carrego sonhos, esperanças, histórias, aventuras, reflexões, mas somente em nota os deixo, não sou capaz de romper com o meu relacionamento, um amor quase ágape ao ermo. É uma droga, um vício. Compreendo a minha vizinha. Há três anos ela apanha do marido de uma forma sórdida. O amor que ele proporciona pra ela chega a ser grotesco, varia de hematomas no dia seguinte a abortos espontâneos a cada três meses. Não é como se ela gostasse, mas como eu, o sofrimento é uma impotência que faz parte da nossa constituição. Pelo ditado, a esperança morre com o ser que a possui.

Hoje volto de mais um dia de trabalho. Diferente dos meus colegas, não relaxo em grupos vagos pelos bares. A solidão me parece muito mais sensual. Ela diariamente me convida para relaxar com uma taça de um bom vinho escutando um pouco de jazz e r&b numa vitrola, herança de minha falecida e eternamente amada avó que me criou até os doze, e fazendo um diário mental do que se passou por hoje, concreto e abstrato. Antes de dormir, faço notas em um caderno, como resumo ou partes importantes que tenho vontade de recordar. Transcrevendo o diário mental, escuto minha vizinha gritando e chorando, implorando para o marido parar de agredi-la. Não chamo a polícia. Ela não gosta de visitas judiciais. Apenas respeito e ignoro como ela deseja. Termino as notas e vou dormir.

Também gosto de sonhos. Astrologia, religião, misticismo, tudo isso me fascina. Sempre leio horóscopo no jornal na hora do café.  Compartilho os meus sonhos com o meu colega de trabalho Yixing e ele parece realmente adorar. “Você conta histórias tão bem de um jeito original, por que não tenta escrever?” era o que sempre dizia, como um bordão, sabe? Original… Não há romance mais original do que o primeiro. Depois do primeiro, todos são meras cópias. Como a mitologia, mesmo que diferente, é tudo igual. Original, essa palavra me irrita.

Hoje é terça. Volto mais cedo do trabalho pelo atestado, tenho consultas com um psicanalista, quase que obrigatoriamente. Ele considera os meus problemas emocionais muito sérios, mas explico a ele que não me incomodo com as coisas que sinto. Nunca admiti pra ele que a solidão apesar de bela, é algo que consome o meu ser de forma gradual, porém bruta, e que me preocupava com isso. Gastava do meu dinheiro, tempo, mas se o único problema é a solidão, não quero me livrar dela, mas mesmo assim devo satisfação à esperança.

Como tenho muita vontade de conhecer coisas novas e a esperança de que um dia a solidão me liberte, tenho aulas de inglês às sextas feitas e junto dinheiro para fazer viagens. Nunca fiz nenhuma. Não me sinto preparado para sair daqui. Minha cúpula é tão quente…

Final de semana é um período que me atrai. Mesmo também rotineiro, agracio-me com as aventuras e vantagens de ser solitário. Sábado a tarde alugo um filme, resenho-o e guardo as impressões da máquina em uma pasta grande de arquivos. É uma delícia relê-los um tempo depois. Também tenho o hábito de re-assistir filme em um período de tempo para comparar as atuais ideias. A noite, gosto de ver um filme de sadismo vintage no computador, masturbar-me um pouco e então dormir. Não faço notas nos sábados porque minha vizinha não costuma estar aí. Sábados ela costuma dormir na casa da sogra. Sinto um pouco a falta da presença dela, então me deprimo e durmo cedo para que o dia acabe o quanto mais rápido. Domingo, é o único dia que exijo acordar cedo a fim de conseguir passar na banca para comprar um clássico de bolso. Amo livros de bolso, tenho uma estante enorme que renovo a cada três meses. Não descarto como meros objetos, costumo guardar os que me marcam – geralmente clássicos – e doar a uma biblioteca que fica no centro os contemporâneos que não me atraíram a ponto de me apegar. Quando se é solitário, sente-se falta de objetos e momentos passados, mesmo que inúteis. Vou a um Café, tomo cappuccino e leio um livro novo recém-aberto enquanto acaricio um gato de rua. As aventuras propostas pelos livros não se comparavam aos que os filmes tentavam mostrar. Acordando cedo, também dormia cedo aos domingos. Tenho um esquisito ritual, que infelizmente já fazia parte de mim, de deitar no sofá em companhia a um lenço da única garota que amei, fungá-lo e chorar até que perdesse a consciência. Minha história com essa garota não é algo fácil de contar, primeiro porque ela nem sequer sabe que eu existi e segundo porque na minha versão da história, tivemos uma vida super feliz. Não é fácil ter Síndrome de Clérambault.

Da última vez que a recordei, tentei me matar, mas não morri. No fundo eu queria viver. Não. Só achei que não faria sentido me livrar da solidão morrendo com ela.

Vou a uma venda, compro um cianureto, porque desta vez a overdose não terá erro. E também, morte por cianureto é clássico, lindo, e original. No sentido real da palavra, não no que irrita.

Bato a porta da vizinha, seu marido não está lá. Quem atende é a própria, com o rosto coberto de hematoma. Lhe mostro o vidro com veneno, ela logo entende.

Deitados nos almofadões indianos, a deixo refletir. Pergunto se está preparada, ela afirma que sim.

– HYOYEON!

Escutamos gritos no teto da casa. É meu vizinho, vendo se a esposa está presente.

– CADÊ VOCÊ, SUA PUTA?

Ela começa a chorar. Disse a ela que não precisava fazer isso se não quisesse. Ela negou com a cabeça aos prantos e disse que estava finalmente preparada para se livrar daquela prisão.

“E eu também”.

“Seu lenço”, entreguei aquele que me fez companhia por anos. Ela segurou minha mão com o pano de barreira. Ao beber o líquido compartilhado, nos beijamos. Foi como abrir sela de cadeia para condenados a morte determinados irrecuperáveis; eram cidadãos protegidos, era um doente se livrando daquilo que nem os remédios mais fortes ou a força de vontade mais branda foi capaz de recuperar. Era uma mulher que finalmente teve coragem de largar o seu homem, morrer aos braços de alguém que respeitasse a sua vontade, pela primeira vez. Era um homem capaz de livrar-se da amante que o perseguia, morrer nos braços esposa que nunca tinha existido, até aquele momento.

Adeus solidão, morri nos braços de Hyoyeon, uma pessoa igual a mim.

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