Superficial?

Não era de se surpreender que sangrasse. O tempo estava seco, o chão coberto de atrito devido a areia que impregnava, e, sem esquecer o principal detalhe, a força de Krystal era sem dúvida maior que das outras crianças da sua idade. Isso quando ficava brava, claro. O motivo, como sempre, era bobo. Ela de fato nem estava emburrada, mas ainda sim foi impulsiva ao empurrar Luna no chão após uma estúpida discussão iniciada pela ruiva sobre quem subiria no balanço primeiro. Não que Krystal fosse tão egoísta a ponto de derrubar a amiga no chão fazendo-a machucar o joelho de tal forma com o clima propício a sangramentos e traumas que lhe gerassem cicatrizes – ainda que pequenas e ralas – propositalmente. Mas Krystal tinha uma mania muito feia de estressar com tudo e particularizar tudo.

Mesmo que com poucos, apenas nove anos, ela tinha inteligência o suficiente para saber controlar o seu emocional. Sem dúvida passou da fase de gritar por doces no supermercado na hora de fazer compras, isso há tempo não era problema para seus pais. Ela era uma mocinha, em três anos entraria na puberdade; tinha pleno conhecimento de como se comportar como tal. Então por quê? Por que sempre que discutia com Luna acabava atingindo-a de alguma forma?

– Foi culpa sua. Você sabe que os menores tem que ficar por último, e eu sou um palmo mais alta que você. – Encarava Luna de braços cruzados com um olhar de reprovação ao ver a amiga se segurando para não chorar com o joelho levemente esfolado. – Quem não segue as regras, dança.

Suspirou e estendeu a mão ajudando a menina a se levantar, guiava-a até o banquinho mais próximo. Retirou um lenço branco do bolso da saia e secou o machucado da amiga com a pouca ternura que lhe restava.

– Vem, eu te ajudo a ir até sua casa. – Apoiou a mais baixa em seu ombro e foram andando lentamente, devido aos passos mancos da menor.

Krystal era sempre explosiva porque apesar de saber se portar socialmente, a história era diferente quando se tratava de amigos. Luna era sua única amiga, e Krystal nunca teve outros anteriores a ela. Sabia se comportar no shopping, na escola, no trabalho de sua mãe. Sabia etiqueta com os adultos, mas não com as outras crianças. Nem fazia questão. Desde a primeira vez na escola, nunca fez diferença para a ruiva estar acompanhada de amigos ou não. Luna só se tornou sua amiga porque era filha da colega de sua mãe.

“Por que não dá um abraço nela?” foi o que sua mãe disse quando a colocou frente a frente com Luna. Elas tinham uns quatro anos.

Krystal sempre teve personalidade forte. Se ela não quisesse se aproximar de Luna, não teria o feito.

“Muito bem. Espero que sejam amigas agora.”

No fundo só tinha abraçado porque, como ela, a menina parecia ser socialmente frágil. Tinham algo em comum.

Era um costume para Krystal encontra-la aos finais de semana para brincarem. Hoje, por insistência de Luna, foram ao parquinho.

– Por favor, é ali ao lado. Estou com saudade de balançar!

– Balanço? – Krystal disse com deboche. – Que coisa mais boba! – Afirmava com um ar superior, como se quisesse ser mais adulta.

Não era o primeiro episódio, e de longe aquele seria o último. Era quase parte da personalidade da Krystal agredir a amiga por pouco. Esquentava-se com tudo, sempre perdia o controle da situação e nunca pedia desculpas. Para que? Luna nunca reclamava.

No fundo, e inicialmente, Krystal temia que no dia seguinte Luna não batesse a sua porta a chamando para brincar. Mas, posterior às brigas, sem falta, estava Luna com um grande sorriso dizendo “Bom dia, Krys.”, e o abraço nunca faltava. Talvez pudesse tudo por só ter ela com quem conversar.

Tudo durou até Krystal decidir que queria porque queria o urso da loira.

– Pode brincar com tudo, menos com ele! – Dizia a loira puxando o objeto das mãos fixas de Krystal.

– Eu sou visita! Você tem que ser cortês e me deixar brincar com o que eu quiser!

Luna oferecia todos os brinquedos que tinha na casa, mas nenhum deles era o urso, e Krystal queria brincar com o urso.

Irritada, puxava o urso das mãos da menor afirmando que se ela continuasse com o egoísmo, não voltaria a sua casa nunca mais. A loira implorava para a ruiva soltar com uma voz angustiada, até que em uma puxada brusca da outra, sentiu seu ursinho rasgar em suas mãos.

– Droga, Luna! Olha o que você fez! Por que não me deu para brincar? Ele estaria inteiro e eu feliz! – Fez bico cruzando os braços.

Luna não falou nada, apenas juntou a cabeça no corpo do ursinho tentando inutilmente conserta-lo. A cena deixou Krystal ainda mais irritada.

– Está rasgado! Não adianta ficar unindo as peças. – Levantou-se e foi em direção à porta. – Depois pede para a minha mãe remendar. Vou embora, até amanhã.

Foi como se nada tivesse acontecido. Costume.

No dia seguinte, Luna não veio lhe ver, nem no seguinte, e seguinte. Luna não frequentava mais a casa de Krystal, e quando o contrário, pensava consigo que era muito feio se convidar, isso era coisa que só a Luna fazia, e não ia convida-la, ela que viesse ou a chamasse.

Mas o tempo foi passando, e Krystal refletia o quão solitária tinha ficado. Não solitária com falta de alguém, mas com falta de Luna. A doçura, seu cuidado e paciência, a personalidade da loira tinha se essencializado em sua vida. Como a presença da outra ficou tão precisa? Não era só um passatempo? A filha da colega da mãe que gostava de brincar com si? Não era isso que sentia. Única coisa que martelava sua cabeça era a dor que lhe ensinava uma dura lição.

O ser humano… Tão vulnerável a aprender através do sofrimento, perdendo algo para saber o que é ganhar.

Se deprimiu por um período de tempo. Temia encontra-la e ser maltratada pela mesma, ou ouvir da boca da própria que jamais seriam amigas de novo. Isso provavelmente seria um corte profundo na garganta, até pior que os arranhões que ainda estavam presentes no joelho de Luna pós-empurrão.

Quando completou 10 anos, tomou uma atitude que de todas foi a mais difícil de sua vida. Iria reencontrar Luna. Não sabia como agir, falar ou até respirar. Tentava ensaiar o que aconteceria, mas estava tão nervosa que apenas contribuía para mais sofrimento.

Falando em sofrimento, como foi sofrido o percurso para a casa de Luna! Krystal não parava de sofrer de forma prévia. A culpa a consumia de tal forma e a necessidade que tinha em ter Luna novamente ao seu lado era tanta que até gripe acreditava estar contraindo.

Com o coração afoito, encarou seus medos. Encarou-os em nome de algo maior, ter a amiga de volta. Lágrimas caíam do rosto até o caminho da porta. Limpou-as bem antes de apertar a campainha, mas elas não paravam de cair. Chegou a tão esperada hora.

Cada estalar da chave na fechadura, dificuldades de girar a maçaneta emperrada, todos os suspenses contribuíam certeiramente às batidas fortes no coração que dificilmente se acalentaria até o fim da história estar assinado. Segurava o choro de pânico que já enrugava seus olhos infantis.

E com um empurrão, abriu-se a porta e, surpresa, a pequena esperava do outro lado abraçando seu urso completamente remendado.

Krystal olhou para o brinquedo nas mãos da pequena e seu choro desabou. Luna entrou em choque rápido, por que a menina chorava assim? O que deveria fazer?

– Luna, por favor, me desculpa! – lambuzava-se com as costas das mãos tentando limpar seus olhos molhados e nariz sujo que só se espalhavam com a expressão.

Apertava seus olhos e tentava bloquear mentalmente os ouvidos aguardando os possíveis ataques que levaria, também, por via das dúvidas, protegia o peito de seus pés afastando-se caso a loira batesse a porta. Tremia tanto que sentia sua pressão baixar. Por via das dúvidas, preparada como sempre, mantinha os joelhos levemente dobrados e pernas meio separadas em caso de desmaio. A angústia a consumia tanto que não distinguia mais tempo; mesmo que segundos tivessem se passado, para ela já esperava a reação da amiga há horas.

Com um toque leve, sente seu ombro ser pressionado. Olha para cima ainda cobrindo o redondo dos olhos, Luna mostrava aquele sorriso simpático sincero que esbanjou na primeira vez que se viram.

– Não vou desculpar, porque não existe culpa alguma. – E então a abraçou.

Era a segunda vez se abraçavam.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s