O mundo BL e os estereótipos culturais japoneses

@dois_dolares(spirit)
Fontes de apoio: Mangá – O poder dos quadrinhos, Sonia Luyten

Se você escreve fiction, é muito difícil não já ter entrado em contato com o universo Boys Love. Não necessariamente escreveu ou leu algo, mas sabe que seus gêneros são bem presentes, independente da categoria, em destaque nos animes e grupos musicais orientais.

O que normalmente nos é passado são categorias e subcategorias, certo? Mas o que há em comum? Para fazer parte do universo BL, são todos necessariamente gays? Ainda que homossexual, reflete traços da cultura heteronormativa patriarcal japonesa? Reflexão ou idealização? Representatividade ou fetiche? Analisemos.

  • Shonen: gênero voltado para o público masculino adolescente japonês. Especifiquei a nacionalidade pelos clichês presentes que normalmente emponderam jovens com as crenças da cultura, exemplo: honra, amizade como algo trivial, etc. Não há relacionamento homossexual, mas é bem comum encontrar materiais (tanto feito por fãs, como algum “especial” feito pelo mangaká) ligados a essa categoria com fanservice devido ao relacionamento dos personagens de dependência afetiva inconsciente “salvarei esse amigo, nem que eu morra junto com ele”; tática de guerra que virou fetiche ou alvo de piada “homofóbica” entre os fãs.
  • Shonen-ai: mais um gênero voltado para o público masculino juvenil – gay ou não – em que, como no shonen, certas morais da sociedade japonesa estão presentes. A diferença de um para o outro é que o amor (ai) realmente existe, mas não é abordado diretamente. Muitas vezes o casal possui relacionamentos matrimoniais héteros fora de seus vínculos, mas a relação um com o outro é de extrema dependência com exposição de sentimentos bem acentuada. Pode ser a história de um casal, mas dificilmente terá beijos ou relações mais carnais um com o outro. O foco mesmo são os sentimentos da relação do que o produto dela em si.
  • Yaoi: Categoria voltada para o público feminino e masculino homossexual jovem. Aqui a homossexualidade é exposta de forma aberta. Com traços delicados, os parceiros têm divisões fixas do papel conjugal (seme: ativo, uke: passivo) quase idênticas às dos relacionamentos heterossexuais em sociedades patriarcais, isto é: o ativo é o macho protetor, normalmente rústico ou cavalheiro; já o passivo é feminino, uma donzela tímida e frágil ou uma moça séria doceira que vira danada gemedora com uma lambidinha rápida no mamilo. Enfim, é característica do yaoi “heterossexualizar” o relacionamento: ser uke quase sempre é ser “a mulher” da relação. Esse gênero é mais um fetiche feminino, por isso é normal ter fofura, sexo quase sempre “a primeira vez”, entre outras temáticas e idealizações de marketing japonês para garotas.
  • Bara: categoria voltada para o público adulto homossexual. Aqui se concentram preferências (hobbies, gostos, fetiches) do “real” mundo gay japonês. Ao contrário do yaoi, os traços não são nada kawaii, variam do rústico (homens exageradamente fortes e peludos) aos mais reais como os do seinen (categoria de anime voltado ao público adulto masculino). Muitos também fixam papéis para o casal dividido pelas posições de ativo e passivo, mas não como heterossexualização; não será um homem e uma “mulher”, mas dois homens, sendo um deles submisso. Pode ou não ter sexo. Os assuntos variam desde a descrição de assumir-se homo, experiência com amigos héteros, tiras políticas ou religiosas (budismo é mais aberto à homossexualidade), revelando/denunciando uma cultura homoafetiva forte em meios em que se tem muitos homens se relacionando e etc. Expressam abertamente também fetiches de submissão, como a urofilia (e é com uma puta normalidade) e outros tipos de bdsm (em que, ao contrário do que as pessoas pensam, uma relação de submissão e dominação não necessariamente é sexo protagonizado com algemas e chicotes como a mídia costuma estereotipar).
  • Lemon: não é bem uma categoria. É um indicador de que naquele yaoi ou bara tem sexo explícito. É normalmente usado como aviso de que naquela história haverá cenas de sexo com homens se relacionando.
  • Shotacon: relacionamento (pode ser sexual ou não) homoafetivo envolvendo meninos, em alguns casos até bebês. Não necessariamente aborda pedofilia (relacionamento entre adultos e crianças), mas o público é o adulto (homens homossexuais e mulheres). Normalmente os temas são experiências amorosas na infância, ou alguma crítica/fetichização, como estupros em internatos, “prisões juvenis” (feben), entre outros. Para se adequar a essa categoria, o personagem que tematiza a relação tem que ter até 13 anos (fim da pré-adolescência).
  • Shoujo: não faz parte do universo BL, mas pode ocorrer fanservice por ser voltado para o público feminino jovem.Aqui estão as categorias mais comuns que compõe o BL. Como podem ver, nessa sequência de colunas, o público provavelmente será bem restrito. Espero ter esclarecido certas coisas e também que tenham gostado do quadro.

    Caso queiram mandar suas dúvidas, dicas ou sugestões relacionadas ao universo BL, fiquem a vontade para expor nos comentários ou mandar no ask da page.

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