Homossexualidade segundo os japoneses – Pré-meiji

Bem, o tema de hoje é um pouco desligado do mundo das fics, em se tratando da abordagem direta, mas as informações vão nos ajudar a entender a homossexualidade nos animes, até a traçar perfis em personagens homossexuais japoneses presentes em nossas fanfics. Mas acima de tudo, responder as nossas dúvidas sobre o fetiche do yaoi(que não é tão comum na nossa cultura) e a retratação do Bara como ele é.

As fontes são algumas informações do livro “Xogum”, mas a base geral da pesquisa é a monografia do meu amigo Wanderson Rodrigues chamada “As cores do homem japonês”. Espero que gostem.

A forma que a população japonesa se relaciona com esse assunto varia em três épocas: Pré-Meiji, Era Meiji(quando os japoneses tiveram contato com os ocidentais) e Contemporâneo(os dias de hoje com globalização e a carga histórica que suas épocas trouxeram). Começaremos com a Pré-Meiji.

O termo “sexualidade” era inexistente, tanto para os que nomeamos “héteros” quanto os outros milhares de termos atualmente criados, dentre um deles “homossexual”. O termo sexualidade não existia porque os conceitos de “amor, “sexo” e “casamento” eram culturalmente diferentes ao que nós ocidentais temos (predominância cristã e grega) que também se modificaram com as épocas. O conceito de amor que conhecemos, os japoneses só tiveram contato na Era Meiji com os europeus. Já repararam que nos animes algumas amizades parecem mais namoros de tão intensa que é a relação? Eles não diferenciam como nós, porque as bases culturais são diferentes. Enquanto no ocidente durante muito tempo era lindo morrer por amor, ter uma “alma gêmea”, uma pessoa que te completaria, esse tipo de construção afetiva era estranha para eles. Por outro lado, quando observamos nos filmes japoneses antigos os samurais morrendo por honra ao xogum, ou os excessos de sepulcros por honra que a cultura mostrava, também nos é estranho, porque nossa cultura prega a importância de uma vida, o valor do perdão e afins.

O casamento nesse período tinha um propósito de contribuição social, apenas. Era comum casamento arranjado, então normalmente os casais só faziam sexo quando queriam ter filhos. O sexo tinha várias faces, podia ser para reprodução ou ritualístico, logo o que existia não eram pessoas que tinham gosto específico, genes(?), orientações para um ou mais tipos, mas pessoas que se relacionavam com um propósito. Não existia “homossexual”, existiam “relações homoafetivas”, não existia “heterossexual”, existia “relações conjugais/especulativas”. Em outras palavras, as relações homoafetivas não só eram comuns como tratadas com irrelevância para a maioria.

“No início, os atos homossexuais eram ligados às questões sociais, principalmente quando relacionados às funções sexuais dos homens na cama, ponderando assim, qual estava acima não só na classe social, como em questões de honra e respeito.Tal figura era representada pelos ditos “ativos”, aqueles que desempenham a função da penetração no ânus do parceiro.
Os mais jovens, muitas vezes inexperientes e objetos de desejo dos mais velhos, sempre eram representados como os passivos da relação. Porém, mesmo numa situação submissa ao seu parceiro mais velho, desempenhavam uma função de suma importância, onde mostrava que o seu senhor era superior a ele, que ele era portador de conhecimento, força e poder, tanto economicamente, como socialmente.

Alguns desses jovens eram intitulados de chigo, prostitutos que eram comercializados apenas para senhores feudais, Samurais, Shoguns e chefes de distrito. Ou seja, eram preparados para alimentar o desejo sexual e viril dos homens de mais alto escalão social na época. Muitas vezes, esses jovens tinham que assumir um voto de fidelidade, chegando até a assinar um contrato, aos seus senhores, garantindo que eles se deitariam apenas com eles, até que fossem dispensados ou assumissem um escalão ou função maior. Partindo desses votos e compromissos, podemos imergir nos sentimentos que hoje a sociedade tenta ocultar. Antigamente, homens de grande poder se apaixonavam por outros homens e comungavam esse amor entre si, assumindo-o, realizando o ato sexual e não se sentindo humilhados ou, muito menos, inferiores aos outros.”(fonte: Nihonjin no iro – As cores de um japonês)

Isso lembra alguma coisa para vocês? A relação homoafetiva também não existia de forma semelhante na Grécia e Roma antiga? Veremos o contato com o europeu na cultura nipônica e o que mudou, como isso reflete na atual conceituação de homossexualidade no Japão na próxima parte do quadro.

Pink Tape – Capítulo 3

Só mais um do novo maço

Preciso de mais tinta, mas está difícil encontrar desde que fecharam a lojinha vintage aqui do final da esquina. Parece que ninguém usa mais máquinas de escrever nos anos 2000. Aliás, pré-início a ele. Não que eu não goste do computador e não tenha uma impressora em perfeitas condições. Mas, tenho que dividi-lo com a minha irmã, e passo mais tempo escrevendo do que fazendo qualquer outra coisa. Hábito antigo… Custou à minha mãe que me comprava milhões de caderninhos para utiliza-los de diário. Chegou a comprar também “diários”, sim, aqueles com cadeadinhos e tudo mais. Mal sabe ela que odeio tanto a minha letra que se hoje em dia tenho boa memorização e raciocínio é por causa das aulas da escola. Como não fazia anotações, tinha que prestar o triplo de atenção nas aulas, saber a tabuada muito bem para fazer contas grandes de memória. Não consigo fazer uma linha manuscrito. Minha terapeuta infantil sugeriu uma dislexia, então me entupiu de ritalina. Foi assim que viciei em drogas. Mal sabia ela que era somente repúdio a minha letra, nada demais. Digo, como sou canhota, minha letra é torta e repuxada, já das outras menininhas bem redondinha, ficava linda até escrevendo com olhos fechados. Mas voltando à ritalina, como eu usei nova, um pouco depois da alfabetização, e permaneci assim por longos tempos, já que a ritalina nunca me fez perder o repúdio pela escrita à mão, usei quase até o ensino médio. Quando o remédio foi cortado, minha forma de ver o mundo mudou brutalmente. Eu cheguei a me sentir dependente do remédio para sobreviver, porque havia muitos desafios dos quais eu parecia saber lidar antes, mas depois do corte, eram totalmente novos para mim. Foi difícil refazer a vida sem os remédios, o ensino médio necessitava bem mais desse excesso de concentração, inclusive, anotações agora faziam falta. Ainda bem que foi na época que minha mãe financiou o computador, Jéssica usava de tarde e eu de noite. Isso me deixava aflita, porque quando eu estava na escola não parava de pensar no computador novo, e quando estava no computador só pensava na escola. Jin, que na época eu nem a conhecia direito, pôs uma máquina de escrever antiga na minha mesa. Eu imaginava como ela imaginava minha situação, e anos depois descobri que ela me achava hipster e precisava se livrar de coisas velhas do sótão dos pais. Lucrei a máquina e uma amiga.

Eu e Jin éramos as excluídas da classe, separadamente. Eu era a pessoa que não queria relacionar e ela era a pessoa que tinha vergonha de se relacionar. A timidez dela sempre me pareceu… Insuportável. Era até fofo, de leve, por ela ser enorme, era engraçado aquela moçola de 172cm tentar se esconder embaixo da mesa. Mas não sei, sempre a julguei mal, sem conhecê-la. Era o tipo de pessoa que eu não gostava e pronto. Sem mais. Não gostava de ninguém, mas não imaginaria que alguém daquele ambiente fosse se tornar um amigo. Falo amigo, porque só tenho ela, então não dá pra ser “o melhor”.

Depois da máquina, passamos a conviver uma com a outra. Nos inscrevemos para a mesma faculdade porque ambas queríamos alguma arte, mas nossos pais jamais deixariam. Daí a faculdade dos sonhos, uma que maquie aquele diploma que é realmente de seu desejo.

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Não sei porque estou contando tudo isso, sei que não é a minha forma de narrar os fatos, mas realmente quero adiar os flash backs. Não porque eu não goste, mas porque estou me poupando de contar como conheci a Luna. Ou que permaneça contando de onde paramos. Até porque, lembro-me da ressaca horrível que tive, creio que até faltei a aula… Lembro também da Luna ter ficado puta e eu precisar me esforçar para que voltemos ao normal… Certo, vamos falar sobre isso então, já que no fim das narrações de praticamente tudo que eu contar vai terminar em Luna. Poxa Luna, que saudade…

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Mesmo com o sol da manhã queimando o meu rosto na persiana nada fosca, só consegui acordar com um barulho tremendamente irritante vindo das batidas da minha mãe sobre a porta de madeira também nada gentil em estar chiada. Ainda sonolenta, consegui distinguir também seus berros ameaçando abrir independente da minha permissão. Olho em volta e observo que todas as drogas magicamente sumiram do campo de vista, devem estar de baixo da cama ou sei lá.

Por falar em cama, como vim parar aqui? Não lembro de tudo, mas tenho fragmentos da noite passada…

Beijos…

Nós, estiradas no tapete, deitadas sobre os almofadões indianos enquanto puxávamos no cachimbo minha essência à base daquilo que vocês já sabem o quê.

Amber provavelmente me colocou na cama quando desmaiei e deve ter me roubado…

– Entrei. – Disse minha mãe com uma vassoura que mais do que nunca aparentava enorme em suas mãos. Pelo jeito que segurava, parece que ia bater em alguém, e eu era a única pessoa do quarto… – Que bagunça é essa! Aqui virou casa noturna?!  – Na verdade ela falou “puteiro”, mas quero poupa-los da meia dúzia de palavrões que essa mulher diz invés de utilizar da boa pontuação.

– Por favor, não grite. – Pressionei o travesseiro o mais forte possível entre a minha cabeça. Eu ainda estou morta.

Raramente aprecio o gosto de uma bebida alcoólica, ainda que como ingrediente secundário. Com exceção do vinho do porto, magnificamente favorito ao meu paladar. Sabe como é, paladar sensível ao extremo, tipo de criancinha. Ou então costumo beber cachaça pura mesmo, já que vou sentir o gosto ruim do mesmo jeito.  Bebo para ficar bêbada, apenas. Não gosto do álcool em nada mais. O problema é que como não costumo misturar, acordo excessivamente dolorida. Simplesmente não me reconheço por causa da bebida, tudo que sinto é como se duzentos carros tivessem passado por cima de mim. Misturando com a cannabis, a enxaqueca por ressecamento piora ainda mais.

E de pensar que já se passaram o quê? Umas cinco horas?

– Ninguém mandou encher a cara até altas horas da noite. Você por acaso levou Sulli pro mau caminho? E de pensar que ela era uma moça comportada, doce, melhores notas. Um orgulho. Agora, toda vez que sai com ela, volta assim… Ela provavelmente anda cedendo aos seus desejos.

– Sou o demônio da guarda. – Pensei alto demais…

Permaneço protegendo meus ouvidos com as almofadas já esperando o longo sermão.

– E ainda me responde! – Disse limpando uma estante cheia de nada agora captável com o espanador. – Na sua idade, a Jéssica só saía de casa para ir para a igreja. Ela ainda brincava de boneca, tá? – Espana o cômodo com mais força que faz uma torrente de poeira fazê-la tossir. – Faz anos que esse quarto não vê uma faxina, não é?

Quando ela começou a varrer, lembrei dos possíveis segredinhos. E se Amber não tivesse me assaltado? E se tivesse guardado as coisas em qualquer lugar? Em apenas um segundo, esqueço a dor e recordo o porquê de proibir a minha mãe de entrar no meu quarto. Estava abarrotado de coisas que ela não podia ver, e quem dera fossem só drogas.

– Pode deixar que vou limpar tudinho. – Levanto com muito esforço, ainda que em um pulo. – Está tudo bem.

Depois de trancar a porta, vejo se está tudo no devido lugar. O último disco da vitrola estava lá. Meu celular não saiu da minha bolsa, tudo que botei lá estava lá. Pensando bem, não teria lógica aquela menina roubar esse tipo de coisa, seria algo fácil demais de recuperar. E ela era amiga da Qian… Estou louca. E um pouco culpada também.

Não tinha nada embaixo da cama. Verifiquei o guarda roupa e a caixinha estava intacta, com chave passada e tudo mais. Amber deve ter guardado e posto a chave de volta na minha bolsa.

Amber… Desde que acordei não a tiro da cabeça. Não acredito que uma machorra está mexendo assim comigo, pior ainda, sem maiores recordações. Difícil me lembrar de algo útil.

Se cabeça dolorida desse dinheiro, o potinho dos peitos viraria cofre…Na verdade, já teria feito as três plásticas: mamas, bicos e o desenho nos mamilos… Peitos, quero peitos…

Minha cabeça…Nem vou prometer a mim mesma que não vou mais beber…Porque eu vou, né…

Claro…

Bem, com dor ou não, além da faxina preciso pensar o que vou fazer para o meu monólogo.

Como dito, sou estudante de economia com segunda licenciatura em artes cênicas, então por ser uma opção livre, quem deve montar tudo sou eu. Vídeo porque já pretendo trabalhar com escrita – de máquina, claro – no meu projeto de extensão(penso num futuro distante, mas não no de agora, pra você vê). A Sulli até me deu umas ideias, ela disse “faça sobre algo que você realmente ame”, poxa, seria um completo tédio e objetificação feminina um filme inteiro sobre seios. Daí que me bateu uma ideia. A coisa que eu mais amo no mundo não é peitos, e sim mulher. Não na visão machista da coisa, não apenas o corpo feminino, mas a entidade feminina.

Como seria a mulher que eu desejo ser…

A aparência… Quando penso em mulheres, automaticamente me vem Vênus à mente. Sempre considerei Emilie Autumn uma Afrodite contemporânea. Emilie é um ótimo nome….

Mas e a essência, tenho paixão por mulheres que lutam, poderia tentar copilar uma personalidade como da Beauvoir, mas necessito de sentimentos, não ideologia. Algo mais fundo que não se encontra em livros, só na convivência…

E me vem a Amber na cabeça.

E só me vem Amber.

Tento catar sobras do café preto já que todos tomaram café da manhã sem mim. Pego morno mesmo, e penso se boto ou não adoçante, já que minha mãe entrou numa onda de fazer dieta coletiva e não comprar mais açúcar. Decido toma-lo puro mesmo.

Sento a escrivaninha e tento não acender um incenso, consumi fumaça para uma vida, para uma pessoa que tinha asma e bronquite na infância… Mas não deixo de acender um Harmony, claro. Atualmente me apaixono fácil por mentolados acompanhados com café.

Foi o que eu achei até por na boca. Não, não é pelo fato do café estar horroroso, mas é pelo cigarro mesmo. Na quinta tragada, já não me parecia tão bom, mesmo que eu tenha consumido essa marca por quase sete meses.

LM…  Amber gosta de LM.

Mas nem a pau que vou me levantar daqui só para comprar um cigarro que nem gostei da primeira vez que fumei…  Que seja, vai ser o Harmony mesmo.

Depois de trinta minutos pensando no que eu ia escrever, apertando a primeira tecla do roteiro, vejo que a fita acabou.

E aqui estamos nós em frente à máquina de escrever, sem tinta e talz….

Ia abrir o closet, mas lembrei que lá tem um espelho, e fiquei com medo de estar escrito “Bem vindo ao mundo da Aids” e essas bizarrices…  Desde quando me relacionar com pessoas casualmente me fizeram desenvolver síndrome de tourette? Está sendo difícil engolir o quão encantada estou por uma pessoa que sequer daria chance de conhecer se não fosse um encontro às escuras. E essa protelação ir atrás dessa maldita tinta talvez seja por medo de escrever o que eu realmente quero escrever sobre Emilie, sobre Amber.

E agradeci a lojinha por ter fechado. Ao mesmo tempo, estou pensando como vou fazer essa merda. Comprei LM. Ai…

Enquanto inalo o cigarro no corredor da sala, lugar aliás que estou proibida de fumar, mas foda-se, não tenho culpa de ter uma letra terrível, digito as linhas no computador e vejo ainda que com “tinta”, nada sair. Não entendo essa fixação pela moça, mas ao mesmo tempo descobrir que não as sabe nada dela. Todo o meu encanto se concentra em um único momento, oque não dá pra falar burulhas do que penso sobre a pessoa. Quando penso nas qualidades de uma mulher que eu desejo ser, não me vem adjetivos, mas uma única imagem. Amber. Me vem flashs doces de ontem a noite com Amber, não sai uma palavra de sua boca, não sinto seus toques, não sinto cheiro ou gosto algum, mas ela não para de falar, me beija me toca os seios enquanto me livro dos botões da vestimenta. Sinto o cigarro: cheiro, gosto e textura, mesmo tendo o terminado há horas. Me vem a imagem da Amber, e a personificação do cigarro como nos outros sentidos sensoriais. Como a marca que consumi, a primeira tragada é terrível, mas a segunda não te faz parar mais. De fato, não me sai da cabeça ainda que não me lembre de você.

Falta uma hora para passar o ônibus escolar e eu só pensava no quanto eu estava ansiosa para pegar o número da pessoa com a Sulli.

Decidi faltar aula. Queria esfriar a cabeça da situação.

Quando fui tomar banho, passando a mão pelos meus seios, claro, notei que precisavam urgente de preenchimento por serem tão pequenos, mas também pude sentir direitinho os toques que Amber deu em mim. Pensei em desistir da limpeza, mas meio que me forcei a entrar no chuveiro, estando frio o quente. Antes de dormir, li capítulos de “Raízes históricas do conto maravilhoso” quase sem concentração e até no capítulo sobre floresta mágica, dava um jeito de enfiá-la. Há tempos não me tocava, até porque agora que estudo a noite e transo com Luna às sextas, finais de semana na pizza com o videogame e a Sulli , não tenho tempo ou até necessidade. Fechei o livro, acendi um LM traguei três vezes, deixei-o aceso no cinzeiro e me massageei até cair no sono.

No dia seguinte, na escola.

– Jin. – Esbarrei com ela no corredor.

– SOOJUNG! – Pulou em cima de mim quase as lágrimas enquanto me sufocava com aquele abraço intenso até demais.

– Ai. – Minha cabeça ainda tá daquele jeito – O que houve? – Questionei quase a chutando. Provavelmente única maneira de sair viva dessa ursa(sentido não lésbico… Espero).

– Fiquei tão preocupada! Passamos a noite falando de vocês! Nem conseguimos ir até o fim… Tá com raiva de mim?

– O que? – Tento por a cabeça no lugar. Do que é que ela está falando? O que eu tinha que fazer? – Aé! Tem o telefone daquela menina, a Amber?

– O que? Não me diga que gostou dela? Fiquei preocupada pra nada! Perdi a noite com a Vic atoa?!

– Vocês não transaram? Por quê?

– Por que fiquei preocupada com você! Como eu ia adivinha que de repente começou a gostar de “rapazes”? – Sim, fez as aspas com os longos dedinhos.

– Calma, não quero o número pra ficar com ela. Só quero…  – Avistei a Luna há uns 20 metros. Dei tchauzinho, ela viu e ignorou. Saiu voada seja lá pra onde foi. Tá, agora sim fiquei preocupada..

– Hã? Krystal, vai ou não me contar? O que aconteceu?

– Preciso ir.

– O que?

– Depois pego o número, licença. – Saí correndo atrás dela. Será que está chateada por ontem?

Ela entrou na sala. Aula de estatística. Precisa de passe para entrar na sala, e eu tinha esquecido o meu.

Depois de 4 horas, voltei a procura-la. Perguntei nos corredores mas ninguém tinha certeza se a viu, até que lembrei que ela tem treino hoje.

Como imaginei. Encontrei-a chefiando a equipe de Cheerleading. Nossa! como ela ficava gostosa com o uniforme… Parecia estar muito brava, mandando o povo fazer umas flexões escrotas por capricho e afins.

Decidi não me meter e só falar com ela mais tarde, quando estivesse em casa, bem. De banho tomado, entende?

“Encontrei a Amber com a Vic no corredor. Ela disse que pôs o número dela no seu celular a noite e perguntou se você ‘melhorou’. Vai contar o que aconteceu ou não?”

“Não lembro.”

“Então porque está tão fixada nessa menina?”

“Queria eu saber… Eu sei que coisas estranhas andam acontecendo comigo…”

“Como assim coisas estranhas? Você só conheceu ela há dois dias.”

“Ontem eu deixei um cigarro aceso enquanto me masturbava e dormir assim mesmo”

“Não precisa se matar para apagar as lembranças, Krys. E essa maneira de morrer é a sua cara”

“Não foi tentativa de suicídio, e eu não quero morrer me masturbando, quero morrer transando. Enfim, eu não consigo parar de pensar nela, ou fumar essa droga de marca – cara ainda – porque é como uma personificação dela. Não é como se eu quisesse me relacionar amorosamente, mas quero me relacionar, entende?”

“Mais ou menos…”

“Ter um vínculo com ela não é um desejo, mas é uma necessidade que estou tendo.”

“Entendo… Boa sorte, então… Vai terminar com a Luna.”

Tinha até me esquecido por alguns minutos da Luna.

“Vou passar na casa dela umas 19h hoje.”

Luna estudava a tarde, até umas 18h30. Eu começava às 16h e ia até umas 22h, exceto às terças e quintas, que por coincidência era hoje.

“Luna”, gritei no portão da casa dela em plenas 19h da noite. A campainha estava quebrada e parece que ela não quer atender o celular de jeito nenhum. “Luuuuna”.

– Shh… – Disse a própria da janela – Já vou abrir! – Praticamente cochichou furiosa.

Ao abrir o portão, fui dar um abraço, ela logo estendeu a mão em um sinal de pare e questionou zangada:

– O que veio fazer aqui? – Cruzou os braços. – Minha avó está doente e detesta barulho! Me vem você gritando a essa hora da noite aqui em casa?

– Perdão, você deixou o celular desligado…

– Estava estudando, não queria ser incomodada.

– Então por que não me chamou para estudar como sempre faz?

– Porque não quero levar outro bolo pela Choi Jinri…

– Ah, então tá brava por aquele dia?

– Claro que sim! – Viu que se entregou e então ficou sem graça. – E foi legal? – Tentou ser arrogante. – Gostou da A-M-B-E-R?

– Quem? – Amber? A menina que quase transei e não paro de pensar por um segundo? – Que isso, Luna…

– Uai, não foi o que a Choi Jinri disse? “A amber está te esperando”?

– Desculpa, gata. É porque eu tinha marcado com a Jin há tempos, era uma saída importante que eu não podia furar…

– E você transou com ela?

– Claro que não! – Mas quase. – A menina é tomboy e não tem peitos… – São maiores do que os meus, ainda!

– Então só voltou atrás porque tenho peitos?

– Voltar atrás? Não aconteceu nada, não era para ter acontecido nada! Era só uma amiga da Victória Song. Eu só fui acompanhante da Amber para segurar vela. – Cruzei os braços. – Eu e você não somos nem namoradas pra ficar tão brava comigo! Não houve nada, só o fato de além de você me enrolar ainda fica me interrogando…

Luna ficou séria. Realmente aquela situação dependia dela. Tínhamos um relacionamento que só não se tornara namoro porque ela não permitiu.

– Bem… – Tentou mudar de assunto. – A noite foi legal? – Perguntou de braços cruzados e fazendo um biquinho preocupado.

– Eu preferia ter ficado com você…

Com a demonstração meio tosca de carinho da minha parte, Luna se encheu de alegria e deu uns dos pulinhos fofos que dava sempre que ia me dizer “oi”.

– Verdade? – Sorriu.

– Sim… – fiquei meio sem graça com isso.

Ficou toda derretida com tudo isso. Meninas héteros são muito fáceis, por isso se magoam tanto, Deusa a livre.

– Quer dormir aqui? – Ela propôs animada.

– Sua avó não está doente?

– Não, só está vendo a novela. Ela é quase surda, não tema, ela não vai nos incomodar.

Como não capitar a mensagem subliminar por trás de um convite desses?

X

Como eu disse, sempre acaba em Luna.

Em uma época na qual a moda é ser Super-Homem, só consigo idolatrar o Kira.

Me peguei lendo meus materiais e reparei quantos defeitos, muitas vezes propositais, meus personagens possuem. A começar da minha favorita, Krystal Jung de Pink Tape. Ela tem essa obsessão por peitos, depilação e insistir que uma plástica a tornaria mais feliz. Ela tem o que mais abomino: síndrome da boneca de plástico. Não tenho nada contra quem escolhe viver da forma que desejar, é problema de cada um. Mas achar que as pessoas devem seguir um padrão, seja o social ou o seu, me irrita, e é isso que ela faz. Só transa com meninas que fazem depilação íntima, escolhe a pessoa mais pelos peitos que pela personalidade e não gosta de lésbicas masculinas porque se assemelham – nos esteriótipos de gênero social – a homens(e ela é muito misândrica). Só de ler esses defeitos dela, pareceria uma personagem daquelas que eu teria ódio, por ser retardada, mas é o contrário. Eu a amo muito.

Como uma pessoa normal, todos temos intrigas, preconceitos, problemas internos mesmo que instalados em um grupo social, ou ideológico. Se nem em religião, que é irrefutável, acreditamos 100% em tudo que abordam, porque em um espaço aberto a discussão não teríamos a nossa bagagem histórica(vivência) que nos faria questionar o utópico? É isso que nos faz não sermos perfeitos, porque simplesmente não conseguimos seguir padrões, somos muito diferentes para nos adequarmos à rigidez. E tudo que nos desvia da perfeição, em qualquer inserção, são defeitos. Todos temos defeitos, até uma personagem criada se o autor quiser deixa-lo mais real. Mas o problema que eu quero abordar não é diretamente esse.

Eu entendo que muito do que a gente escreve ou idealiza parte do que queríamos ser, mas isso já é tão excessivo, principalmente da mídia. É tão corriqueiro vermos em forma de personagens ideologias que devemos ou deveríamos seguir -socialmente falando -, o ser perfeito cujo o único problema é não ter defeito algum. Eu já vejo tanto essa imposição toda na vida, que o que desejo agora são protagonistas como eu, ou você. Pessoas que desejam melhorar exatamente pelo fato de terem problemas. Problemas internos, consigo mesmo, conflitos íntimos gerados ou não apenas pelo social. Desejo me ver inserida, representada, não apenas o que eu deveria ou desejo ser. É por isso que apesar de tantas atitudes machistas, desconstruo esse título possivelmente agregado a ela reflexões com suas queimas diárias ao sutiã(até porque ela quer aumentar o número -qqq), a relação de si tendo tanto orgulho da sua sexualidade e ela levantando a bandeira de que se orgulha por não seguir padrão imposto nenhum, apenas àqueles que ela acha graça. Ela não tem conceituação, denominação, ou título nenhum, ela não é uma heroína ou exemplo para ninguém. Ela é apenas Jung Krystal.

PS: a analogia do título se trata de um herói e um anti-herói.