Homossexualidade segundo os japoneses – Pré-meiji

Bem, o tema de hoje é um pouco desligado do mundo das fics, em se tratando da abordagem direta, mas as informações vão nos ajudar a entender a homossexualidade nos animes, até a traçar perfis em personagens homossexuais japoneses presentes em nossas fanfics. Mas acima de tudo, responder as nossas dúvidas sobre o fetiche do yaoi(que não é tão comum na nossa cultura) e a retratação do Bara como ele é.

As fontes são algumas informações do livro “Xogum”, mas a base geral da pesquisa é a monografia do meu amigo Wanderson Rodrigues chamada “As cores do homem japonês”. Espero que gostem.

A forma que a população japonesa se relaciona com esse assunto varia em três épocas: Pré-Meiji, Era Meiji(quando os japoneses tiveram contato com os ocidentais) e Contemporâneo(os dias de hoje com globalização e a carga histórica que suas épocas trouxeram). Começaremos com a Pré-Meiji.

O termo “sexualidade” era inexistente, tanto para os que nomeamos “héteros” quanto os outros milhares de termos atualmente criados, dentre um deles “homossexual”. O termo sexualidade não existia porque os conceitos de “amor, “sexo” e “casamento” eram culturalmente diferentes ao que nós ocidentais temos (predominância cristã e grega) que também se modificaram com as épocas. O conceito de amor que conhecemos, os japoneses só tiveram contato na Era Meiji com os europeus. Já repararam que nos animes algumas amizades parecem mais namoros de tão intensa que é a relação? Eles não diferenciam como nós, porque as bases culturais são diferentes. Enquanto no ocidente durante muito tempo era lindo morrer por amor, ter uma “alma gêmea”, uma pessoa que te completaria, esse tipo de construção afetiva era estranha para eles. Por outro lado, quando observamos nos filmes japoneses antigos os samurais morrendo por honra ao xogum, ou os excessos de sepulcros por honra que a cultura mostrava, também nos é estranho, porque nossa cultura prega a importância de uma vida, o valor do perdão e afins.

O casamento nesse período tinha um propósito de contribuição social, apenas. Era comum casamento arranjado, então normalmente os casais só faziam sexo quando queriam ter filhos. O sexo tinha várias faces, podia ser para reprodução ou ritualístico, logo o que existia não eram pessoas que tinham gosto específico, genes(?), orientações para um ou mais tipos, mas pessoas que se relacionavam com um propósito. Não existia “homossexual”, existiam “relações homoafetivas”, não existia “heterossexual”, existia “relações conjugais/especulativas”. Em outras palavras, as relações homoafetivas não só eram comuns como tratadas com irrelevância para a maioria.

“No início, os atos homossexuais eram ligados às questões sociais, principalmente quando relacionados às funções sexuais dos homens na cama, ponderando assim, qual estava acima não só na classe social, como em questões de honra e respeito.Tal figura era representada pelos ditos “ativos”, aqueles que desempenham a função da penetração no ânus do parceiro.
Os mais jovens, muitas vezes inexperientes e objetos de desejo dos mais velhos, sempre eram representados como os passivos da relação. Porém, mesmo numa situação submissa ao seu parceiro mais velho, desempenhavam uma função de suma importância, onde mostrava que o seu senhor era superior a ele, que ele era portador de conhecimento, força e poder, tanto economicamente, como socialmente.

Alguns desses jovens eram intitulados de chigo, prostitutos que eram comercializados apenas para senhores feudais, Samurais, Shoguns e chefes de distrito. Ou seja, eram preparados para alimentar o desejo sexual e viril dos homens de mais alto escalão social na época. Muitas vezes, esses jovens tinham que assumir um voto de fidelidade, chegando até a assinar um contrato, aos seus senhores, garantindo que eles se deitariam apenas com eles, até que fossem dispensados ou assumissem um escalão ou função maior. Partindo desses votos e compromissos, podemos imergir nos sentimentos que hoje a sociedade tenta ocultar. Antigamente, homens de grande poder se apaixonavam por outros homens e comungavam esse amor entre si, assumindo-o, realizando o ato sexual e não se sentindo humilhados ou, muito menos, inferiores aos outros.”(fonte: Nihonjin no iro – As cores de um japonês)

Isso lembra alguma coisa para vocês? A relação homoafetiva também não existia de forma semelhante na Grécia e Roma antiga? Veremos o contato com o europeu na cultura nipônica e o que mudou, como isso reflete na atual conceituação de homossexualidade no Japão na próxima parte do quadro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s