Ciclo

Era um dia normal antes do telefone tocar.

Seu irmão mais velho foi viajar a negócios, e não voltou mais. Um lamentável acidente de carro aconteceu naquela quinta-feira, metade da semana. Não que a informação fosse importante, para Crystal e seus familiares, pelo menos. Mas a perícia insistia em repetir a data, como se eles quisessem que ela ficasse marcada na mente daquela família, como se a perda não fosse o suficiente para fazê-lo.

Crystal nunca tinha perdido ninguém na vida. Para ela, a morte simplesmente era um mito noticiado nas mídias; aquilo que a gente já ouviu falar, mas nunca a vimos. Não sabia como se comportar, ou tragar essa perda.

Era estranho as pessoas próximas falarem com tanta segurança dos sentimentos dela, como se eles estivessem não só a lendo, mas a escrevendo. Cada comentário era como uma anotação em uma folha em branco. Para ela, essa sensação sem dúvida era a pior parte da perda. Não sentia nada, até falarem a frase “você deve estar se sentindo tão assim”. Mais sentimentos novos se encaixavam em seu repertório conforme as pessoas os encaixotavam lá.

Não foi para o enterro. Lhe avisaram que as pessoas iam comentar, tirar conclusões precipitadas da sua atitude, mas nada disso era importante para ela. Não queria ser egoísta, mas contemplar o corpo do seu irmão em uma caixa parecia tão idiota que ela se recusou. Não era o seu irmão, era um cadáver, pensava. Seu irmão agora estaria em seu coração, em suas lembranças, não tinha o que fazer, a despedida infelizmente foi antes de ele viajar. Nenhum ritual, por mais simbólico que fosse, parecia ter sentido.

Abriu uma garrafa de vinho branco, ligou o netflix na sua Smart Tv e passou o dia inteiro lá. Para ela, ver séries era o maior refúgio naquele momento tão confuso. Era uma condução a outra realidade, era uma aventura exclusiva que a faria se desligar de toda a sua volta. Seu irmão não morreu, porque ela não tinha irmão. Ela não era nem ela, podia ser ele, podia não ter gênero, podia sequer ser um ser vivo, mas animado. Ela era uma bruxa, um dragão, uma fada, uma mulher divorciada com sete filhos que mona no interior de Minas Gerais, um cara velho envolvido em um relacionamento gay polígamo em outra dimensão, um alter ego de uma criança desequilibrada. Ela podia ser o que quisessem que ela seria.

Quando cansou, foi para o banheiro, tomou um banho, escovou os dentes e deitou-se na cama. As lembranças do seu irmão vieram a sua mente e então chorou tanto, tanto, tanto, que desmaiou banhada nas mágoas que expeliu enquanto fazia o seu próprio ritual. Porque seu irmão partiu a negócios e não voltaria mais. Mas ele estava bem. Quem estava mal foi quem foi deixado para trás, que precisaria mais do que nunca se recompor para suportar mais um dia no amanhã. E então entendeu.

Acordou renovada.

Mandou e-mails pedindo desculpas aos familiares por não estar presente para os consolar.

Acendeu um cigarro, tomou seu café puro na varanda enquanto admirava a vista do quinto andar. Fechou os olhos e se imaginou voando. Quando os abriu, lágrimas vieram em seguida. Não sabia o porquê, mas sabia que ele existia, só veio indireto. Terminou o café e apagou o cigarro. Lavou a única louça que sujou naquela manhã. Vestiu-se para o trabalho, e então foi.

Ainda não era um dia normal.

Do trabalho foi a uma floricultura. De lá, ao cemitério onde o cadáver do seu irmão estava. Pediu desculpas a si mesma por ser tão retardada, mas foi inevitável. Disse em voz alta direcionada ao túmulo que se fosse por ela teria o cremado. Lamentou-se por não ter feito algo digno, como um tributo, como ele merecia. E por mais que se desse conta de que ela estava falando com o nada, ela não parava. Era terapêutico, mesmo que fosse contra o que acreditava. Disse que ele era um idiota, e o xingou por ter deixado ela para trás. Depois de um quilo de palavrões, lágrimas e gritos, se sentiu bem melhor. Antes de ir embora, pôs a música favorita do irmão no celular, e quando acabou, ela disse que o amava. E finalmente se foi.

Aí sim, pôde voltar a rotina normal.

Ps: foi postada no social spirit