De volta ao útero

Era líquido, quente e um pouco mais viscoso que suor.

Tinha cor. Variava do carmesim ao escarlate.

O gosto. Férreo, levemente salgado.

Cheiro embriagante, remetia a sono e desespero ao mesmo tempo.

Quando tentando limpar, chegava a encharcar uma toalha, parecia que nunca ia acabar.

Na rua, as pessoas olhavam, mas nada faziam. Provavelmente estavam com medo que inundasse o local, já que um orifício tão pequeno como a narina esquerda podia produzir tanto de uma só vez.

Não. Não tinha gosto salgado. O sal vinha das minhas lágrimas que se misturavam com o sangue.

Sangue.

Começou escorrendo da narina esquerda, então a direita. Quando vi, minha vagina também vazava, e não era conteúdo mensal. Era vivo demais para excreção de células mortas.

Ora, é normal. Disse o médico rindo enquanto me tocava com suas luvas de latex. Hemorragias na secura do cerrado são livres de preocupação, não seja tão emocional, mulher. Terminou após atestar a estabilidade da minha saúde. Nos vemos de novo caso traga algo realmente sério.

E nos vimos de novo.

De dia, fazendo exame de sangue apalpando-me com luvas de latex, durante a noite já deram minha carta de isolamento. Sem previsão de volta. Câncer. Possível morte. Se aceitar o tratamento 80%, se não 60, se menos 40. Seus amigos não podem vir, apenas família. Família mora longe, não pode internet. Não pode comer fora do hospital. Se comer, vomita. Se vomitar, queima. Se queimar, sangra. Não pode sangrar. Se sangrar, morre. Se morrer, acabou. Se acabar, já era.

Foram muitas as notificações. Minha mente só assimilou com o tempo, conforme a dor da experiência marcava o meu coração com ácido, como a quimioterapia que o forçava igualmente. Era um tratamento que se não exterminasse o câncer, o exterminado era eu. As circunstâncias que me mantinha igualmente me dilacerava, isso a vinte graus. E aos poucos, o tudo me sugava a vida, para assim poder devolvê-la a mim.

Você está muito sensível. Afirmou uma enfermeira ao me ver chorando no terceiro dia de isolamento. Descobri que posso perder a vida enquanto minha carne queima literalmente, com direito a apenas 30 minutos de visita diária apenas de familiares próximos sem nem ter a chance de me despedir daqueles que amo e não podem estar presentes, que muitas vezes sequer ficaram sabendo da minha situação porque não tive oportunidade de avisar. Não tenho o direito de chorar, mesmo assim. Até minhas lamentações por mim mesma me foram tiradas. Talvez eu seja muito emocional mesmo…

Mas eu achava que estava até no lucro até a mesma me dar meu primeiro banho de esponja, com luvas de latex. Mal tinha entrado no hospital e senti meu corpo debilitado a tal ponto que nem banho ou excrementos eu faria sozinha, mesmo que tivesse a capacidade de fazê-los. Aí sim, vi que a ficha caiu. Até então era apenas um pesadelo, mas então senti na pele profundamente: eu estava doente e tinha chances óbvias de morrer. E agora? Eu poderia chorar? Será que desta vez as pessoas aprovariam minhas emoções negativas?

Como era difícil pra eles ver pessoas externando sentimentos que eles tinham, mas seguiam uma regra de que algo tão normal como a infelicidade efêmera era tabu. Observamos isso em rede sociais, sempre problematizam pessoas que se mostrem felizes, mas se elas se mostram infelizes problematizam em dobro.

O mal estar da doença com a soma de medicamentos que eu tomava, o estado emocional na situação completa em que eu me encontrava mais um misto de arrependimentos e conformações que me cercavam deixou minha vida por um fio. Eu agora era brasa banhada nas minhas próprias cinzas.

As enxaquecas pioraram ainda que eu passasse metade do tempo dopada pelo ópio e pela dor, então me transferiram para um novo quarto, um que fosse adequado àquelas necessidades. Ele tinha banheiro. Ainda que a divisão entre quarto e boxe não fossem tão marcantes, ele existia. Minha mãe ganhou carta para me tratar uma hora por dia.

Você é linda. Dizia enquanto lavava o meu corpo observando-o perder a carne, ou enquanto penteava os meus cabelos e os catava do travesseiro, que de tão volumosos até pareciam ter nascido lá.

Coma mais um pouco, ou sua saúde não vai voltar. Dava colheradas com a mão direita enquanto segurava o saco para vômito a esquerda, pois sabia que tinha que usá-lo em muito breve.

Não precisa ter receio de chorar na minha frente, você já está sofrendo demais, não quero que guarde nada só porque estou aqui.

Ela me banhava, me alimentava e me fazia companhia naquele quartinho úmido e escuro. Eu podia não estar lúcida durante a estadia, mas podia sentir a esperança que aquecia cada gesto, cada ato para comigo. Suas doces palavras me acalmavam, e meu coração batia novamente com suas carícias de mãos nuas.

Era como estar de volta ao útero.

Anúncios