Ciclo

Era um dia normal antes do telefone tocar.

Seu irmão mais velho foi viajar a negócios, e não voltou mais. Um lamentável acidente de carro aconteceu naquela quinta-feira, metade da semana. Não que a informação fosse importante, para Crystal e seus familiares, pelo menos. Mas a perícia insistia em repetir a data, como se eles quisessem que ela ficasse marcada na mente daquela família, como se a perda não fosse o suficiente para fazê-lo.

Crystal nunca tinha perdido ninguém na vida. Para ela, a morte simplesmente era um mito noticiado nas mídias; aquilo que a gente já ouviu falar, mas nunca a vimos. Não sabia como se comportar, ou tragar essa perda.

Era estranho as pessoas próximas falarem com tanta segurança dos sentimentos dela, como se eles estivessem não só a lendo, mas a escrevendo. Cada comentário era como uma anotação em uma folha em branco. Para ela, essa sensação sem dúvida era a pior parte da perda. Não sentia nada, até falarem a frase “você deve estar se sentindo tão assim”. Mais sentimentos novos se encaixavam em seu repertório conforme as pessoas os encaixotavam lá.

Não foi para o enterro. Lhe avisaram que as pessoas iam comentar, tirar conclusões precipitadas da sua atitude, mas nada disso era importante para ela. Não queria ser egoísta, mas contemplar o corpo do seu irmão em uma caixa parecia tão idiota que ela se recusou. Não era o seu irmão, era um cadáver, pensava. Seu irmão agora estaria em seu coração, em suas lembranças, não tinha o que fazer, a despedida infelizmente foi antes de ele viajar. Nenhum ritual, por mais simbólico que fosse, parecia ter sentido.

Abriu uma garrafa de vinho branco, ligou o netflix na sua Smart Tv e passou o dia inteiro lá. Para ela, ver séries era o maior refúgio naquele momento tão confuso. Era uma condução a outra realidade, era uma aventura exclusiva que a faria se desligar de toda a sua volta. Seu irmão não morreu, porque ela não tinha irmão. Ela não era nem ela, podia ser ele, podia não ter gênero, podia sequer ser um ser vivo, mas animado. Ela era uma bruxa, um dragão, uma fada, uma mulher divorciada com sete filhos que mona no interior de Minas Gerais, um cara velho envolvido em um relacionamento gay polígamo em outra dimensão, um alter ego de uma criança desequilibrada. Ela podia ser o que quisessem que ela seria.

Quando cansou, foi para o banheiro, tomou um banho, escovou os dentes e deitou-se na cama. As lembranças do seu irmão vieram a sua mente e então chorou tanto, tanto, tanto, que desmaiou banhada nas mágoas que expeliu enquanto fazia o seu próprio ritual. Porque seu irmão partiu a negócios e não voltaria mais. Mas ele estava bem. Quem estava mal foi quem foi deixado para trás, que precisaria mais do que nunca se recompor para suportar mais um dia no amanhã. E então entendeu.

Acordou renovada.

Mandou e-mails pedindo desculpas aos familiares por não estar presente para os consolar.

Acendeu um cigarro, tomou seu café puro na varanda enquanto admirava a vista do quinto andar. Fechou os olhos e se imaginou voando. Quando os abriu, lágrimas vieram em seguida. Não sabia o porquê, mas sabia que ele existia, só veio indireto. Terminou o café e apagou o cigarro. Lavou a única louça que sujou naquela manhã. Vestiu-se para o trabalho, e então foi.

Ainda não era um dia normal.

Do trabalho foi a uma floricultura. De lá, ao cemitério onde o cadáver do seu irmão estava. Pediu desculpas a si mesma por ser tão retardada, mas foi inevitável. Disse em voz alta direcionada ao túmulo que se fosse por ela teria o cremado. Lamentou-se por não ter feito algo digno, como um tributo, como ele merecia. E por mais que se desse conta de que ela estava falando com o nada, ela não parava. Era terapêutico, mesmo que fosse contra o que acreditava. Disse que ele era um idiota, e o xingou por ter deixado ela para trás. Depois de um quilo de palavrões, lágrimas e gritos, se sentiu bem melhor. Antes de ir embora, pôs a música favorita do irmão no celular, e quando acabou, ela disse que o amava. E finalmente se foi.

Aí sim, pôde voltar a rotina normal.

Ps: foi postada no social spirit

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Superficial?

Não era de se surpreender que sangrasse. O tempo estava seco, o chão coberto de atrito devido a areia que impregnava, e, sem esquecer o principal detalhe, a força de Krystal era sem dúvida maior que das outras crianças da sua idade. Isso quando ficava brava, claro. O motivo, como sempre, era bobo. Ela de fato nem estava emburrada, mas ainda sim foi impulsiva ao empurrar Luna no chão após uma estúpida discussão iniciada pela ruiva sobre quem subiria no balanço primeiro. Não que Krystal fosse tão egoísta a ponto de derrubar a amiga no chão fazendo-a machucar o joelho de tal forma com o clima propício a sangramentos e traumas que lhe gerassem cicatrizes – ainda que pequenas e ralas – propositalmente. Mas Krystal tinha uma mania muito feia de estressar com tudo e particularizar tudo.

Mesmo que com poucos, apenas nove anos, ela tinha inteligência o suficiente para saber controlar o seu emocional. Sem dúvida passou da fase de gritar por doces no supermercado na hora de fazer compras, isso há tempo não era problema para seus pais. Ela era uma mocinha, em três anos entraria na puberdade; tinha pleno conhecimento de como se comportar como tal. Então por quê? Por que sempre que discutia com Luna acabava atingindo-a de alguma forma?

– Foi culpa sua. Você sabe que os menores tem que ficar por último, e eu sou um palmo mais alta que você. – Encarava Luna de braços cruzados com um olhar de reprovação ao ver a amiga se segurando para não chorar com o joelho levemente esfolado. – Quem não segue as regras, dança.

Suspirou e estendeu a mão ajudando a menina a se levantar, guiava-a até o banquinho mais próximo. Retirou um lenço branco do bolso da saia e secou o machucado da amiga com a pouca ternura que lhe restava.

– Vem, eu te ajudo a ir até sua casa. – Apoiou a mais baixa em seu ombro e foram andando lentamente, devido aos passos mancos da menor.

Krystal era sempre explosiva porque apesar de saber se portar socialmente, a história era diferente quando se tratava de amigos. Luna era sua única amiga, e Krystal nunca teve outros anteriores a ela. Sabia se comportar no shopping, na escola, no trabalho de sua mãe. Sabia etiqueta com os adultos, mas não com as outras crianças. Nem fazia questão. Desde a primeira vez na escola, nunca fez diferença para a ruiva estar acompanhada de amigos ou não. Luna só se tornou sua amiga porque era filha da colega de sua mãe.

“Por que não dá um abraço nela?” foi o que sua mãe disse quando a colocou frente a frente com Luna. Elas tinham uns quatro anos.

Krystal sempre teve personalidade forte. Se ela não quisesse se aproximar de Luna, não teria o feito.

“Muito bem. Espero que sejam amigas agora.”

No fundo só tinha abraçado porque, como ela, a menina parecia ser socialmente frágil. Tinham algo em comum.

Era um costume para Krystal encontra-la aos finais de semana para brincarem. Hoje, por insistência de Luna, foram ao parquinho.

– Por favor, é ali ao lado. Estou com saudade de balançar!

– Balanço? – Krystal disse com deboche. – Que coisa mais boba! – Afirmava com um ar superior, como se quisesse ser mais adulta.

Não era o primeiro episódio, e de longe aquele seria o último. Era quase parte da personalidade da Krystal agredir a amiga por pouco. Esquentava-se com tudo, sempre perdia o controle da situação e nunca pedia desculpas. Para que? Luna nunca reclamava.

No fundo, e inicialmente, Krystal temia que no dia seguinte Luna não batesse a sua porta a chamando para brincar. Mas, posterior às brigas, sem falta, estava Luna com um grande sorriso dizendo “Bom dia, Krys.”, e o abraço nunca faltava. Talvez pudesse tudo por só ter ela com quem conversar.

Tudo durou até Krystal decidir que queria porque queria o urso da loira.

– Pode brincar com tudo, menos com ele! – Dizia a loira puxando o objeto das mãos fixas de Krystal.

– Eu sou visita! Você tem que ser cortês e me deixar brincar com o que eu quiser!

Luna oferecia todos os brinquedos que tinha na casa, mas nenhum deles era o urso, e Krystal queria brincar com o urso.

Irritada, puxava o urso das mãos da menor afirmando que se ela continuasse com o egoísmo, não voltaria a sua casa nunca mais. A loira implorava para a ruiva soltar com uma voz angustiada, até que em uma puxada brusca da outra, sentiu seu ursinho rasgar em suas mãos.

– Droga, Luna! Olha o que você fez! Por que não me deu para brincar? Ele estaria inteiro e eu feliz! – Fez bico cruzando os braços.

Luna não falou nada, apenas juntou a cabeça no corpo do ursinho tentando inutilmente conserta-lo. A cena deixou Krystal ainda mais irritada.

– Está rasgado! Não adianta ficar unindo as peças. – Levantou-se e foi em direção à porta. – Depois pede para a minha mãe remendar. Vou embora, até amanhã.

Foi como se nada tivesse acontecido. Costume.

No dia seguinte, Luna não veio lhe ver, nem no seguinte, e seguinte. Luna não frequentava mais a casa de Krystal, e quando o contrário, pensava consigo que era muito feio se convidar, isso era coisa que só a Luna fazia, e não ia convida-la, ela que viesse ou a chamasse.

Mas o tempo foi passando, e Krystal refletia o quão solitária tinha ficado. Não solitária com falta de alguém, mas com falta de Luna. A doçura, seu cuidado e paciência, a personalidade da loira tinha se essencializado em sua vida. Como a presença da outra ficou tão precisa? Não era só um passatempo? A filha da colega da mãe que gostava de brincar com si? Não era isso que sentia. Única coisa que martelava sua cabeça era a dor que lhe ensinava uma dura lição.

O ser humano… Tão vulnerável a aprender através do sofrimento, perdendo algo para saber o que é ganhar.

Se deprimiu por um período de tempo. Temia encontra-la e ser maltratada pela mesma, ou ouvir da boca da própria que jamais seriam amigas de novo. Isso provavelmente seria um corte profundo na garganta, até pior que os arranhões que ainda estavam presentes no joelho de Luna pós-empurrão.

Quando completou 10 anos, tomou uma atitude que de todas foi a mais difícil de sua vida. Iria reencontrar Luna. Não sabia como agir, falar ou até respirar. Tentava ensaiar o que aconteceria, mas estava tão nervosa que apenas contribuía para mais sofrimento.

Falando em sofrimento, como foi sofrido o percurso para a casa de Luna! Krystal não parava de sofrer de forma prévia. A culpa a consumia de tal forma e a necessidade que tinha em ter Luna novamente ao seu lado era tanta que até gripe acreditava estar contraindo.

Com o coração afoito, encarou seus medos. Encarou-os em nome de algo maior, ter a amiga de volta. Lágrimas caíam do rosto até o caminho da porta. Limpou-as bem antes de apertar a campainha, mas elas não paravam de cair. Chegou a tão esperada hora.

Cada estalar da chave na fechadura, dificuldades de girar a maçaneta emperrada, todos os suspenses contribuíam certeiramente às batidas fortes no coração que dificilmente se acalentaria até o fim da história estar assinado. Segurava o choro de pânico que já enrugava seus olhos infantis.

E com um empurrão, abriu-se a porta e, surpresa, a pequena esperava do outro lado abraçando seu urso completamente remendado.

Krystal olhou para o brinquedo nas mãos da pequena e seu choro desabou. Luna entrou em choque rápido, por que a menina chorava assim? O que deveria fazer?

– Luna, por favor, me desculpa! – lambuzava-se com as costas das mãos tentando limpar seus olhos molhados e nariz sujo que só se espalhavam com a expressão.

Apertava seus olhos e tentava bloquear mentalmente os ouvidos aguardando os possíveis ataques que levaria, também, por via das dúvidas, protegia o peito de seus pés afastando-se caso a loira batesse a porta. Tremia tanto que sentia sua pressão baixar. Por via das dúvidas, preparada como sempre, mantinha os joelhos levemente dobrados e pernas meio separadas em caso de desmaio. A angústia a consumia tanto que não distinguia mais tempo; mesmo que segundos tivessem se passado, para ela já esperava a reação da amiga há horas.

Com um toque leve, sente seu ombro ser pressionado. Olha para cima ainda cobrindo o redondo dos olhos, Luna mostrava aquele sorriso simpático sincero que esbanjou na primeira vez que se viram.

– Não vou desculpar, porque não existe culpa alguma. – E então a abraçou.

Era a segunda vez se abraçavam.

Mudanças e descobertas

Com ela, inicialmente, o poder de raciocínio fluiu. Não era como resolver os deveres de matemática em que tinha uma fórmula pronta para tudo, ou uma aula de história na qual o livro tudo dizia – na cabeça deles, é claro. Ela incentivou o poder de refletir e questionar naqueles cérebros completamente mecanizados por um sistema de ensino que até então era… Chato. Artes tornou-se a matéria favorita.

Ela não era apenas uma professora, Senhorita Kwon sabia se comportar como um ser humano, tratava seus alunos não como suas obrigações, mas como seus direitos, eram pessoas com uma vida, como ela. Fazia questão de mostrar a todos que não era a mais sábia, ou que estava sendo paga para transmitir conhecimento, estava sendo paga para aprender juntamente com todos iniciando debates propostos por livros e fontes pesquisados por cada aluno presente. Quando um tema levantado por ela, difícil algum aluno, ou qualquer outro cargo estudantil, derrubar.

Começou a dar aulas de teatro e desenho incentivando atividades extracurriculares. Pela primeira vez em cinco anos, a escola tinha algo produtivo a oferecer para aquela gente.

Ela gostava de filmes, livros e quadrinhos; a cultura oriental a encantava, nada daquele falso patriotismo, ela realmente amava o que o rico oriente oferecia. Através da sua sincera adoração, pensamentos eurocêntricos entre outros alvos de consumo selvagens capitalistas foram quebrados; sabia que os Estados Unidos não são os únicos a produzirem cultura? Questionava a globalização que aproximava a cada dia todas as culturas em uma só, perdendo tesouros culturais de forma obrigatória.

Apaixonada por ensinar, ofereceu-se para tutelar as aulas de reforço dadas na escola. Proposta como clubes culturais de incentivo à educação fora da sala de aula nunca foi tão bem sucedida. Senhorita Kwon transformou um espaço de notas, trabalhos e pressão em um local de produção, criação e discussão. Crianças robôs em humanos pensadores.

Um dia uma aluna entrou em sua sala por engano e espantou-se com o que viu. Senhorita Kwon estava passando por uma metamorfose dolorosa. Suas costas com cavidades despejando sangue, seus lábios conjuravam palavras inaudíveis, mas ainda sim os vidros em volta se quebravam, a dor estava mesmo insuportável. Mais perto, a estudante com medo se aproximava para saber o que acontecia. Nos buracos que sangravam tinham duas películas, mas não pareciam lâminas ou coisa assim, estavam saindo, literalmente dentro pra fora. Sem saber o que fazer, apenas catou os lenços que encontrara na gaveta e passou a tentar estancar aquele vulcão em erupção sanguinolenta. Tocando suas costas, a aluna reparou que eram asas, tinha asas saindo do corpo da professora. Mas que metamorfose era essa? A aluna pensou.

Procurando no fundo de seu cérebro, a biologia do homosapiens não permitia o nascimento de asa, não fazia parte da constituição humana. Imaginou que talvez fosse uma doença, ou que Senhorita Kwon fosse uma aberração da natureza. Independente do que fosse, a aluna tentaria ajudar a amada professora da forma que fosse mais conveniente para ambas.

Foram quatro horas de dor para as asas se expelirem, a professora estava fraca, totalmente largada no chão, com apenas a cabeça no colo da aluna que presenciava aquela cena de tensão até o fim. Quando finalmente fora, as asas começaram a brilhar, era um tom verde florescente; os cabelos da professora mudaram de cor, agora eram laranja e moldaram um penteado perfeito, a pele de Senhorita Kwon estava viscosa, sem vida pela quantidade de sangue que perdeu, mas um fleche de luz dourada começou a cobri-la inteira. Quando no fim, as íris e pupila sumiram. Senhorita Kwon estava gelada. A aluna chorou, sua amada professora estava morta.

Crente que a metamorfose tinha sido um fracasso, criou coragem para pedir ajuda. Gritava aos três ventos a sua dor, o que seria daquela escola sem Senhorita Kwon e o que seria sua vida sem a própria vida? Formou uma multidão.

No aposento, nada se encontrava, Senhorita Kwon tinha sumido. Seria fruto da imaginação fértil da aluna? Todos se foram zangados. A menina não entendia, procurou a professora em todos os cantos da escola, mas ela realmente tinha sumido.

Depois de uma semana, todas as aulas voltaram a ser como antes, apenas obrigações, decorar não questionar, essa era a lei do sistema. Temos de buscar o sucesso através da profissão, não buscar ser um bom profissional para o sucesso perseguir, isso era fantasia. Ora, mas fadas também não são fantasia?

Neste devaneio, um bilhete cai em sua mesa. A caligrafia era conhecida, mas inacreditável. “Agora é a sua vez”, estava anônimo, mas o remetente vinha do mundo da fantasia, que, como a educação proposta por Senhorita Kwon, se antes era fantástico agora passa a existir. Porque essa aluna vai fazer existir.

Suas costas começaram a doer, a dor nunca foi tão bom sinal.

Jung nunca mais veria sua Senhorita Kwon, mas se tornaria como ela. Mudanças e descobertas não poderiam ser melhores.

A dependência dos signos para a liberdade da civilização

Relia a mensagem sem parar. Isso não podia ter acontecido. Não parava de apertar o F5, conforme nada atualizava, lágrimas caiam de seu rosto. Sunyoung estava no metrô, aos prantos. Tentava se segurar ao máximo, mas era inevitável, seus soluços eram incontroláveis. As pessoas iam reparando, aos poucos, notava-se uma pequena multidão de par de olhos discretos mirando-a com diversos julgamentos enquanto sua vida se destruía naquele momento, em frente a uma mensagem de texto.

“Te amo, por favor. Eu realmente te amo. Por que faz isso comigo? Por que comigo?” era o pequeno texto que já se passava do 100 no click de envio.

Sunyoung não saía do estado apresentado. Passou-se quatro horas, e não se movia.

Já era 6h15 quando notou. Na verdade, não notou. O homem da limpeza despertou-a do transe avisando-a que o último trem havia chegado. Rudemente disse a ela que o pegasse, ou desse licença para que pudesse terminar a limpeza.

Se sentiu inútil.

Ainda mais.

“Mamãe, onde estava?” a primeira coisa que ouviu quando finalmente chegou. Sua filha, Jinri, de sete anos estava sem comer há mais de seis horas.

“Se incomodaria se eu fizesse miojo hoje, de novo?” tentou forçar um sorriso. Seu bebê balançou a cabeça negando, sorriu em seguida, mas, contrário ao seu, era justo.

Se sentiu inútil.

Ainda mais.

Dormiu com os olhos abertos, pregados no visor da tv. Não assistia nada, sua cabeça estava em outro lugar. Sonhando, talvez. Pesadelos a perturbavam, as piores cenas de sua vida se passavam em sua mente. Acordou num estalo e começou a chorar. Não sabia o que seria de si. Não tinha a menor ideia de como planejar se portar diante do juiz quando este carimbasse sua certidão de óbito disfarçada. Sunyoung não queria, nem podia se separar. Não agora que entregou tudo que tinha para um bom relacionamento cristão, não após ter se tornado uma só carne, com frutos que apodreceriam, certamente, perante a situação. Tentava procurar modos, soluções, nada existia. Todas as queixas lineares de violência doméstica, conforme os devidos anos tinham sido revogadas; já gastara o último cheque de empréstimo para manter o apartamento caro que seu marido insistia em querer morar, mesmo que já não pudessem mais pagá-lo há quase um ano; colocou sua filha em uma creche municipal marginalizada, por ser mais perto para sua babá, que ainda mantinha realmente por não poder busca-la depois do trabalho a tempo. Gastos básicos, bem-estar, Sunyoung suspendeu tudo para manter seu casamento pelo menos até sua filha atingir maioridade. Era só mais nove anos, Sunyoung aguentaria firme por sua filha, todos diziam que crianças só podiam ser totalmente felizes se tivessem mãe e pai. Mas quem não queria não era ela.

Quando finalmente seus olhos pregaram de cansaço, sua filha Jinri chegou animada pulando na cama da mãe gritando contente para que a mãe acordasse. Já estava na hora da escola.

E da sua forca também.

Chegou em casa 18h15, tivera de dar miojo a filha novamente. Não conseguia raciocinar.

Preferiu não dormir, ficou a noite inteira assistindo tv para mantê-la acordada, estava com medo de desmaiar e perder a respiração no meio da noite. Parecia tentadora a ideia, mas Jinri ainda existia em sua vida.

Sunyoung não produzia mais o suficiente para seu trabalho, se passou um mês e sua filha só se alimentava mal em casa. Perdeu o medo, por obrigação, de deixar a filha ir para a creche de ônibus escolar, cortou os serviços da babá. Não sabia se 80.000 wons(154 reais) ajudaria em alguma coisa, mas botou na cabeça que todo corte era bem vindo.

O tempo passava, mas seus olhos não saíam do visor das mensagens de meses atrás. Chorava diariamente abraçada aos papéis do divórcio e refletiu o quanto os signos eram significativos na sociedade. Acreditar que uma nota com maior número de zeros escritos determinava onde você moraria, o que vestiria e o que tinha permissão de ter. A palavra tinha poder sobre suas ações, sentimentos; ler “eu te amo” num visor de celular era capaz de trazer a si as mais sórdidas lembranças. O fato de poder estar bem até um pedaço de papel escrito por uma pessoa que não sabe seu histórico de vida determinar com uma assinatura feita a caneta comum que você está mal. Não se é livre sem que exista um papel alegando o tal, não é feliz se não dizem na mídia ou na vizinhança – manipulada por aquela – que é feliz.

Sunyoung não era dona do seu corpo, nem nunca fora. Ela não conseguia parar de sofrer quando mais queria, nem conseguiu manter rígida a estrutura que a sustentava mais. Todo o sofrimento que viveu foi por alguém, e se vivia, era por outro alguém. Era uma propriedade estatal; como permitiam por lei que pudesse casar e ter filhos, também lhe assegurava tira-los quando eventos independentes de sua vontade ou até ações ocorressem.

Jinri não merecia a anemia que conquistava. Sunyoung teve vontade de se destruir ao ler o laudo médico da filha. Aos prantos tentava se acalmar, não havia passado pra viver, e agora nem presente. A fuga parecia impossível. O conselho tutelar aconselhou a mãe a procurar tratamentos psiquiátricos, já que estava interferindo no bem-estar da filha, dependendo dos resultados, se fosse algo insanável, perderia a guarda da única pessoa que tinha na vida. Jinri precisava de cápsulas caras de ferro pra poder melhorar, fora uma alimentação rica que a mãe não tinha o menor tempo de proporcionar. Abriu mão de sua preciosidade pelo bem de todos. Todos não. Sunyoung nunca estava inclusa no lado do bem. Ela não queria deixar sua filha, mas foi forçada a se render. Deu a aguarda de Jinri à avó.

No meio da terceira noite, não aguentou de saudade e foi buscar a filha na madrugada. Quando chegou, conversou com a mãe, foi ao quarto da filha para leva-la pra casa. Ao ver Jinri, mesmo que em três dias, ela estava diferente, com cabelos brilhosos, lábios e bochechas coradas. Dormia feliz. A anemia tinha visivelmente melhorado em um espaço tão curto de tempo. Novamente, o bem estar de sua filha não dependia mais de sua vontade. Foi embora de mãos vazias.

Ao chegar no apartamento, olhou em volta e apenas correntes de ar chocavam contra sua visão. Observou cada móvel que conseguiu recuperar desde a última mudança. Tudo lembrava seu passado inacabável, tudo lembrava o quanto ela pertencia ao meio, lembrava que a mesma não tinha autonomia alguma sobre si. Ela era o que esperavam, se não esperavam, não era nada.

Não bastava ter sentimentos sinceros e entregar-se por completo ao marido, amar sua filha incondicionalmente ao ponto de suportar os piores anos de sua vida na esperança de que um dia tudo acabe e possa ser feliz; escolher cessar o choro quando não tem condições de ser infeliz, porque todos diziam que ela não poderia ser infeliz, que ela não podia chorar, que não podia passar momentos ruins em sua vida. Ela tinha que ganhar papéis, assinar papéis, analisar papéis que decidiam o que ela pode ou não pode ser. Todo passo que desse: uma autorização, conselho ou qualquer outra forma de diálogo deviam interferir, seja as pessoas que um papel a capacitasse para isso ou não. Era uma liberdade social que valorizava mais os signos – algo proposto pelos civis para representar as pessoas – do que as pessoas.

O final sem fim

Victoria estava sonhando. Aquela cena não podia ser real. Como poderia estar assistindo o enterro de si mesma?

Olhava as pessoas chorando a sua volta, não sabia como agir. Tinha vontade de gritar “parem com isso, estou aqui, na frente de vocês!”, mas ninguém nunca a ouviu, não era agora, justamente em seu enterro, que a escutariam.

Nunca gostou de enterros. Não tinha ido nem ao velório de seu pai, a pessoa sem dúvida mais importante de sua vida, porque teria de ser obrigada a ver logo o próprio? Aquilo não estava nada certo.

Lembrou-se de seu pai automaticamente, posterior à própria reflexão. Pensou na rotina que teve dos cinco aos treze, seu pai era um cinéfilo assíduo, herdou essa cultura dele. Passaria a frente se tivesse filhos ou estivesse viva, refletiu novamente.

Recordou como eram divertidas as conversas com seu patriarca. Quando seus pais se separaram, ela tinha cerca de oito anos, a presença do seu pai permanecia, sua rotina de segundas no cinema da esquina, apenas ambos assistindo um clássico filme de arte qualquer imposto pela sala alternativa, cinema grátis, cultura pedante do governo. Amava os debates que ambos faziam juntos no fim. Ela sempre tinha perguntas e ele respostas.

Quando fez 13 anos, seu melhor amigo e progenitor faleceu. Sua mãe disse que tinha tido um colapso misterioso. Mas ela sabia que não. Suicídio… O último filme visto anterior ao mistério foi Fale com ela, lembrou-se da fala do enfermeiro “somente assim estarei com ela”. Ela, a morte. Ao contrário de Victoria, seu pai sempre foi apegado ao mórbido, à inexistência enquanto ser.

Olhava as fotos, ficava nostálgica quando em vida. À memória, o momento que menstruou pela primeira vez. A quem recorreria? Não confiava na sua mãe como no seu único amigo. Lembrava-se das conversas infantis que tinham… Como criança adora perguntar! Pensou ao lembrar quando perguntara o porquê das coisas serem como são pelo menos umas 300 vezes em um único dia.

Em casa, após a notícia de sua morte, tocara o que não podia compor, praticamente detonava as teclas do piano. Mais do que cinema, música era sua paixão. Após sua sonata individual, nunca mais compusera nada, sequer tocara em um piano novamente.

Tentou ser firme diante do próprio enterro. Cadê seu melhor amigo, do qual nunca morreu em seu coração? Hoje era um dia feliz, não era? Por que não conseguia ver o seu pai? Ambos não morreram? Não eram dois suicidas? Ele mentiu em dizer que sempre estaria a observando, não importa o que acontecesse? Tinha vontade de chorar, mas não tinha lágrimas por não ser feita por átomos como tudo que é concreto.

Ela sabia que findar minha vida não traria felicidade, mas nunca imaginou que não cessaria sua dor. Aumentaria.

Síndrome de Estocolmo

Rotina, o que dizer de uma vida parcialmente considerada normal? Digo, como todos os outros, sou visto como uma máquina que contribui para o PIB  econômico de um país, sou visto como mais um na multidão, o tratamento social que me dão quando estou doente é como o de todos os outros. De nada sou especial, de fato ninguém realmente é. Claro que tais fatores são indiferentes a familiares, eles se preocupam, ou veem como obrigação de se preocupar, com o isolamento que proporciono a mim mesmo. Solidão, ela me define, por ela sou apaixonado e desde que a conheci estou preso a ela. É duro admitir, mas não consigo dizer adeus às sensações angustiantes que esse comportamento violento que o “só” me traz. Carrego sonhos, esperanças, histórias, aventuras, reflexões, mas somente em nota os deixo, não sou capaz de romper com o meu relacionamento, um amor quase ágape ao ermo. É uma droga, um vício. Compreendo a minha vizinha. Há três anos ela apanha do marido de uma forma sórdida. O amor que ele proporciona pra ela chega a ser grotesco, varia de hematomas no dia seguinte a abortos espontâneos a cada três meses. Não é como se ela gostasse, mas como eu, o sofrimento é uma impotência que faz parte da nossa constituição. Pelo ditado, a esperança morre com o ser que a possui.

Hoje volto de mais um dia de trabalho. Diferente dos meus colegas, não relaxo em grupos vagos pelos bares. A solidão me parece muito mais sensual. Ela diariamente me convida para relaxar com uma taça de um bom vinho escutando um pouco de jazz e r&b numa vitrola, herança de minha falecida e eternamente amada avó que me criou até os doze, e fazendo um diário mental do que se passou por hoje, concreto e abstrato. Antes de dormir, faço notas em um caderno, como resumo ou partes importantes que tenho vontade de recordar. Transcrevendo o diário mental, escuto minha vizinha gritando e chorando, implorando para o marido parar de agredi-la. Não chamo a polícia. Ela não gosta de visitas judiciais. Apenas respeito e ignoro como ela deseja. Termino as notas e vou dormir.

Também gosto de sonhos. Astrologia, religião, misticismo, tudo isso me fascina. Sempre leio horóscopo no jornal na hora do café.  Compartilho os meus sonhos com o meu colega de trabalho Yixing e ele parece realmente adorar. “Você conta histórias tão bem de um jeito original, por que não tenta escrever?” era o que sempre dizia, como um bordão, sabe? Original… Não há romance mais original do que o primeiro. Depois do primeiro, todos são meras cópias. Como a mitologia, mesmo que diferente, é tudo igual. Original, essa palavra me irrita.

Hoje é terça. Volto mais cedo do trabalho pelo atestado, tenho consultas com um psicanalista, quase que obrigatoriamente. Ele considera os meus problemas emocionais muito sérios, mas explico a ele que não me incomodo com as coisas que sinto. Nunca admiti pra ele que a solidão apesar de bela, é algo que consome o meu ser de forma gradual, porém bruta, e que me preocupava com isso. Gastava do meu dinheiro, tempo, mas se o único problema é a solidão, não quero me livrar dela, mas mesmo assim devo satisfação à esperança.

Como tenho muita vontade de conhecer coisas novas e a esperança de que um dia a solidão me liberte, tenho aulas de inglês às sextas feitas e junto dinheiro para fazer viagens. Nunca fiz nenhuma. Não me sinto preparado para sair daqui. Minha cúpula é tão quente…

Final de semana é um período que me atrai. Mesmo também rotineiro, agracio-me com as aventuras e vantagens de ser solitário. Sábado a tarde alugo um filme, resenho-o e guardo as impressões da máquina em uma pasta grande de arquivos. É uma delícia relê-los um tempo depois. Também tenho o hábito de re-assistir filme em um período de tempo para comparar as atuais ideias. A noite, gosto de ver um filme de sadismo vintage no computador, masturbar-me um pouco e então dormir. Não faço notas nos sábados porque minha vizinha não costuma estar aí. Sábados ela costuma dormir na casa da sogra. Sinto um pouco a falta da presença dela, então me deprimo e durmo cedo para que o dia acabe o quanto mais rápido. Domingo, é o único dia que exijo acordar cedo a fim de conseguir passar na banca para comprar um clássico de bolso. Amo livros de bolso, tenho uma estante enorme que renovo a cada três meses. Não descarto como meros objetos, costumo guardar os que me marcam – geralmente clássicos – e doar a uma biblioteca que fica no centro os contemporâneos que não me atraíram a ponto de me apegar. Quando se é solitário, sente-se falta de objetos e momentos passados, mesmo que inúteis. Vou a um Café, tomo cappuccino e leio um livro novo recém-aberto enquanto acaricio um gato de rua. As aventuras propostas pelos livros não se comparavam aos que os filmes tentavam mostrar. Acordando cedo, também dormia cedo aos domingos. Tenho um esquisito ritual, que infelizmente já fazia parte de mim, de deitar no sofá em companhia a um lenço da única garota que amei, fungá-lo e chorar até que perdesse a consciência. Minha história com essa garota não é algo fácil de contar, primeiro porque ela nem sequer sabe que eu existi e segundo porque na minha versão da história, tivemos uma vida super feliz. Não é fácil ter Síndrome de Clérambault.

Da última vez que a recordei, tentei me matar, mas não morri. No fundo eu queria viver. Não. Só achei que não faria sentido me livrar da solidão morrendo com ela.

Vou a uma venda, compro um cianureto, porque desta vez a overdose não terá erro. E também, morte por cianureto é clássico, lindo, e original. No sentido real da palavra, não no que irrita.

Bato a porta da vizinha, seu marido não está lá. Quem atende é a própria, com o rosto coberto de hematoma. Lhe mostro o vidro com veneno, ela logo entende.

Deitados nos almofadões indianos, a deixo refletir. Pergunto se está preparada, ela afirma que sim.

– HYOYEON!

Escutamos gritos no teto da casa. É meu vizinho, vendo se a esposa está presente.

– CADÊ VOCÊ, SUA PUTA?

Ela começa a chorar. Disse a ela que não precisava fazer isso se não quisesse. Ela negou com a cabeça aos prantos e disse que estava finalmente preparada para se livrar daquela prisão.

“E eu também”.

“Seu lenço”, entreguei aquele que me fez companhia por anos. Ela segurou minha mão com o pano de barreira. Ao beber o líquido compartilhado, nos beijamos. Foi como abrir sela de cadeia para condenados a morte determinados irrecuperáveis; eram cidadãos protegidos, era um doente se livrando daquilo que nem os remédios mais fortes ou a força de vontade mais branda foi capaz de recuperar. Era uma mulher que finalmente teve coragem de largar o seu homem, morrer aos braços de alguém que respeitasse a sua vontade, pela primeira vez. Era um homem capaz de livrar-se da amante que o perseguia, morrer nos braços esposa que nunca tinha existido, até aquele momento.

Adeus solidão, morri nos braços de Hyoyeon, uma pessoa igual a mim.

A nova Helena de Troia

Eu poderia descrever este corpo em uma cena de chuveiro, auto-contemplação no espelho ou qualquer outra forma que alimentasse minha mente pervertida. Mas escolhi descrevê-la dialogando com o narratário, ou seja, vocês, por uma questão de respeito a própria pessoa. E também, os ângulos que desejo capitar vão muito além de descrição  concreta. O que fazer se o que realmente me interessa são os peitos e não quem os veste?

O que dizer? Que Krystal tem seios firmes? Pode ser, já cutuquei quatro ou cinco vezes na sala de tevê enquanto víamos um filme que sequer lembro o nome. Mas e daí? Tudo que viria pela frente seriam meros frutos da minha imaginação; gosto, textura, sabores, cores, nem o cheiro dá pra descrever direito, ela não deixou que eu ficasse perto o suficiente enquanto cutucava. Tentei fazê-lo da forma mais sutil para que não incomodasse, mas sua irmã ao lado queixou-se do meu “ato machista”. Maldito dia que resolvi pedir Krystal aos pais, afinal as condições para que ficássemos juntos era se Jéssica, sua irmã mais velha, estivesse presente em todos os encontros. Eu disse todos. Desde então, nunca pude realmente saber o que dizer dos seios aparentemente firmes de Krystal Jung.

Sempre inquietante. Desde as cutucadas, minha mente não para de funcionar senão sobre caso. Por que os peitos dela me chamava tanto a atenção? Podia me servir do gênero quando quisesse, bastava pagar ali na esquina ou marcar uma degustação com outras antigas que descartei. Por que Jung Krystal, ou melhor, seus peitos me deixavam impotente – obviamente não no sentido literal da palavra, longe,  muito longe disso – pela falta de acesso?

Pedir em noivado nunca foi uma sugestão. Na verdade, era ainda pior. Ela fazia de tudo para pagar de boa moça findando não ter descarte no fim. Isso funciona com muitos machistas, mas não com este machista. Eu gosto da dificuldade, mas essa está me deixando louco. Se minha satisfação vital depender de ver os peitos de Jung, ao vê-los não a querei mais. Isso está certo? Não, mas o que fazer diante da minha vulnerabilidade sexual?

Espera. Sexual é uma péssima palavra. Não quero – na verdade quero sim, mas não é o foco principal agora – foder com Jung. Recusaria tal convite se ela usasse sutiã no ato. O que está me deixando inquieto agora é a abstinência de seus peitos. A falta que os detalhes dele estão fazendo a minha imaginação. Fico louco tentando usar criatividade para algo tão perto de mim. Algo que tenho duas informações empíricas, e por pouco não pude saber mais.

Minha boca. Nunca liguei tanto desejo a paladar. O que exatamente eu exploraria com a língua? Diferente do que eu faria com a visão, quase nada. Então por quê? Ver se a mama cabe inteira na minha boca, ou o cheque da textura do bico com a língua e a rigidez com os dentes era o que mais me interessava.

Ela usa, mas não mostra os próprios peitos. Usava sutiã até para dormir. Eu queria cuidar deles, dizer a eles que estava tudo bem, que eu estava ali para o que precisassem. Megera. Como pode maltrata-los sem se sentir mal? Eles eram inocentes e reprimidos, únicos, peitos.

Prometi que a deixaria só. Disse que sairia da vida dela se assim quisesse. Mas, quase como um trato judicial, fiz com que prometesse uma coisa. Seus peitos viriam comigo. Era a única coisa que eu desejava daquela relação de fracasso sólido. Ela riu. Não viu que era verdade, ou fingiu não ver a verdade por trás daquele pedido. Os peitos não eram dela, nunca foram. Ela os tinha fixado no tórax, mas quem deu carinho e amor? Quem os educou? Quem agora pelo menos dorme sem sutiã? Os criei mas ainda não tive direito de senti-los. Os tratei mas não tive o direito sequer de vê-los.

E no último dia, antes da minha vida mudar radicalmente por espantar a ignorância com o maior dos conhecimentos, Krystal os mostrou. Não estava mais lá pelo prêmio, mas por uma conquista de vida, a dádiva da mais divina informação. Naquele lugar jazia um homem com o apetite sexual mais satisfeito do mundo. Espera, não sexual. Nunca foi. Os seios de Krystal agora representavam a resposta para as perguntas universais que a minha mente doentemente caótica tinha. De repente eu já sabia para que estamos aqui, para que vivemos e por que morremos. Não creio que seja uma resposta fixa para todos, afinal os seios de Krystal eram exclusividade minha. Isso, eles eram mais meus que dela.