De volta ao útero

Era líquido, quente e um pouco mais viscoso que suor.

Tinha cor. Variava do carmesim ao escarlate.

O gosto. Férreo, levemente salgado.

Cheiro embriagante, remetia a sono e desespero ao mesmo tempo.

Quando tentando limpar, chegava a encharcar uma toalha, parecia que nunca ia acabar.

Na rua, as pessoas olhavam, mas nada faziam. Provavelmente estavam com medo que inundasse o local, já que um orifício tão pequeno como a narina esquerda podia produzir tanto de uma só vez.

Não. Não tinha gosto salgado. O sal vinha das minhas lágrimas que se misturavam com o sangue.

Sangue.

Começou escorrendo da narina esquerda, então a direita. Quando vi, minha vagina também vazava, e não era conteúdo mensal. Era vivo demais para excreção de células mortas.

Ora, é normal. Disse o médico rindo enquanto me tocava com suas luvas de latex. Hemorragias na secura do cerrado são livres de preocupação, não seja tão emocional, mulher. Terminou após atestar a estabilidade da minha saúde. Nos vemos de novo caso traga algo realmente sério.

E nos vimos de novo.

De dia, fazendo exame de sangue apalpando-me com luvas de latex, durante a noite já deram minha carta de isolamento. Sem previsão de volta. Câncer. Possível morte. Se aceitar o tratamento 80%, se não 60, se menos 40. Seus amigos não podem vir, apenas família. Família mora longe, não pode internet. Não pode comer fora do hospital. Se comer, vomita. Se vomitar, queima. Se queimar, sangra. Não pode sangrar. Se sangrar, morre. Se morrer, acabou. Se acabar, já era.

Foram muitas as notificações. Minha mente só assimilou com o tempo, conforme a dor da experiência marcava o meu coração com ácido, como a quimioterapia que o forçava igualmente. Era um tratamento que se não exterminasse o câncer, o exterminado era eu. As circunstâncias que me mantinha igualmente me dilacerava, isso a vinte graus. E aos poucos, o tudo me sugava a vida, para assim poder devolvê-la a mim.

Você está muito sensível. Afirmou uma enfermeira ao me ver chorando no terceiro dia de isolamento. Descobri que posso perder a vida enquanto minha carne queima literalmente, com direito a apenas 30 minutos de visita diária apenas de familiares próximos sem nem ter a chance de me despedir daqueles que amo e não podem estar presentes, que muitas vezes sequer ficaram sabendo da minha situação porque não tive oportunidade de avisar. Não tenho o direito de chorar, mesmo assim. Até minhas lamentações por mim mesma me foram tiradas. Talvez eu seja muito emocional mesmo…

Mas eu achava que estava até no lucro até a mesma me dar meu primeiro banho de esponja, com luvas de latex. Mal tinha entrado no hospital e senti meu corpo debilitado a tal ponto que nem banho ou excrementos eu faria sozinha, mesmo que tivesse a capacidade de fazê-los. Aí sim, vi que a ficha caiu. Até então era apenas um pesadelo, mas então senti na pele profundamente: eu estava doente e tinha chances óbvias de morrer. E agora? Eu poderia chorar? Será que desta vez as pessoas aprovariam minhas emoções negativas?

Como era difícil pra eles ver pessoas externando sentimentos que eles tinham, mas seguiam uma regra de que algo tão normal como a infelicidade efêmera era tabu. Observamos isso em rede sociais, sempre problematizam pessoas que se mostrem felizes, mas se elas se mostram infelizes problematizam em dobro.

O mal estar da doença com a soma de medicamentos que eu tomava, o estado emocional na situação completa em que eu me encontrava mais um misto de arrependimentos e conformações que me cercavam deixou minha vida por um fio. Eu agora era brasa banhada nas minhas próprias cinzas.

As enxaquecas pioraram ainda que eu passasse metade do tempo dopada pelo ópio e pela dor, então me transferiram para um novo quarto, um que fosse adequado àquelas necessidades. Ele tinha banheiro. Ainda que a divisão entre quarto e boxe não fossem tão marcantes, ele existia. Minha mãe ganhou carta para me tratar uma hora por dia.

Você é linda. Dizia enquanto lavava o meu corpo observando-o perder a carne, ou enquanto penteava os meus cabelos e os catava do travesseiro, que de tão volumosos até pareciam ter nascido lá.

Coma mais um pouco, ou sua saúde não vai voltar. Dava colheradas com a mão direita enquanto segurava o saco para vômito a esquerda, pois sabia que tinha que usá-lo em muito breve.

Não precisa ter receio de chorar na minha frente, você já está sofrendo demais, não quero que guarde nada só porque estou aqui.

Ela me banhava, me alimentava e me fazia companhia naquele quartinho úmido e escuro. Eu podia não estar lúcida durante a estadia, mas podia sentir a esperança que aquecia cada gesto, cada ato para comigo. Suas doces palavras me acalmavam, e meu coração batia novamente com suas carícias de mãos nuas.

Era como estar de volta ao útero.

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Top 5 Fanfics Anônimas – Parte II

  • Não ser, Ocean

    O que é a existência senão a dualidade do ser ou não ser? O que é a saudade senão uma “completa falta”? Uma reflexão poética de uma personagem que é o tudo surgindo do nada.

    Baseada nas doutrinas do taoísmo(a essência da dualidade universal), reflete a saudade de uma escritora, e o que esse sentimento vazio pode completar. O que pode existir em uma folha em branco por surgir do não ser. Remete a importância da visão de um projetista – escritores, pintores, artistas, médicos, físicos, estudantes, donas de casa, vagabundos; dos não titulados, dos rotulados; de selvagens e de humanizados. Pois somente a história torna o abstrato concreto.

  • Lets Match Our Steps, Minovation

    “Este indestrutível e inquebrável laço que nunca vai se romper, ele vem da nossa alma” – SNSD, Indestructible

    A amizade é o vínculo mais puro que se pode criar. Não é como o sanguíneo que não se escolhe, ou o conjugal que se planeja. Ela acontece e está onde tiver de estar. Doloroso se perder um afeto assim, Jinri mesmo não se aguenta mais sem o perdão de Krystal, se culpa todos os dias por não ter a melhor amiga mais ao seu lado. Mas ela não vai desistir, pede ao tempo toda a paciência que tiver de existir.

    Bem curtinha, a fanfic se trata de reflexões de uma menina sobre a importância de se ter uma amiga, e o desejo de possuir aquela pessoa em sua vida novamente. Como é a narração de Jinri, a história se passa toda na visão dela, logo a intenção não seria exatamente narrar uma história, mas refletir sobre o tema abordado que é o quão valioso é um laço, que como dito no início, não se planeja nem se escolhe, mas simplesmente acontece.

  • Flowers are gone, Popoki

    O pior da vida não é a tristeza profunda ou a extrema miséria. É vivê-la sem vitalidade.

    Em um caso policial, discute-se o suicídio de Yong Junhyung, um homem que vivia apenas com seu íntimo colega de quarto Yang Yoseob, qual seria a causa da morte e suas influências em cima disso.
    Com um grande simbolismo sobre a primavera, nascimento, e as flores, vida, foi escrito esse drama. O que queremos descobrir é o que se passa com Jonghyun, porque apesar de seu cenário entregar à vida, as descrições do seu diário mostra um mundo muito contrastante ao real apresentado. Essa transmissão é feita na base de suspense apontando pequenos elementos que fazem toda a diferença na decisão da perícia e no julgamento de seu colega de quarto Yoseob.

  • Amor comum, ~Reeichel:

    Faz parte do ser humano ter medo daquilo que não conhece. O futuro, com destino ou ausência dele, seria o meio mais prático para essa teoria. Desenvolvendo hipocondria por medo de ficar doente em contato com o mundo; Luhan sente conceira nos dedos como o começo de sua costumeira alergia primaveril. Desta vez, sua situação traz sintomas novos, como folhas nos caroços expelidos e enriquecimento da pele, assemelhando-se à madeira. Luhan estava se transformando em uma árvore, sem explicação do porquê, e invés de buscar informações sobre e curas ou tratamentos como costumava fazer quando uma simples espinha nascia em um local incomum do seu corpo, decide aceitar essa condição por um motivo. Tudo que deseja é finalmente a aceitação de si mesmo junto com o único menino amado que perdeu por falta disso.

    Curto, rápido, e impactante. Mais um conto com perfeitas escolhas das palavras em sua estruturação. Difícil acreditar que justamente uma história de fantasia estaria ganhando um review de uma página que trabalha com fanfics “flopadas” ou não tão famosas, já que o fandom de EXO mostra curtir muito o mundo fantástico nas fics se observar o top das mais lidas. Tão delicado e íntimo ao se tratar da última vez de um casal que não se via há tempos por motivos até antes da entrega à metamorfose de Luhan, estúpidos. A fic faz refletir sem demonstrar que era esse o intuito principal, que era um trabalho de autoajuda, ou coisa assim. O leitor passa por um estado de confusão e logo aceitação, igualmente a fic pela fantasia do plot e a realidade que o conflito mostra, uma excelente forma de se conectar diretamente ao personagem, sofrendo e aprendendo juntamente com ele.

  • By the phone, ~Sunshiner:

    Um grupo de doze integrantes possui uma estrutura de dois grupos em um, EXO-K e EXO-M, tendo a separação explicada por questões promocionais, área financeira: enquanto o K promove na Coreia, o M promove na China duplicando os ganhos pecuniários da empresa. Apesar de dividido, o relacionamento dos meninos se baseia no grupo como um só, possuindo nos bastidores um romance entre um integrante que vive na China e um na Coreia, encontrando-se somente em eventos e algumas promoções em conjunto. Luhan e Sehun sentem falta um do outro, sustentando uma relação amorosa quase que inteiramente a distância. Após uma longa abstinência, descontrolados de tesão em uma das conversas, resolvem matar a saudade ali mesmo, sexo por telefone.

    Sexo virtual pelo telefone me soa tão romântico. Imagine após muito tempo sem proximidade do amado, conversar através de um aparelho tão vintage a ponto de pouquíssimos utilizarem – já que existem recursos que aproximam mais da realidade como o computador -, e lá mesmo sentir o cheiro, lembrar da textura da pele, os movimentos sensuais, recordar toda uma cena apenas pela voz e suas mudanças de tom. Idealizar o sexo e senti-lo conforme cada um controla seu corpo, ativando os estímulos por ordem do outro lado da linha, desde diretas a gemidos. Poucas pwps me chamam atenção, mas essa no geral é tão delicada e natural que me faz acreditar que um fã gravou a conversa do casal HunHan e transcreveu em forma de fiction.

Pink Tape – Capítulo 3

Só mais um do novo maço

Preciso de mais tinta, mas está difícil encontrar desde que fecharam a lojinha vintage aqui do final da esquina. Parece que ninguém usa mais máquinas de escrever nos anos 2000. Aliás, pré-início a ele. Não que eu não goste do computador e não tenha uma impressora em perfeitas condições. Mas, tenho que dividi-lo com a minha irmã, e passo mais tempo escrevendo do que fazendo qualquer outra coisa. Hábito antigo… Custou à minha mãe que me comprava milhões de caderninhos para utiliza-los de diário. Chegou a comprar também “diários”, sim, aqueles com cadeadinhos e tudo mais. Mal sabe ela que odeio tanto a minha letra que se hoje em dia tenho boa memorização e raciocínio é por causa das aulas da escola. Como não fazia anotações, tinha que prestar o triplo de atenção nas aulas, saber a tabuada muito bem para fazer contas grandes de memória. Não consigo fazer uma linha manuscrito. Minha terapeuta infantil sugeriu uma dislexia, então me entupiu de ritalina. Foi assim que viciei em drogas. Mal sabia ela que era somente repúdio a minha letra, nada demais. Digo, como sou canhota, minha letra é torta e repuxada, já das outras menininhas bem redondinha, ficava linda até escrevendo com olhos fechados. Mas voltando à ritalina, como eu usei nova, um pouco depois da alfabetização, e permaneci assim por longos tempos, já que a ritalina nunca me fez perder o repúdio pela escrita à mão, usei quase até o ensino médio. Quando o remédio foi cortado, minha forma de ver o mundo mudou brutalmente. Eu cheguei a me sentir dependente do remédio para sobreviver, porque havia muitos desafios dos quais eu parecia saber lidar antes, mas depois do corte, eram totalmente novos para mim. Foi difícil refazer a vida sem os remédios, o ensino médio necessitava bem mais desse excesso de concentração, inclusive, anotações agora faziam falta. Ainda bem que foi na época que minha mãe financiou o computador, Jéssica usava de tarde e eu de noite. Isso me deixava aflita, porque quando eu estava na escola não parava de pensar no computador novo, e quando estava no computador só pensava na escola. Jin, que na época eu nem a conhecia direito, pôs uma máquina de escrever antiga na minha mesa. Eu imaginava como ela imaginava minha situação, e anos depois descobri que ela me achava hipster e precisava se livrar de coisas velhas do sótão dos pais. Lucrei a máquina e uma amiga.

Eu e Jin éramos as excluídas da classe, separadamente. Eu era a pessoa que não queria relacionar e ela era a pessoa que tinha vergonha de se relacionar. A timidez dela sempre me pareceu… Insuportável. Era até fofo, de leve, por ela ser enorme, era engraçado aquela moçola de 172cm tentar se esconder embaixo da mesa. Mas não sei, sempre a julguei mal, sem conhecê-la. Era o tipo de pessoa que eu não gostava e pronto. Sem mais. Não gostava de ninguém, mas não imaginaria que alguém daquele ambiente fosse se tornar um amigo. Falo amigo, porque só tenho ela, então não dá pra ser “o melhor”.

Depois da máquina, passamos a conviver uma com a outra. Nos inscrevemos para a mesma faculdade porque ambas queríamos alguma arte, mas nossos pais jamais deixariam. Daí a faculdade dos sonhos, uma que maquie aquele diploma que é realmente de seu desejo.

x

Não sei porque estou contando tudo isso, sei que não é a minha forma de narrar os fatos, mas realmente quero adiar os flash backs. Não porque eu não goste, mas porque estou me poupando de contar como conheci a Luna. Ou que permaneça contando de onde paramos. Até porque, lembro-me da ressaca horrível que tive, creio que até faltei a aula… Lembro também da Luna ter ficado puta e eu precisar me esforçar para que voltemos ao normal… Certo, vamos falar sobre isso então, já que no fim das narrações de praticamente tudo que eu contar vai terminar em Luna. Poxa Luna, que saudade…

x

Mesmo com o sol da manhã queimando o meu rosto na persiana nada fosca, só consegui acordar com um barulho tremendamente irritante vindo das batidas da minha mãe sobre a porta de madeira também nada gentil em estar chiada. Ainda sonolenta, consegui distinguir também seus berros ameaçando abrir independente da minha permissão. Olho em volta e observo que todas as drogas magicamente sumiram do campo de vista, devem estar de baixo da cama ou sei lá.

Por falar em cama, como vim parar aqui? Não lembro de tudo, mas tenho fragmentos da noite passada…

Beijos…

Nós, estiradas no tapete, deitadas sobre os almofadões indianos enquanto puxávamos no cachimbo minha essência à base daquilo que vocês já sabem o quê.

Amber provavelmente me colocou na cama quando desmaiei e deve ter me roubado…

– Entrei. – Disse minha mãe com uma vassoura que mais do que nunca aparentava enorme em suas mãos. Pelo jeito que segurava, parece que ia bater em alguém, e eu era a única pessoa do quarto… – Que bagunça é essa! Aqui virou casa noturna?!  – Na verdade ela falou “puteiro”, mas quero poupa-los da meia dúzia de palavrões que essa mulher diz invés de utilizar da boa pontuação.

– Por favor, não grite. – Pressionei o travesseiro o mais forte possível entre a minha cabeça. Eu ainda estou morta.

Raramente aprecio o gosto de uma bebida alcoólica, ainda que como ingrediente secundário. Com exceção do vinho do porto, magnificamente favorito ao meu paladar. Sabe como é, paladar sensível ao extremo, tipo de criancinha. Ou então costumo beber cachaça pura mesmo, já que vou sentir o gosto ruim do mesmo jeito.  Bebo para ficar bêbada, apenas. Não gosto do álcool em nada mais. O problema é que como não costumo misturar, acordo excessivamente dolorida. Simplesmente não me reconheço por causa da bebida, tudo que sinto é como se duzentos carros tivessem passado por cima de mim. Misturando com a cannabis, a enxaqueca por ressecamento piora ainda mais.

E de pensar que já se passaram o quê? Umas cinco horas?

– Ninguém mandou encher a cara até altas horas da noite. Você por acaso levou Sulli pro mau caminho? E de pensar que ela era uma moça comportada, doce, melhores notas. Um orgulho. Agora, toda vez que sai com ela, volta assim… Ela provavelmente anda cedendo aos seus desejos.

– Sou o demônio da guarda. – Pensei alto demais…

Permaneço protegendo meus ouvidos com as almofadas já esperando o longo sermão.

– E ainda me responde! – Disse limpando uma estante cheia de nada agora captável com o espanador. – Na sua idade, a Jéssica só saía de casa para ir para a igreja. Ela ainda brincava de boneca, tá? – Espana o cômodo com mais força que faz uma torrente de poeira fazê-la tossir. – Faz anos que esse quarto não vê uma faxina, não é?

Quando ela começou a varrer, lembrei dos possíveis segredinhos. E se Amber não tivesse me assaltado? E se tivesse guardado as coisas em qualquer lugar? Em apenas um segundo, esqueço a dor e recordo o porquê de proibir a minha mãe de entrar no meu quarto. Estava abarrotado de coisas que ela não podia ver, e quem dera fossem só drogas.

– Pode deixar que vou limpar tudinho. – Levanto com muito esforço, ainda que em um pulo. – Está tudo bem.

Depois de trancar a porta, vejo se está tudo no devido lugar. O último disco da vitrola estava lá. Meu celular não saiu da minha bolsa, tudo que botei lá estava lá. Pensando bem, não teria lógica aquela menina roubar esse tipo de coisa, seria algo fácil demais de recuperar. E ela era amiga da Qian… Estou louca. E um pouco culpada também.

Não tinha nada embaixo da cama. Verifiquei o guarda roupa e a caixinha estava intacta, com chave passada e tudo mais. Amber deve ter guardado e posto a chave de volta na minha bolsa.

Amber… Desde que acordei não a tiro da cabeça. Não acredito que uma machorra está mexendo assim comigo, pior ainda, sem maiores recordações. Difícil me lembrar de algo útil.

Se cabeça dolorida desse dinheiro, o potinho dos peitos viraria cofre…Na verdade, já teria feito as três plásticas: mamas, bicos e o desenho nos mamilos… Peitos, quero peitos…

Minha cabeça…Nem vou prometer a mim mesma que não vou mais beber…Porque eu vou, né…

Claro…

Bem, com dor ou não, além da faxina preciso pensar o que vou fazer para o meu monólogo.

Como dito, sou estudante de economia com segunda licenciatura em artes cênicas, então por ser uma opção livre, quem deve montar tudo sou eu. Vídeo porque já pretendo trabalhar com escrita – de máquina, claro – no meu projeto de extensão(penso num futuro distante, mas não no de agora, pra você vê). A Sulli até me deu umas ideias, ela disse “faça sobre algo que você realmente ame”, poxa, seria um completo tédio e objetificação feminina um filme inteiro sobre seios. Daí que me bateu uma ideia. A coisa que eu mais amo no mundo não é peitos, e sim mulher. Não na visão machista da coisa, não apenas o corpo feminino, mas a entidade feminina.

Como seria a mulher que eu desejo ser…

A aparência… Quando penso em mulheres, automaticamente me vem Vênus à mente. Sempre considerei Emilie Autumn uma Afrodite contemporânea. Emilie é um ótimo nome….

Mas e a essência, tenho paixão por mulheres que lutam, poderia tentar copilar uma personalidade como da Beauvoir, mas necessito de sentimentos, não ideologia. Algo mais fundo que não se encontra em livros, só na convivência…

E me vem a Amber na cabeça.

E só me vem Amber.

Tento catar sobras do café preto já que todos tomaram café da manhã sem mim. Pego morno mesmo, e penso se boto ou não adoçante, já que minha mãe entrou numa onda de fazer dieta coletiva e não comprar mais açúcar. Decido toma-lo puro mesmo.

Sento a escrivaninha e tento não acender um incenso, consumi fumaça para uma vida, para uma pessoa que tinha asma e bronquite na infância… Mas não deixo de acender um Harmony, claro. Atualmente me apaixono fácil por mentolados acompanhados com café.

Foi o que eu achei até por na boca. Não, não é pelo fato do café estar horroroso, mas é pelo cigarro mesmo. Na quinta tragada, já não me parecia tão bom, mesmo que eu tenha consumido essa marca por quase sete meses.

LM…  Amber gosta de LM.

Mas nem a pau que vou me levantar daqui só para comprar um cigarro que nem gostei da primeira vez que fumei…  Que seja, vai ser o Harmony mesmo.

Depois de trinta minutos pensando no que eu ia escrever, apertando a primeira tecla do roteiro, vejo que a fita acabou.

E aqui estamos nós em frente à máquina de escrever, sem tinta e talz….

Ia abrir o closet, mas lembrei que lá tem um espelho, e fiquei com medo de estar escrito “Bem vindo ao mundo da Aids” e essas bizarrices…  Desde quando me relacionar com pessoas casualmente me fizeram desenvolver síndrome de tourette? Está sendo difícil engolir o quão encantada estou por uma pessoa que sequer daria chance de conhecer se não fosse um encontro às escuras. E essa protelação ir atrás dessa maldita tinta talvez seja por medo de escrever o que eu realmente quero escrever sobre Emilie, sobre Amber.

E agradeci a lojinha por ter fechado. Ao mesmo tempo, estou pensando como vou fazer essa merda. Comprei LM. Ai…

Enquanto inalo o cigarro no corredor da sala, lugar aliás que estou proibida de fumar, mas foda-se, não tenho culpa de ter uma letra terrível, digito as linhas no computador e vejo ainda que com “tinta”, nada sair. Não entendo essa fixação pela moça, mas ao mesmo tempo descobrir que não as sabe nada dela. Todo o meu encanto se concentra em um único momento, oque não dá pra falar burulhas do que penso sobre a pessoa. Quando penso nas qualidades de uma mulher que eu desejo ser, não me vem adjetivos, mas uma única imagem. Amber. Me vem flashs doces de ontem a noite com Amber, não sai uma palavra de sua boca, não sinto seus toques, não sinto cheiro ou gosto algum, mas ela não para de falar, me beija me toca os seios enquanto me livro dos botões da vestimenta. Sinto o cigarro: cheiro, gosto e textura, mesmo tendo o terminado há horas. Me vem a imagem da Amber, e a personificação do cigarro como nos outros sentidos sensoriais. Como a marca que consumi, a primeira tragada é terrível, mas a segunda não te faz parar mais. De fato, não me sai da cabeça ainda que não me lembre de você.

Falta uma hora para passar o ônibus escolar e eu só pensava no quanto eu estava ansiosa para pegar o número da pessoa com a Sulli.

Decidi faltar aula. Queria esfriar a cabeça da situação.

Quando fui tomar banho, passando a mão pelos meus seios, claro, notei que precisavam urgente de preenchimento por serem tão pequenos, mas também pude sentir direitinho os toques que Amber deu em mim. Pensei em desistir da limpeza, mas meio que me forcei a entrar no chuveiro, estando frio o quente. Antes de dormir, li capítulos de “Raízes históricas do conto maravilhoso” quase sem concentração e até no capítulo sobre floresta mágica, dava um jeito de enfiá-la. Há tempos não me tocava, até porque agora que estudo a noite e transo com Luna às sextas, finais de semana na pizza com o videogame e a Sulli , não tenho tempo ou até necessidade. Fechei o livro, acendi um LM traguei três vezes, deixei-o aceso no cinzeiro e me massageei até cair no sono.

No dia seguinte, na escola.

– Jin. – Esbarrei com ela no corredor.

– SOOJUNG! – Pulou em cima de mim quase as lágrimas enquanto me sufocava com aquele abraço intenso até demais.

– Ai. – Minha cabeça ainda tá daquele jeito – O que houve? – Questionei quase a chutando. Provavelmente única maneira de sair viva dessa ursa(sentido não lésbico… Espero).

– Fiquei tão preocupada! Passamos a noite falando de vocês! Nem conseguimos ir até o fim… Tá com raiva de mim?

– O que? – Tento por a cabeça no lugar. Do que é que ela está falando? O que eu tinha que fazer? – Aé! Tem o telefone daquela menina, a Amber?

– O que? Não me diga que gostou dela? Fiquei preocupada pra nada! Perdi a noite com a Vic atoa?!

– Vocês não transaram? Por quê?

– Por que fiquei preocupada com você! Como eu ia adivinha que de repente começou a gostar de “rapazes”? – Sim, fez as aspas com os longos dedinhos.

– Calma, não quero o número pra ficar com ela. Só quero…  – Avistei a Luna há uns 20 metros. Dei tchauzinho, ela viu e ignorou. Saiu voada seja lá pra onde foi. Tá, agora sim fiquei preocupada..

– Hã? Krystal, vai ou não me contar? O que aconteceu?

– Preciso ir.

– O que?

– Depois pego o número, licença. – Saí correndo atrás dela. Será que está chateada por ontem?

Ela entrou na sala. Aula de estatística. Precisa de passe para entrar na sala, e eu tinha esquecido o meu.

Depois de 4 horas, voltei a procura-la. Perguntei nos corredores mas ninguém tinha certeza se a viu, até que lembrei que ela tem treino hoje.

Como imaginei. Encontrei-a chefiando a equipe de Cheerleading. Nossa! como ela ficava gostosa com o uniforme… Parecia estar muito brava, mandando o povo fazer umas flexões escrotas por capricho e afins.

Decidi não me meter e só falar com ela mais tarde, quando estivesse em casa, bem. De banho tomado, entende?

“Encontrei a Amber com a Vic no corredor. Ela disse que pôs o número dela no seu celular a noite e perguntou se você ‘melhorou’. Vai contar o que aconteceu ou não?”

“Não lembro.”

“Então porque está tão fixada nessa menina?”

“Queria eu saber… Eu sei que coisas estranhas andam acontecendo comigo…”

“Como assim coisas estranhas? Você só conheceu ela há dois dias.”

“Ontem eu deixei um cigarro aceso enquanto me masturbava e dormir assim mesmo”

“Não precisa se matar para apagar as lembranças, Krys. E essa maneira de morrer é a sua cara”

“Não foi tentativa de suicídio, e eu não quero morrer me masturbando, quero morrer transando. Enfim, eu não consigo parar de pensar nela, ou fumar essa droga de marca – cara ainda – porque é como uma personificação dela. Não é como se eu quisesse me relacionar amorosamente, mas quero me relacionar, entende?”

“Mais ou menos…”

“Ter um vínculo com ela não é um desejo, mas é uma necessidade que estou tendo.”

“Entendo… Boa sorte, então… Vai terminar com a Luna.”

Tinha até me esquecido por alguns minutos da Luna.

“Vou passar na casa dela umas 19h hoje.”

Luna estudava a tarde, até umas 18h30. Eu começava às 16h e ia até umas 22h, exceto às terças e quintas, que por coincidência era hoje.

“Luna”, gritei no portão da casa dela em plenas 19h da noite. A campainha estava quebrada e parece que ela não quer atender o celular de jeito nenhum. “Luuuuna”.

– Shh… – Disse a própria da janela – Já vou abrir! – Praticamente cochichou furiosa.

Ao abrir o portão, fui dar um abraço, ela logo estendeu a mão em um sinal de pare e questionou zangada:

– O que veio fazer aqui? – Cruzou os braços. – Minha avó está doente e detesta barulho! Me vem você gritando a essa hora da noite aqui em casa?

– Perdão, você deixou o celular desligado…

– Estava estudando, não queria ser incomodada.

– Então por que não me chamou para estudar como sempre faz?

– Porque não quero levar outro bolo pela Choi Jinri…

– Ah, então tá brava por aquele dia?

– Claro que sim! – Viu que se entregou e então ficou sem graça. – E foi legal? – Tentou ser arrogante. – Gostou da A-M-B-E-R?

– Quem? – Amber? A menina que quase transei e não paro de pensar por um segundo? – Que isso, Luna…

– Uai, não foi o que a Choi Jinri disse? “A amber está te esperando”?

– Desculpa, gata. É porque eu tinha marcado com a Jin há tempos, era uma saída importante que eu não podia furar…

– E você transou com ela?

– Claro que não! – Mas quase. – A menina é tomboy e não tem peitos… – São maiores do que os meus, ainda!

– Então só voltou atrás porque tenho peitos?

– Voltar atrás? Não aconteceu nada, não era para ter acontecido nada! Era só uma amiga da Victória Song. Eu só fui acompanhante da Amber para segurar vela. – Cruzei os braços. – Eu e você não somos nem namoradas pra ficar tão brava comigo! Não houve nada, só o fato de além de você me enrolar ainda fica me interrogando…

Luna ficou séria. Realmente aquela situação dependia dela. Tínhamos um relacionamento que só não se tornara namoro porque ela não permitiu.

– Bem… – Tentou mudar de assunto. – A noite foi legal? – Perguntou de braços cruzados e fazendo um biquinho preocupado.

– Eu preferia ter ficado com você…

Com a demonstração meio tosca de carinho da minha parte, Luna se encheu de alegria e deu uns dos pulinhos fofos que dava sempre que ia me dizer “oi”.

– Verdade? – Sorriu.

– Sim… – fiquei meio sem graça com isso.

Ficou toda derretida com tudo isso. Meninas héteros são muito fáceis, por isso se magoam tanto, Deusa a livre.

– Quer dormir aqui? – Ela propôs animada.

– Sua avó não está doente?

– Não, só está vendo a novela. Ela é quase surda, não tema, ela não vai nos incomodar.

Como não capitar a mensagem subliminar por trás de um convite desses?

X

Como eu disse, sempre acaba em Luna.

Em uma época na qual a moda é ser Super-Homem, só consigo idolatrar o Kira.

Me peguei lendo meus materiais e reparei quantos defeitos, muitas vezes propositais, meus personagens possuem. A começar da minha favorita, Krystal Jung de Pink Tape. Ela tem essa obsessão por peitos, depilação e insistir que uma plástica a tornaria mais feliz. Ela tem o que mais abomino: síndrome da boneca de plástico. Não tenho nada contra quem escolhe viver da forma que desejar, é problema de cada um. Mas achar que as pessoas devem seguir um padrão, seja o social ou o seu, me irrita, e é isso que ela faz. Só transa com meninas que fazem depilação íntima, escolhe a pessoa mais pelos peitos que pela personalidade e não gosta de lésbicas masculinas porque se assemelham – nos esteriótipos de gênero social – a homens(e ela é muito misândrica). Só de ler esses defeitos dela, pareceria uma personagem daquelas que eu teria ódio, por ser retardada, mas é o contrário. Eu a amo muito.

Como uma pessoa normal, todos temos intrigas, preconceitos, problemas internos mesmo que instalados em um grupo social, ou ideológico. Se nem em religião, que é irrefutável, acreditamos 100% em tudo que abordam, porque em um espaço aberto a discussão não teríamos a nossa bagagem histórica(vivência) que nos faria questionar o utópico? É isso que nos faz não sermos perfeitos, porque simplesmente não conseguimos seguir padrões, somos muito diferentes para nos adequarmos à rigidez. E tudo que nos desvia da perfeição, em qualquer inserção, são defeitos. Todos temos defeitos, até uma personagem criada se o autor quiser deixa-lo mais real. Mas o problema que eu quero abordar não é diretamente esse.

Eu entendo que muito do que a gente escreve ou idealiza parte do que queríamos ser, mas isso já é tão excessivo, principalmente da mídia. É tão corriqueiro vermos em forma de personagens ideologias que devemos ou deveríamos seguir -socialmente falando -, o ser perfeito cujo o único problema é não ter defeito algum. Eu já vejo tanto essa imposição toda na vida, que o que desejo agora são protagonistas como eu, ou você. Pessoas que desejam melhorar exatamente pelo fato de terem problemas. Problemas internos, consigo mesmo, conflitos íntimos gerados ou não apenas pelo social. Desejo me ver inserida, representada, não apenas o que eu deveria ou desejo ser. É por isso que apesar de tantas atitudes machistas, desconstruo esse título possivelmente agregado a ela reflexões com suas queimas diárias ao sutiã(até porque ela quer aumentar o número -qqq), a relação de si tendo tanto orgulho da sua sexualidade e ela levantando a bandeira de que se orgulha por não seguir padrão imposto nenhum, apenas àqueles que ela acha graça. Ela não tem conceituação, denominação, ou título nenhum, ela não é uma heroína ou exemplo para ninguém. Ela é apenas Jung Krystal.

PS: a analogia do título se trata de um herói e um anti-herói.

Pink Tape – Spin Off

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Não consigo lembrar de quase nada da madrugada de ontem…. Lembro algo da garota, Amber. Lembro dela sem blusa, lembro de algo semelhante a um beijo, mas depois acredito que apaguei. A Emilie tinha uma personalidade idêntica a dela, até seu vício em drogas leves em troca de um preenchimentos em fundos emocionais. Os discursos, o modo que fuma o cigarro, até mesmo o frio que sente quando toma LSD via cutânea se assemelha a minha personagem. Emilie. Emilie, olha só onde fui te encontrar! No corpo de uma tomboy… Preciso do telefone dela, pelo bem de Pink Tape. O corpo já está pronto, só preciso dar a vida. Toque divino de uma mulher, no corpo de uma mulher… Ou quase.

– Jin. – Esbarrei com ela no corredor.

– SOOJUNG! – Pulou em cima de mim quase as lágrimas enquanto me sufocava com aquele abraço intenso até demais.

– Au, o que houve? – Questionei quase a chutando. Provavelmente única maneira de sair viva dessa ursa.

– Fiquei tão preocupada! Passamos a noite falando de vocês! Nem conseguimos ir até o fim… Tá com raiva de mim?

– O que? – Tento por a cabeça no lugar. Do que é que ela está falando? O que eu tinha que fazer? – Aé! Tem o telefone daquela menina, a Amber?

– O que? Não me diga que gostou dela? Fiquei preocupada pra nada! Perdi a noite com a Vic atoa?!

– Vocês não transaram? Por quê?

– Por que fiquei preocupada com você! Como eu ia adivinha que de repente começou a gostar de “rapazes”? – Sim, fez as aspas com os longos dedinhos.

– Calma, não quero o número pra ficar com ela. Só quero…  – Avistei a Luna há uns 20 metros. Dei tchauzinho, ela viu e ignorou. Saiu voada seja lá pra onde foi. Fiquei preocupada.– Preciso ir…

– Hã?

– Depois pego o número, licença. – Saí correndo atrás dela. Será que está chateada por ontem?

Ela entrou na sala. Aula de estatística. Precisa de passe para entrar na sala, e eu tinha esquecido o meu.

Depois de 4 horas, voltei a procura-la. Perguntei nos corredores mas ninguém tinha certeza se a viu, até que lembrei que ela tem treino hoje.

Como imaginei. Encontrei-a chefiando a equipe de Cheerleading. Nossa! como ela ficava gostosa com o uniforme… Parecia estar muito brava, mandando o povo fazer umas flexões escrotas por capricho e afins. Decidi não me meter e só falar com ela mais tarde, quando estivesse em casa, bem. De banho tomado, entende?

“Luna”, gritei no portão da casa dela em plenas 19h da noite. A campainha estava quebrada e parece que ela não quer atender o celular de jeito nenhum. “Luuuuna”.

– Sh… – Disse a própria da janela – Já vou abrir! – Praticamente cochichou furiosa.

Ao abrir o portão, fui dar um abraço, ela logo estendeu a mão e questionou zangada:

– O que veio fazer aqui? – Cruzou os braços. – Minha avó está doente e detesta barulho! Me vem você gritando a essa hora da noite aqui em casa?

– Perdão, você deixou o celular desligado…

– Estava estudando, não queria ser incomodada.

– Então por que não me chamou para estudar como sempre faz?

– Porque não quero levar outro bolo pela Choi Jinri…

– Ah, então tá brava por aquele dia?

– Claro que sim! – Viu que se entregou e então ficou sem graça.

– E foi legal? – Tentou ser arrogante. – Gostou da A-M-B-E-R?

– Quem? – Amber? A menina que quase transei ontem? – Que isso, Luna…

– Uai, não foi o que a Choi Jinri disse? “A amber está te esperando”?

– Desculpa, gata. É porque eu tinha marcado com a Jin há tempos, era uma saída importante que eu não podia furar…

– E você transou com ela?

– Claro que não! – Mas quase. – A menina é tomboy e não tem peitos… – São maiores do que os meus, ainda!

– Então só voltou atrás porque tenho peitos?

– Voltar atrás? Não aconteceu nada, não era para ter acontecido nada! Era só uma amiga da Victória Song. Eu só fui acompanhante da Amber para segurar vela. – Cruzei os braços. – Eu e você não somos nem namoradas pra ficar tão brava comigo! Não houve nada, só o fato de além de me enrolar ainda fica me interrogando…

Luna ficou séria. Realmente aquela situação dependia dela. Tínhamos um relacionamento que só não se tornara namoro porque ela não permitiu.

– Bem… – Tentou mudar de assunto. – A noite foi legal? – Perguntou de braços cruzados e fazendo um biquinho preocupado.

– Eu preferia ter ficado com você…

Com a demonstração meio tosca de carinho da minha parte, Luna se encheu de alegria e deu uns dos pulinhos fofos que dava sempre que ia me dizer “oi”.

– Verdade? – Sorriu.

– Sim… – fiquei meio sem graça com isso.

Ficou toda derretida com tudo isso. Meninas héteros são muito fáceis, por isso se magoam tanto, Deusa a livre.

– Quer dormir aqui? – Ela propôs animada.

– Sua avó não está doente?

– Não, só está vendo a novela. Ela é quase surda, não tema, ela não vai nos incomodar.

Como não capitar a mensagem subliminar por trás de um convite desses?

Entrando no quarto da Luna, fiquei surpresa com o aspecto e vi que minha mãe tinha razão, meu quarto é uma zona. Sério, o quarto da Luna era mais limpo que o da Sulli, e tipo, a Sulli é filha de militar. Em compensação, parecia um quarto de criança; paredes rosa, cortinas tipo da Barbie com laços imensos,  uma coleção assustadora de bonecas de porcelana divididas em três prateleiras de parede e uma estante de livros com contos infantis. Tudo rosa e assustador… Seria o cenário de Pink Tape?

– Ah… Você fez a faxina? – tentei desviar o foco do terror psicológico que a decoração me causava e concentrar-me na limpeza que o quarto exalava.

– Lol, claro que não. – deu risadinhas como se algo fosse muito engraçado. – A minha avó que o arruma para mim…. – Me ajuda a empurrar a cômoda para a porta? – Foi arrastando uma grande cômoda lilás em forma de baú para a porta.

– Pra quê? – fui empurrando.

– Precisamos trancar a porta, oras.

– E… Por que não usa a tranca?

– Minha avó não tem coragem de me dar uma…

– Ah… Seu quarto é tão… – Assustador? – Organizado, não sei porque a preocupação por parte dela…

– Ah, não é desconfiança comigo, ela tem medo de pegar fogo ou alguém entrar pela minha janela e não ter como eu fugir…

Que bom, porque quero fugir… Tira essa cômoda daí, moça!

– Meu Cravo(piano medieval) ficava aqui… Mas tive de tirar porque não combina com a decoração.

– Toca Cravo? – Fui me aproximando despindo a minha blusa. Essa informação de repente fez o meu tesão voltar.

Agora sim! Pink Tape.

– Toco desde os cinco anos… Minha avó era professora antes de ficar surda…

– Ah, que pena por ela… – Minhas mãos já tocavam o corpo dela ainda vestido. Passava por dentro da blusa com a real intenção de tirá-la.

– Sim… – Luna me abraçou delicada. – Posso botar uma música no radinho da Barbie? – Sorriu.

– Ah… – Em cima da escrivaninha rosa da barbie? – Pode sim, gata.

Ela podia colocar de tudo,  menos o que me frustrasse: cantorazinhas americanas da Disney, Nick e afins. Por favor, por quê?

– Gata… O que é isso? – Fui o mais educada possível. Meus ouvidos estavam sendo torturados, socorro!

– É a Demi Lovato, Heart Attack! É o que você está me causando! – Me beijou risonha pela piada tosca.

– É, essa música tá causando isso em mim também. – Falei antipática.

– Ai, Krys! Deixa de ser grossa… – Se afastou com os braços cruzados. Olhou-me amuada, tirou a blusa e deixou a mostra aqueles peitões lutando para não pular do sutiã.

Fiquei com muita água na boca, ela veio de mansinho acariciando o meu rosto fitando-me com desejo de apoderar-se de mim.

– Quando vou para a sua casa, a gente não escuta o que você gosta? – Beijou o meu pescoço, ai que tesão… assenti com a cabeça que sim. – Então…Na minha casa, a gente escuta o que eu gosto… – Beijou o outro lado do meu pescoço. – Tudo bem?

Confirmei balançando a cabeça e a ataquei com os lábios cheios de desejo. Nenhum beijo nosso tinha sido antes tão sedento. Apalpei a bunda dela naquele shortinho jeans com força, como ela ficava gostosa de jeans! Imagine sem…

Deitamos na cama aos amassos, ela parecia mais atrevida hoje. Desabotoo o shortinho e mandara-me tirá-lo. Que delícia quando ficava mais safada. Usava uma calcinha de pano branca, dava pra ver de longe que tava depiladinha.

– Krys, vem brincar comigo. – Apalpou os próprios seios sugerindo neste ato que eu os mamasse, e claro, farei com todo prazer.

Apalpei-os indo em direção ao esquerdo que tava com o bico mais rijo. Abocanhei sugando dando leves mordidinhas, arranhando meus dentes da base ao pico repetidas vezes. Pincelava a ponta com a língua que deixava Luna alucinada, contraindo levemente o corpo. Fiz um círculo de chupões em volta da auréola e brinquei com as mamas com o meu rosto entre elas. Passei para o bico direito, dando uma mamada safada. “Morde levinho, Krys” Luna suplicava se contraindo de prazer com a minha selvageria. Missão dada é missão cumprida, mordi a pontinha do bico levemente diversas vezes. Luna começou a abafar os gemidos agora mais altos com o travesseiro no rosto, mesmo assim seus gemidos eram consideravelmente audíveis.

Pus uma das mãos dentro da calcinha dela que já estava bem molhada, poderia fazer um firsting que ela não sentiria dor alguma. Provei seu néctar que deixara grandes rastros na sua lingerie. Seu gosto era adocicado, como Luna. Fiquei animada pra descer até lá e fazer a selvageria de verdade. Retirei a calcinha com os dentes. Estava quase certa, não estava totalmente depilada, tinha o desenho bem fininho do bigode do hítler aparadinho, sabe? Me deu ainda mais tesão.

Brinquei com o meu dedo no bigodinho dela, ameaçava entrar a qualquer momento. Quando Luna abrira um pouco mais a perna, penetrei com o indicador. O corpo dela se contraiu por inteiro, os músculos faciais estavam rijos, comprimia os olhos de maneira involuntária.A movimentação estava tão intensa que Luna se esforçava para continuar mantendo a perna aberta, sua perna esquerda tremia e até o seu ânus piscava.

Pus mais um dedo. Massageava seus pequenos lábios com a língua enquanto socava os dois dedos na bixinha. Seu clitóris estava ereto, mas resolvi não mexer lá por enquanto, tive medo dela gozar logo, pois estava muito tensa e eu ainda queria fazer mais brincadeirinhas.

– A Unnie tá gostando? – fiz uma voz de aeromoça.

– Enfia mais fundo, dongsaeng. – Gemia se segurando para não fazer um escanda-lo de prazer.

Com um pedido desses, nem hesitei, coloquei o 3° dedo e penetrei mais fundo conforme suplicara. Pressão leve, mas profunda.

– Ai, Krys… – Apoiou a sua mão na minha ajudando a enfiar os dedos mais fundo. – Amor…- Ela queria todas as suas lacunas preenchidas, principalmente as que namorado nenhum preencheu, as do coração.

Luna se sentia tão mal com as decepções que tivera na cama que os meus toques, mesmo os menos habilidosos, eram capazes de despertar conforto ao ponto de chamar-me como jamais chamaria em bom estado, Amor.

Luna deslizou os dedos da mão direita para brincar com o próprio clitóris enquanto utilizada dos dedos da outra mão para beliscar e brincar com seu mamilo esquerdo. Antes de me conhecer, Luna não se masturbava, nem sequer gozava sempre durante as transas com seus namorados homens, egoístas.

– Krys, eu sou gostosa? – Questionou se insinuando ainda mais para mim.

– Mais linda impossível.

Tirei os dedos de dentro dela por enquanto. Quero brincar com a boca agora. Retirei a mão da Lulu que brincava tão assiduamente com o grelinho, beijei os dedinhos dela e chupei a membraninha tão ereta que ela acariciava. Agora foi quase inevitável, ela soltou um gritinho agudo que nos preocupou.

– Luna! – Cochichei nervosa.

– Desculpa! – cochichou preocupada. – Será que a minha avó ouviu? – Ela questionou preocupada.

– Vai lá ver…

Eu é que não arrisco… Porta sem tranca, sabe-se lá.

– Ah, não! Vamos continuar… Se ela empurrar a gente vai ver. – Me beijava enquanto argumentava.

– Tem certeza? – Retribuí os beijinhos preocupada.

– Sim… – Colocava a mão esquerda por baixo da minha saia. – Tira a roupinha, também quero brincar… – Fez um biquinho lindo pedindo.

– Agora não, ainda tá na minha vez! – deitei-a novamente descendo ao ponto que estava.

Agora ela tava mais calma, aproveitei para apelar com as brincadeirinhas sem medo dela gozar fácil. Deslizei a minha língua de cima para baixo, dando leves pressões na região da vulva. Brinquei com o clitóris utilizando a ponta da minha língua em movimentos circulares, desci mais um pouco para os pequenos lábios e os beijei com vontade. Subi e suguei a entrada de sua uretra enquanto massageava o clitóris com o dedão. Com o prazer que sentia, suas pernas ameaçavam fechar, mas sua mão continuava apoiando a minha cabeça equanto a outra beliscava o seu delicioso mamilo.

Como o ânus ainda piscava, senti-me desafiada a brincar com a língua lá. Fiz uma cunete caprichada naquela bundinha nervosa, e quando ela menos esperou, dividi 3 dedos de volta a xaninha e o mindinho pra brincar mais embaixo(cu). Penetrei desta forma diversas vezes, até ela se contorcer a tal ponto de virar-se e ficar de quatro pra mim, empinando bastante o bumbum.

Mordi as nádegas redondinhas e malhadas da Lu, brinquei mais um pouco com a minha língua no ânus dela e introduzi o dedão, voltando a penetrar junto com os três dedos na vagina.

– Ai, que feio, Krys! Me comendo de quatro! – gemia quase gritando.

– Sh… Não grita, Lu, sua avó é surda mas pode ouvir!

Gemia sem controle algum do próprio corpo, quicava nos meus dedos como uma louca enquanto acariciava o próprio clitóris. Masturbava-me de joelhos com a outra mão enquanto comia a Luna e admirava esse corpão por outro ângulo. Acho que foi a primeira vez que fizemos DP. É muito gostoso sentir o controle dela em minhas mãos! Bem… Em uma delas…

Quando ela gozou, saiu um squart tímido molhando toda a minha mão. Gozei ao ver a deliciosa sujeira que Luna tinha feito.

Eu e a Unnie deitamos uma ao lado da outra exaustas demais para qualquer movimento. Abraçamo-nos confortando uma a outra ao som da Demi Lovato para me broxar nessa pós-transa.

– Posso desligar a coisa que você insiste em chamar de música, gata?

Luna riu e assentiu com a cabeça. Desliguei o radinho tosco finalmente, deitei-me a recebendo em meus braços, quase adormecidas, ambas com cheiro de sexo.

E então, observando o quarto rosa, lembrei-me de Emilie e consequentemente de Amber. Filtro rosa, cor inocente e infantil, com leve traços de terror, bonecas brancas de vidro usadas como grandes símbolos no cinema de horror oriental, contrastando. Amber, qual seria a sua reação te trazendo aqui? Preciso pedir a Sulli o telefone…

Obsessão

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Durante muito tempo busquei lutas que me deixassem mais forte. Meu verdadeiro motivo existencial era a morte dos meus oponentes; quem ficasse no caminho iria alimentar o meu objetivo vital. Matei tantos que até invejo o inimigo que é morto pelas minhas mãos; quando ele se debate e implora por vida ou uma morte rápida com lágrimas intensas nos olhos, viro-me e conforto-o “Sinta-se orgulhoso, essa mão que vai te matar, matou mais de mil”, e dou o golpe final. Após sua morte, devo enviar o corpo o mais longe possível do cenário. Ninguém pode encontra-lo, nem mesmo meu mestre de combate.

Os Shinobis estão sob juramento de batalha, um corpo de Shinobi possui muitas informações que devem ser preservadas. Ainda que em uma guerra, a ética e a moral nunca deixam de ser válidas, somente o oponente guarda as lembranças e apenas via luta. Se ele está morto, não tem porque buscar proteção dentro das mais profundas táticas de batalha, aquelas técnicas tão pessoais que marcavam o ninja como o único. Mesmo que quisesse violá-lo, quebrar o código de ética chamando um especialista em drenagem de minha confiança, ou usando jutsus proibidos para tomar o poder que meu oponente tinha sacrificando minha integridade como ser humano, nunca me importou quais as armas que um ninja têm; nível de força ou segredos hereditários. Para mim, isso não mais que faz parte de qualquer Shinobi, mesmo que fossem artifícios diferentes, técnicas únicas, isso não era um diferencial para mim. Surpresas são diferenciais para mim, e só tem uma surpresa que me cativa: a quantidade de tipos de pênis que existem em um homem.

Como um estranho hobbie, após matar os meus inimigos, checo seus genitais para alimentar a minha teoria de que surpresas sustentam o ser humano como ser humano. Não importa a vida que leve: uma parada de Genin, agitada de Chunin, arriscada de Jounin ou ainda pior como a minha na hierarquia, os Anbu; todo o ser humano precisa de um passatempo medíocre que o faça se sentir bem, e normalmente precisam estar carregados de surpresas. Por meio de lutas, é tão comum para mim que não consigo atuar na área não entendo como minha vida, apenas minha vida. Cada missão é só mais uma missão, cada inimigo morto é só mais um Shinobi que falhou cumprindo seu dever. É a vida, apenas. Atingir meu objetivo de ficar sempre mais forte, minha ideologia. Surpreender-me refletindo cada falo como um novo falo é o que me sustenta como ser.

Não me considero um pervertido ou com um passatempo estranho típico do diletantismo. Ao contrário. Enquanto as pessoas consideram seus genitais vergonha ou exclusivo para reprodução, excreção, eu os vejo como contemplação. Não me interessa toca-los ou usa-los para nada, apenas observa-los. Juro que quando vejo um, já me bate a emoção – inclusive, única que sou capaz de distinguir, porque não sinto, não costumo sentir -, o espanto, a surpresa, a admiração de um milagre divino. Quando vejo crianças se surpreendendo com o meio que vai descobrindo durante o crescimento, penso que temos isso em comum com alvos não tão desiguais, não é apenas um falo, é o falo. Como Deus conseguiu criar tantos pênis diferentes? O pênis é como uma identidade, uma digital impressa em cada ser. Me surpreendo como pode, em mil homens, cada um ter um de um formato, tamanho, espessura, cor, tipo, até os prepúcios ou a falta deles ajudam na distinção. É fascinante.
Nos livros sempre busquei informação sobre a vida, sobre hábitos típicos humanos e o que os nutre espiritualmente. Em um livro tribal li que os falos representam força em muitas culturas, e analisando as informações passei não mais  avaliar os pênis dos meus companheiros. Se vou medir a força, que seja sem preconceitos, terei de lutar para então confirmar se as informações são ou não verídicas. Até então, certo. O livro tornou-se minha bíblia sem questionamentos; os guerreiros mais difíceis de derrotar eram os que tinham pênis mais brutos. Os falos tornaram-se mais do que um simples alvo de admiração, mas um mensor de performance em capo de batalha. Tornei a verdade absoluta do mundo por meio de comprovação posterior, até conhecer Uzumaki Naruto.

Eu expliquei que não analiso os pênis dos meus companheiros… Mas com Uzumaki Naruto foi impossível. Primeiramente, o nosso primeiro contato foi por batalha, mesmo que tenha sido uma brincadeirinha. Testando sua força, pensei que não tinha sequer pênis e que toda aquela tagarelagem de que era um ninja especial remetesse apenas a sua condição como um Jinchuuriki. Não, ele era mesmo forte, mas nunca tinha visto um falo tão delicado na minha vida.

Inicialmente obtive a satisfação de comprovar mais uma verdade que eu carregava quando tomamos banho pela primeira vez. Não sei se a água quente influenciava, mas seu pênis estava bem escondido, muito mais que o meu. Na primeira luta, seguindo a análise de seu potencial, vi que era bom. Então fiquei um pouco desconfortável e extremamente curioso. Como seria realmente o seu falo? Não dormiria em paz até comprovar a minha teoria, precisava de respostas decentes.

Durante as noites, descobria-o delicadamente, sem que ele percebesse. O problema é que os sonhos eróticos eram diários. Não poderia concluir nada com seu pênis duro, porque como o meu, se modificavam e escondiam os mínimos detalhes analisáveis. Comecei a esperar.

“Que tal um banho na lagoa?” tentei expressar simpatia.

Ele apenas me deu as costas e saiu. Não entendi muito bem o que seu rosto dizia, mas acho que ele não gostou da proposta.

Comecei a ser mais cauteloso com os meus estudos. Sempre esperava Naruto ir tomar banho para que eu fosse logo atrás, mas ele era meio… Retardado. Primeiro entrava na água e então tirava a roupa. Parece que fazia isso para lava-las e vesti-las limpas no dia seguinte. Esse homem não deveria ter pênis, não segundo os meus estudos…

Essa minha obsessão chegou a ir tão longe que pensei em mata-lo num treinamento só para poder finalmente tirar essa dúvida cruel de mim. Tinha que existir outra saída, não é possível. Fiz uma estratégia tosca, mas tão friamente calculada que confiei na certeza do sucesso. A intenção era paparicar Sakura ao máximo anonimamente para que ela finalmente desse uma atenção a ele. Com isso, o intuito era fazê-los se estreparem para que Naruto finalmente pudesse parar de ter sonhos eróticos. Podia dar certo, ou o plano trabalhoso poderia ir por água abaixo se Naruto for um pervertido e passar a ter ainda mais sonhos eróticos por imaginar o que faria com ela no dia seguinte. Como era a única coisa em mente, decidi arriscar.

Todo dia era uma nova flor, um novo catão entre outras coisas que sempre li de como satisfazer as pessoas em uma situação amorosa. Como mulheres eram sempre flores, tentei. Só tinha um furo na minha teoria, Sakura podia se confundir, e então acabou se apaixonando por mim. Eu não contava de forma alguma com isso, por que nunca demonstrei – até porque nem posso – interesse algum por ela. Na cabeça dela, Naruto era tão infantil que jamais pensaria nisso. Bingo, ele ficou tão deprimido que os sonhos eróticos cessaram.

Depois de uma longa “aventura”, várias feridas que lhe causei por querer mata-lo, perder tempo criando estratégias perigosas só para poder olhá-lo, cheguei enfim ao meu objetivo enquanto ser sustentável. Em um sono pesado, averiguei suas expressões faciais. Provavelmente sereno. Isso significava talvez que seu sono estivesse pesado.

Com leveza, puxei o lençol que o cobria. Posicionei-me abaixo entre suas pernas, para facilitar a retirada da peça. Puxando o shorts, foi inevitável a surpresa, o fracasso da minha teoria. Pela primeira vez eu estava errado. Confirmei. Aqui estava o fim das minhas perguntas, mas início de outras questões. Únicos sentimentos que eu era capaz de distinguir era a surpresa, mas além da surpresa senti algo novo. Tentei averiguar na minha cabeça o que os livros denominavam os sintomas presentes agora em mim. Eu tinha vontade de chegar mais perto, fareja-lo, de senti-lo com as mãos, com a língua. Eu estava curioso para saber se era real. Mais do que uma surpresa, era uma necessidade. Pensei que minha existência estaria em jogo se eu não fizesse. Eu simplesmente não podia acreditar.

Com ainda mais cautela, puxei seu calção até coxas. Acariciando com leveza, me toquei que era a primeira vez que eu sentia a textura de um falo que não era o meu. Aproximei o meu rosto sem desviar o olhar da face de Naruto. Senti seu cheiro agridoce de água com sais de ervas, provavelmente do banho termal que tivemos mais cedo, e seu leve suor noturno. Uma fragrância viciante.

O sabor também seria inesperado? Pus de leve a língua, o mais rápido para que não o acordasse. Era tão maravilhoso que abocanhei esquecendo-me dos disfarces que tinha aprendido nos livros sobre plena situação. Pronto. Era esse o nome do novo sentimento que eu estava tentando categorizar, descontrole. Surpresa, descontrole.

Agora tenho duas distinções emocionais para a minha coleção.

Eu estava realmente descontrolado, não conseguia parar de senti-lo em mim, eu tinha vontade de engoli-lo, digeri-lo com vontade, presencia-lo dentro de mim da forma menos abstrata possível. O pênis de Naruto foi a fonte de rompimento ideológico vital que eu carregava. Agora entendo como os que acreditam em um seguimento espiritualista se sentem ao descobrir uma inexistência de seu Deus. Eu estava me sentindo como um ateu; surpreso, desacreditado, descontrolado.

Agora eram três.

Perdido em inconsciência, todos os meus sentidos estavam voltados apenas para o ato. Minha guarda estava completamente baixa, cheguei a pensar se o que eu estava fazendo era deixar de ser Shinobi. Com tanto pensamento descontrolado na minha cabeça, com tantas emoções novas distinguidas, confusão em mente, acordei do transe quando sinto um chute diretamente da sola em meu rosto. Naruto tinha acordado, e pelo sua face parecia estar furioso.

Mais um soco foi dado, mas dessa vez, suas expressões mostravam confusão. Não sabendo como reagir, apenas o imobilizei como as mãos e pedi calma. Ameaçou gritar, então o calei colando os nossos lábios, único membro livre para fazê-lo. Tal foi a força que mordeu meu inferior que o gosto de ferro me irritava. Pedi calma novamente, só que agora o jogando no chão com o meu corpo por cima. Suas faces tornaram a ruborizar, mas agora de vergonha. Ele começou a se debater tentando fugir ao máximo da situação, paralisei suas mãos com mais força e beijei os lábios novamente antes que ele tentasse gritar. Surpreendeu-se outra vez.

– Por favor, pare. Vai acordar a casa inteira. – Pedi.

Ele franziu o cenho aparentando estar com, acho que, raiva…

– Peço desculpas. – Soltei seus braços. Demonstrei um sorriso amigo, mas lembrei que essa expressão estava tão barrada pelo grupo que nunca conseguiam diferenciar simpatia de deboche.

Levei um tapa no rosto. Acho que ele não conseguiu, como eu imaginava.

– Como você pode fazer uma coisa dessas e depois simplesmente pedir desculpas?

Tudo bem que isso o deixaria surpreso, mas não imaginei que fosse motivo para tanta algazarra. Afinal, quando tropeço no pé de alguém, são raros os casos que querem matar.

– Não sabia que ficaria tão zangado. Apenas isso. – Expliquei da forma mais normal possível.

Sua expressão tornou-se uma incógnita total. Acho que nem se eu tivesse sentimentos consideraria uma categorização.

– Escuta, eu não gosto dessas coisas. Não sou gay… – Senti sua saliva descer com muito gosto. Parecia estar nervoso, não sei. – Eu já te contei que meu primeiro beijo apesar de ter sido com um menino, foi acidental. Mas quero que entenda que eu não gosto dessas coisas. – Seu olhar começou a percorrer todos os lados, parecia que não queria olhar para mim. Em dois segundos, senti uma rigidez nas minhas coxas, era o falo dele.

– O seu pênis, ele está duro por algum motivo? – sussurrei confuso. – Você me acha bonito ou algo assim? – Questionei tentando entender.

– O que? – perguntou assustado. – Não é anda disso! – Sua face ruborizou novamente. – Por que eu acharia você bonito? Isso não é por você… Eu acordei assim, você nunca acordou de pau duro? – Esclarecia uma enorme irritação, mas sua fala soava bastante gaga.

Uma confusão volta a minha cabeça.

– Mas quando eu estava chupando ele estava normal. – respondi tentando compreender a situação.

– Como você consegue falar isso com tanta normalidade? – Estava assustado. Essa expressão é impossível de não distinguir.

– Mas é verdade. Quando eu estava chupando, ele estava normal. Só está duro agora. – Toquei seu pênis para conferir.

– Não toque aí, bastardo. – me empurrou. – Se fingir que isso nunca aconteceu, eu apenas durmo em outro dormitório que não seja com você e não faço um escanda-lo.

Tentei entender a situação. Por que isso era tão grave? Por que se orgulhava quando seu pênis subia por Sakura, mas quando era por mim se envergonhava?

– O problema é por você não ser gay? Olha, muitas pessoas já me confundiram com menina, então não precisa ficar preocupado. – Tentei confortá-lo.

– Não é nada disso, esquece que isso aconteceu, por favor. – tentou cobrir o falo com uma peça de roupa dobrada. Mas estava rijo, e como tinha crescido…

– Então, não vai contar para ninguém o que houve aqui?

Ele respirou fundo.

– Não, não quero armar um escanda-lo gratuito. E você é doente, não quero perto de mim, mas não o odeio, só tenho pena por ser tão escroto.

– Se for por mim, pode contar, não quero estar em dívida com ninguém.

Em um livro li que a dívida é um laço vital, se não a paga, perde o que há de mais valioso: a honra. Não quero que o que o ser humano tem de mais precioso dependa dele.

– Está tudo bem – Sorri para acalma-lo.

Sua face caracterizou um espanto. Parecia com medo agora.

– Não faço isso por você, faço por mim. Não quero que ninguém saiba que me tocou, ou que eu gost… – Travou assustado com o que ia falar.

– Gost…? – Tentei analisar a palavra. Radical de gostar, provavelmente.  – “Gostei”? Você gostou? – confundi-me com a situação?

– Claro que não! Deixei escapar uma palavra confusa sem pensar. – Sorriu tentando disfarçar. Esse menino era tão óbvio que distinguir expressões tornou-se fácil.

– Olha, se tiver gostado posso continuar fazendo. – confortei-o novamente tentando mostrar que não havia o menor problema.

– Não encostei seus lábios sujos em mim de novo. – tentou apertar ainda mais a peça de roupa. Parecia que a minha proposta tinha incentivado a crescer ainda mais.

– Naruto, eu não sei por experiência própria, mas li em um livro que se o falo ficar duro por muito tempo, pode machucar se nenhuma medida for tomada.

– Para de chamar essa porra de falo! – rosnou raivoso. – Já disse que não quero nada, deixa o meu pau em paz! – em seguida, gemeu doloroso. Parece que a rigidez já estava trazendo a dor.

Me aproximei, agachei entre suas pernas e retirei suas mãos do local. Ele tentou resistir mais um pouquinho, mas quando abocanhei, ele parou. Com muito esforço, mas parou. Senti suas coxas tremerem nas minhas bochechas. Olhei para o seu rosto, e ele estava horrorizado e aparentemente derrotado, como a face dos bons Shinobis vencidos em guerra, tudo ao mesmo tempo. Mesmo ele sendo expressivo, sempre confunde as minhas distinções.

– Se estiver muito nojento, pode fechar os olhos. A dor logo vai passar, e eu logo sairei daqui, tudo bem?

Ele não respondeu e não se mobilizou da posição que estava. Apenas ignorei e continuei fazendo o que estava a fazer.

Voltei a analisar a estrutura, o tamanho que se modificou tão intensamente, o quão quente estava e o gosto novo que passava a surgir. Com toda a vontade, suguei tentando imaginar como seria se ele se desfizesse pela temperatura, como açúcar em caramelo. Umidificou meus lábios, seu membro estava ainda mais molhado, não exatamente pela saliva, mas o novo gosto surgiu quando seu pênis excretou um líquido agridoce como o cheiro do falo, antes. Seu quadril tremia muito, suas coxas passaram a se debater com êxtase, mesmo que controladas, o fluxo de movimentos era muito, parecia estar com frio. Impossível, seu corpo estava muito quente.

Em pouco tempo, uma torrente viscosa invadiu a minha boca, escorrendo um pouco pelo canto. Fui olhar o que era, e o líquido era branco com um cheiro forte de suor. Olhei a face do Naruto e ele parecia enojado. Não entendi porque, aquilo não era nojento, e pelo que li nos livros, parecia ser uma ejaculação, algo perfeitamente normal nos falos duros que voltavam ao normal por método de estimulação. Observei o pênis, ele voltou a ser exatamente como era. Achei legal, apesar de ter um pênis e ter visto mais de mil, nunca tinha realmente observado um duro ficar mole e vice versa.

Fiquei um tempo digerindo o ato, foram todas as emoções atualmente conquistadas de uma vez só.

Limpei meus lábios com língua e dedos. Não era o falo, mas pedaço dele estava agora dentro de mim de uma forma nada abstrata, como desejei.

Naruto se levantou e arrumou suas coisas. Afirmou que essa sem dúvida seria a última vez que algo do tipo aconteceria. Assenti com a cabeça sustentando o sorriso tão ensaiado no rosto. Apenas vi-o partir.

Depois de uma semanas, muitas missões cumpridas; não aprendi, mas revivi um sentimento antigo que tinha me esquecido. A saudade. Como um ninja de guerra ou contratual por morte, tornar-me um simples “escoteiro” – que era o que mais pareciam as missões classe A para minha experiência –  dificultou a execução do meu hobbie. Ainda tenho os livros, mas desde o pênis do Naruto, minha obsessão por falos aumentou, e torna qualquer outro passatempo insuficiente para o meu entretinimento. Se eu pudesse contemplar Naruto novamente…

“Esse cara é um pervertido mesmo”, um sussurro vindo do meu quarto.

Corri para ver o que se passava, e era nada mais nada menos que Naruto fuçando os meus desenhos no varal.

Até eu me assustei, até então não tinha notado o conteúdo das minhas artes. Inconscientemente eu tenho reproduzido o falo do Naruto em diversas performances, desenhei e pus para secar sem perceber.

Não me atrevi a olha-lo, não que eu me importasse, mas estender tudo isso só seria  mais cansativo.

“Por favor, se esse quarto não é mais seu, não entre pra fuçar as minhas cois…”, cortei a fala sacando minha espada, seu chakra se aproximou rápido que achei que ele ia me atacar, até sentir um ponto de pressão macio nos meus lábios. Uzumaki Naruto me beijou.

Não sabia o que estava sentindo, então não arrisquei expressão nenhuma.

– Abaixa isso. – Puxou minha espada e a jogou no canto.

Voltou a me beijar. Realmente não sabia o que fazer, sentir, expressar, então só acompanhei os movimentos.

Ele tirou minha camisa e senti frio, mas mantive minha face serena. Se eu começasse a calcular as expressões, não ia conseguir analisar mais nada. Beijou meus mamilos e senti um formigamento nos bicos e uma queimação no dorso. Naruto parecia feliz em estar fazendo aquilo, então permaneci imóvel. Ele deslizou a língua na minha barrida indo direto ao umbigo. Lá fez movimentos circulares, me fazendo sentir uma espécie de… Cócegas? Mordeu meu baixo ventre de leve, olhou pra mim sorridente, então sorri de volta. Ele pareceu se irritar, mas não tinha nada que eu pudesse falar, porque não sei o motivo da irritação. Voltei a ficar quieto.

Abaixando o zíper da minha calça, meu pênis saltou ereto pra fora. Naruto fez uma cara de confusão e ironia, acho que talvez estivesse se sentindo um pouco desconfortável com a situação.

– Está tudo bem? – Talvez fosse melhor saber direto da fonte como ele estava se sentindo.

– Sim… – Olhou pro lado desconfortável. – Não é atoa que zoava o meu pênis… – Deu um sorriso forçado, daqueles de quebra de tensão.

– Não se preocupe com isso. – Sorri acariciando seu rosto.

Ele sorriu de volta e pôs a boca devagar. Estava na cara que era a primeira vez pelo medo dele em ter dividido a contemplação em partes. Como eu com seu falo; primeiro o cheiro, depois a língua, por último a sucção. Mas no caso dele, aparentava mais um ninja checando terras.

Em pouco tempo, Naruto já me sugava que era uma beleza. Provavelmente gostou, como eu com o dele. Será que ele me deixa fazer nele depois? No fim eu peço.

Com uma formigação boa e bastante intensa, senti meus músculos inferiores se contraírem, eu estava tremendo tanto que ficar de pé incomodava bastante. Naruto pôs o pênis dele pra fora e iniciou uma acariciação. Eu ia pedir para ele não fazer, porque eu também queria, mas quando arrisquei dizer algo, saiu gemidos arfados de mim. Não adiantava segurar a respiração, eu estava ofegante porque comecei a sentir o meu corpo exausto, mas o gemidos eu só conseguiria segurar se não falasse nada.

Rapidamente, tudo que eu sentia parou em uma só cortada, mas minhas pernas ainda tremiam e meu corpo ainda estava com leve exaustão.

– Só volto a fazer se você gemer para mim. – Disse Naruto se afastando.

Ele acariciava o falo com convicção enquanto me olhava, a queimação entre as minhas pernas voltaram, aquela cena era muito bonita de se ver.

– Se eu gemer, o Naruto-kun permite que eu acaricie o delicado pênis dele depois?

Uma veia saltou de sua testa, a face completamente irritada, até era possível ouvir ranger de dentes.

– Idiota.

Sua face amenizou, mas permanecia rubra. Voltou em um só pulo para o que fazia em mim. Como combinado, parei de segurar os gemidos, mas me policiando para que não fossem tão altos. Em pouco tempo senti meu corpo chegar em um ápice e em espaços fragmentados de tempo, meu ventre contrair. Também senti umas leves contrações retais e meu falo umidificar com algo líquido que saia de mim. Parecia que eu estava fazendo xixi, mas do contrário, não podia segurar. Era aquele líquido branco.

– Saiu um montão comparado ao seu, né Naruto-kun? – Limpei o canto de seu lábio que escorria. – Deve ser pelo tamanho brutalmente diferenciado. – Sorri recolhendo um pouco da amostra e provando se tinha o mesmo gosto.

– Eu realmente te odeio. – Disse Naruto sorrindo.

Meu sabor era mais ameno, tinha quase não tinha gosto. Como diz o ditado, os perfumes mais concentrados se encontram nos frascos menores. Não falei isso para ele, porque se irritava por ter um pênis delicado e bonitinho.

Na próxima rodada, aproveitei, e quase todos os dias a contemplação era executada.

Minha obsessão por falos perdeu a pluralidade.

Superficial?

Não era de se surpreender que sangrasse. O tempo estava seco, o chão coberto de atrito devido a areia que impregnava, e, sem esquecer o principal detalhe, a força de Krystal era sem dúvida maior que das outras crianças da sua idade. Isso quando ficava brava, claro. O motivo, como sempre, era bobo. Ela de fato nem estava emburrada, mas ainda sim foi impulsiva ao empurrar Luna no chão após uma estúpida discussão iniciada pela ruiva sobre quem subiria no balanço primeiro. Não que Krystal fosse tão egoísta a ponto de derrubar a amiga no chão fazendo-a machucar o joelho de tal forma com o clima propício a sangramentos e traumas que lhe gerassem cicatrizes – ainda que pequenas e ralas – propositalmente. Mas Krystal tinha uma mania muito feia de estressar com tudo e particularizar tudo.

Mesmo que com poucos, apenas nove anos, ela tinha inteligência o suficiente para saber controlar o seu emocional. Sem dúvida passou da fase de gritar por doces no supermercado na hora de fazer compras, isso há tempo não era problema para seus pais. Ela era uma mocinha, em três anos entraria na puberdade; tinha pleno conhecimento de como se comportar como tal. Então por quê? Por que sempre que discutia com Luna acabava atingindo-a de alguma forma?

– Foi culpa sua. Você sabe que os menores tem que ficar por último, e eu sou um palmo mais alta que você. – Encarava Luna de braços cruzados com um olhar de reprovação ao ver a amiga se segurando para não chorar com o joelho levemente esfolado. – Quem não segue as regras, dança.

Suspirou e estendeu a mão ajudando a menina a se levantar, guiava-a até o banquinho mais próximo. Retirou um lenço branco do bolso da saia e secou o machucado da amiga com a pouca ternura que lhe restava.

– Vem, eu te ajudo a ir até sua casa. – Apoiou a mais baixa em seu ombro e foram andando lentamente, devido aos passos mancos da menor.

Krystal era sempre explosiva porque apesar de saber se portar socialmente, a história era diferente quando se tratava de amigos. Luna era sua única amiga, e Krystal nunca teve outros anteriores a ela. Sabia se comportar no shopping, na escola, no trabalho de sua mãe. Sabia etiqueta com os adultos, mas não com as outras crianças. Nem fazia questão. Desde a primeira vez na escola, nunca fez diferença para a ruiva estar acompanhada de amigos ou não. Luna só se tornou sua amiga porque era filha da colega de sua mãe.

“Por que não dá um abraço nela?” foi o que sua mãe disse quando a colocou frente a frente com Luna. Elas tinham uns quatro anos.

Krystal sempre teve personalidade forte. Se ela não quisesse se aproximar de Luna, não teria o feito.

“Muito bem. Espero que sejam amigas agora.”

No fundo só tinha abraçado porque, como ela, a menina parecia ser socialmente frágil. Tinham algo em comum.

Era um costume para Krystal encontra-la aos finais de semana para brincarem. Hoje, por insistência de Luna, foram ao parquinho.

– Por favor, é ali ao lado. Estou com saudade de balançar!

– Balanço? – Krystal disse com deboche. – Que coisa mais boba! – Afirmava com um ar superior, como se quisesse ser mais adulta.

Não era o primeiro episódio, e de longe aquele seria o último. Era quase parte da personalidade da Krystal agredir a amiga por pouco. Esquentava-se com tudo, sempre perdia o controle da situação e nunca pedia desculpas. Para que? Luna nunca reclamava.

No fundo, e inicialmente, Krystal temia que no dia seguinte Luna não batesse a sua porta a chamando para brincar. Mas, posterior às brigas, sem falta, estava Luna com um grande sorriso dizendo “Bom dia, Krys.”, e o abraço nunca faltava. Talvez pudesse tudo por só ter ela com quem conversar.

Tudo durou até Krystal decidir que queria porque queria o urso da loira.

– Pode brincar com tudo, menos com ele! – Dizia a loira puxando o objeto das mãos fixas de Krystal.

– Eu sou visita! Você tem que ser cortês e me deixar brincar com o que eu quiser!

Luna oferecia todos os brinquedos que tinha na casa, mas nenhum deles era o urso, e Krystal queria brincar com o urso.

Irritada, puxava o urso das mãos da menor afirmando que se ela continuasse com o egoísmo, não voltaria a sua casa nunca mais. A loira implorava para a ruiva soltar com uma voz angustiada, até que em uma puxada brusca da outra, sentiu seu ursinho rasgar em suas mãos.

– Droga, Luna! Olha o que você fez! Por que não me deu para brincar? Ele estaria inteiro e eu feliz! – Fez bico cruzando os braços.

Luna não falou nada, apenas juntou a cabeça no corpo do ursinho tentando inutilmente conserta-lo. A cena deixou Krystal ainda mais irritada.

– Está rasgado! Não adianta ficar unindo as peças. – Levantou-se e foi em direção à porta. – Depois pede para a minha mãe remendar. Vou embora, até amanhã.

Foi como se nada tivesse acontecido. Costume.

No dia seguinte, Luna não veio lhe ver, nem no seguinte, e seguinte. Luna não frequentava mais a casa de Krystal, e quando o contrário, pensava consigo que era muito feio se convidar, isso era coisa que só a Luna fazia, e não ia convida-la, ela que viesse ou a chamasse.

Mas o tempo foi passando, e Krystal refletia o quão solitária tinha ficado. Não solitária com falta de alguém, mas com falta de Luna. A doçura, seu cuidado e paciência, a personalidade da loira tinha se essencializado em sua vida. Como a presença da outra ficou tão precisa? Não era só um passatempo? A filha da colega da mãe que gostava de brincar com si? Não era isso que sentia. Única coisa que martelava sua cabeça era a dor que lhe ensinava uma dura lição.

O ser humano… Tão vulnerável a aprender através do sofrimento, perdendo algo para saber o que é ganhar.

Se deprimiu por um período de tempo. Temia encontra-la e ser maltratada pela mesma, ou ouvir da boca da própria que jamais seriam amigas de novo. Isso provavelmente seria um corte profundo na garganta, até pior que os arranhões que ainda estavam presentes no joelho de Luna pós-empurrão.

Quando completou 10 anos, tomou uma atitude que de todas foi a mais difícil de sua vida. Iria reencontrar Luna. Não sabia como agir, falar ou até respirar. Tentava ensaiar o que aconteceria, mas estava tão nervosa que apenas contribuía para mais sofrimento.

Falando em sofrimento, como foi sofrido o percurso para a casa de Luna! Krystal não parava de sofrer de forma prévia. A culpa a consumia de tal forma e a necessidade que tinha em ter Luna novamente ao seu lado era tanta que até gripe acreditava estar contraindo.

Com o coração afoito, encarou seus medos. Encarou-os em nome de algo maior, ter a amiga de volta. Lágrimas caíam do rosto até o caminho da porta. Limpou-as bem antes de apertar a campainha, mas elas não paravam de cair. Chegou a tão esperada hora.

Cada estalar da chave na fechadura, dificuldades de girar a maçaneta emperrada, todos os suspenses contribuíam certeiramente às batidas fortes no coração que dificilmente se acalentaria até o fim da história estar assinado. Segurava o choro de pânico que já enrugava seus olhos infantis.

E com um empurrão, abriu-se a porta e, surpresa, a pequena esperava do outro lado abraçando seu urso completamente remendado.

Krystal olhou para o brinquedo nas mãos da pequena e seu choro desabou. Luna entrou em choque rápido, por que a menina chorava assim? O que deveria fazer?

– Luna, por favor, me desculpa! – lambuzava-se com as costas das mãos tentando limpar seus olhos molhados e nariz sujo que só se espalhavam com a expressão.

Apertava seus olhos e tentava bloquear mentalmente os ouvidos aguardando os possíveis ataques que levaria, também, por via das dúvidas, protegia o peito de seus pés afastando-se caso a loira batesse a porta. Tremia tanto que sentia sua pressão baixar. Por via das dúvidas, preparada como sempre, mantinha os joelhos levemente dobrados e pernas meio separadas em caso de desmaio. A angústia a consumia tanto que não distinguia mais tempo; mesmo que segundos tivessem se passado, para ela já esperava a reação da amiga há horas.

Com um toque leve, sente seu ombro ser pressionado. Olha para cima ainda cobrindo o redondo dos olhos, Luna mostrava aquele sorriso simpático sincero que esbanjou na primeira vez que se viram.

– Não vou desculpar, porque não existe culpa alguma. – E então a abraçou.

Era a segunda vez se abraçavam.